20/4/16

Gramsci e as lutas subalternas hoje: espontaneidade e organização política

Marcus E. Green   |   Este artigo tem como objetivo realizar um exame sobre a espontaneidade e a direção consciente nos escritos de Antonio Gramsci. Em contraste com as acusações de vanguardismo, busca-se mostrar que a teoria política de Gramsci é essencialmente fundada no empoderamento democrático dos grupos subalternos. Em seguida, se considerará a relevância contemporânea destes argumentos para a discussão do Occupy Wall Street e sua mudança de um ato de ocupação para uma organização permanente.

Nos Cadernos do Cárcere, Gramsci empreende uma análise crítica dos grupos subalternos, examinando suas condições, os fatores que contribuem para sua subordinação, seus modos de pensamento, cultura e seus níveis de organização política. Ele tenta identificar os fatores que capacitam e os que impedem os grupos subalternos na transformação de suas condições. No Caderno 3, §48, intitulado “Passado e presente. Espontaneidade e direção consciente”, o autor argumenta que as lutas políticas subalternas são muitas vezes caracterizadas pela espontaneidade, um fator que contribui para aspectos ineficazes e, às vezes, regressivos da atividade política subalterna.2 Por “espontaneidade”, Gramsci sugere a ação dos grupos subalternos de acordo com um impulso inquieto ou “instinto” de revolta, devido a crises ou condições inaceitáveis. Rebeliões e revoltas espontâneas dos grupos subalternos indicam descontentamento social e desejo por uma mudança sócio-política, mas tais movimentos raramente conseguem transformar as suas próprias condições. Assim, para ser eficaz, argumenta que as lutas subalternas devem ser fundadas na “direção consciente”, descrita como a atividade política informada pela teoria revolucionária e enraizada em uma compreensão sistemática das condições históricas que definem a subalternidade.

No entanto, para Gramsci, não existe espontaneidade ou direção consciente puras na história. Ambas são representações de concepções escolásticas e acadêmicas de uma “teoria abstrata”. Existem elementos e gradações de espontaneidade e direção consciente em todo movimento. O autor faz uma distinção entre grupos subalternos marginais e avançados, com níveis variados de consciência, direção e organização. Grupos marginais e menos avançados, argumenta, são inclinados a agir de acordo com uma conglomeração incoerente de ideias tiradas do “senso comum” – como da experiência cotidiana, da ciência popular, do folclore, das concepções tradicionais de mundo e da religião. Tais movimentos, embora não constituídos de uma estratégia política criticamente definida, e muitas vezes dispersos, representam a vontade dos grupos subalternos em transformar suas condições. É através da necessidade prática em prover “direção consciente” para suas atividades que os grupos subalternos começam a transformar seu “senso comum” – para aquilo que Gramsci chamou “bom senso” – com elementos de consciência história e crítica (C. 11, §12).

Esse processo, Gramsci argumenta, é constitutivo dos próprios grupos subalternos, enquanto tentam oferecer direção consciente para sua atividade política espontânea, coordenados com os “intelectuais orgânicos” e “filósofos democráticos” que emergem da luta.3 A formação das organizações políticas subalternas autônomas representa uma fase intermediária de direção consciente na qual os grupos subalternos pressionam de forma coletiva por reivindicações e demandas políticas. Gramsci considera a formação do partido revolucionário, capaz de unir e liderar grupos e organizações subalternas em uma transformação hegemônica do Estado e da sociedade civil, como o mais alto nível de desenvolvimento político subalterno. Desta forma, como Gramsci escreve no Caderno 3, §48, a “unidade da ‘espontaneidade’ e ‘direção consciente’ ou ‘disciplina’ é precisamente a ação política real das classes subalternas” (C.3, §48).

Em resposta à onda de levantes globais que emergiram em 2011 no Norte da África, Europa e América do Norte, tem havido um retorno às questões de espontaneidade e organização política nos movimentos radicais – desde a adoção da auto-organização espontânea sem liderança, horizontal, de estruturas organizacionais rizomática (HARD; NEGRI, 2012; ROOS, 2013; TROTT, 2013) à necessidade de reconstrução do partido político revolucionário (Dean, 2012; ŽIŽEK, 2012). Em meio a discussões recentes, a ideia de Gramsci do partido político unindo e liderando uma aliança de classes e grupos sociais na transformação da sociedade é frequentemente vista como desatualizada, alertando a necessidade por novas formas organizacionais (HARDT; NEGRI, 2012, p.69-69; BADIOU, 2012; Day, 2005).

Além disso, um número de críticos acusaram Gramsci de “vanguardismo” e “elitismo” por suas avaliações críticas da espontaneidade e do senso comum (BEVERLEY, 2000, 2001; RABASA, 2010). Um julgamento geral é o de que a crítica de Gramsci ao senso comum criaria uma hierarquia elitista entre conhecimento e consciência, e a sua ênfase na educação da espontaneidade através da direção consciente equivaleria a uma “manipulação” do povo (RABASA, 2010, p. 126- 127). Ao não considerar o contexto histórico dos escritos de Gramsci, tais julgamentos negligenciam as limitações que ele identifica na espontaneidade, e a valorização do senso comum sobre a direção consciente cria um impasse que torna a transformação política subalterna quase impossível.

Por meio de um exame dos escritos de Gramsci sobre a espontaneidade e a direção consciente em seus textos pré-carcerários e nos Cadernos, este capítulo examina seu argumento de que é apenas pelo desenvolvimento de uma consciência crítica e histórica combinada com uma organização política revolucionária que os grupos subalternos serão capazes de superar sua subordinação. A posição de Gramsci, como vou mostrar, é informada por uma análise crítica dos levantes políticos espontâneos da história italiana e pelas reflexões sobre sua própria prática política. Em contraste com as acusações de vanguardismo, como vou argumentar, a teoria política de Gramsci era essencialmente fundada no empoderamento democrático dos grupos subalternos. Dos seus escritos de jornalista, ativista e líder partidário às suas reflexões nos Cadernos do Cárcere, Gramsci continuamente retorna à importância da educação, da cultura e da organização na formação do processo revolucionário (MAYO, 2008, p.418-435). Em sua visão, é precisamente através da educação e organização que os grupos subalternos se capacitarão, superarão os limites da espontaneidade, e finalmente agirão enquanto vontade coletiva na transformação de suas condições. Com este exame, considerarei a relevância contemporânea dos escritos de Gramsci sobre espontaneidade e organização política para a discussão do Occupy Wall Street e a emergente mudança de um ato de ocupação para uma organização permanente.
Lutas camponesas e operárias na Itália
Ao examinar as rebeliões espontâneas características da segunda parte do século XIX na história italiana, Gramsci notou que as ações dos grupos subalternos não romperam com a subordinação política ou transformaram as condições de vida de forma permanente. No artigo “Trabalhadores e Camponeses”, publicado em agosto de 1919, Gramsci nota como a natureza do desenvolvimento desigual do capitalismo na Itália e a formação do Estado moderno criaram condições nas quais os camponeses do Sul eram incapazes de definir uma estratégia sistemática para suas lutas (GRAMSCI, 1977, p. 83-87).4 No período que segue o Risorgimento (1861), a agricultura sulista adere a uma estrutura econômica mais ou menos feudal, na qual o Estado aparentemente moderno e liberal-democrático protegeu a grande classe proprietária de terras. Devido à exclusão política e às condições econômicas pobres, os camponeses emergiram em violentas revoltas. Engajaram-se em greves, motins urbanos, invasões de terras e ocupações. Grupos de bandidos assassinaram oficiais, prefeitos, vereadores e guardas nacionais do novo Estado. Por conta da natureza individualista da depredação e das revoltas, o camponês – nas palavras de Gramsci – era “incapaz de ver a si mesmo como um membro da coletividade” e, por conta disso, não poderia “empreender uma campanha sistemática e permanente destinada a alterar as relações econômicas e políticas da sociedade”.
“Sob tais condições, a psicologia dos camponeses foi inescrutável: seus reais sentimentos permaneceram ocultos, enredados e confusos em um sistema de defesa contra a exploração que era meramente individualista, destituído de uma continuidade lógica, inspirada em grande medida pela astúcia e pelo servilismo fingido. A luta de classes foi confundida com banditismo – com ameaça, queima de florestas, abatimento do gado, rapto de mulheres e crianças, assaltos à prefeitura – era uma forma de terrorismo elementar, sem longo prazo ou consequências eficazes” (IBID., p. 83-84).
O governo italiano enviou mais de 100 mil tropas ao Sul para reprimir violentamente as revoltas. Na década posterior ao Risorgimento (1861-1871), mais pessoas foram mortas na supressão de levantes e depredações do que em todas as guerras de independência ocorridas entre 1848 e 1861 (HEARDER, 1983, p. 240-241). A ascensão do movimento dos trabalhadores no fim do século XIX e início do século XX também foi recebida com uma repressão brutal. Na rebelião de 1893-1894 entre os Fasci Siciliani, trabalhadores e camponeses se envolveram na ação política direta espontânea, com ocupações de terra, manifestações e confrontos com a polícia, devido à deterioração das condições econômicas. Em resposta à inquietação popular, o primeiro ministro Francesco Crispi enviou 40 mil tropas para a ilha, instituiu a lei marcial, dissolveu o Partido Socialista dos Trabalhadores Italianos, ordenou a prisão de seu Comitê Central e purgou os cidadãos mais pobres das listas de votação (MILLER, 1990, p. 15; KILLINGER, 2005).

De modo similar, em 1898 os trabalhadores de Milão se manifestaram contra a ascensão dos preços e a escassez de alimentos, e depois das tropas balearem e matarem manifestantes, a cidade irrompeu em protesto com greves, marchas e ocupações de rua. O major de Milão respondeu com repressão militar, através da qual 250 pessoas foram mortas e milhares presas. Ele dissolveu a Câmera do Trabalho de Milão, bem como os grupos eleitorais socialistas, e fechou a imprensa radical (LEES; LEES, 2008, p. 163). Em 1906, quando Gramsci tinha quinze anos de idade, sua terra natal, a Sardenha, foi varrida por uma convulsão social violenta. Após soldados abrirem fogo em uma manifestação pela baixa dos preços de alimentos, vinte pessoas foram feridas e duas mortas, os protestos se espalharam por toda ilha. Pessoas atacaram fábricas de queijo, repartições fiscais, lojas próprias, pilharam, danificaram maquinarias e apedrejaram lojistas inocentes. Soldados reprimiram brutalmente o levante, dispostos a atirar em multidões e prender milhares de pessoas (FIORI, 1970, p. 44-50).

Da sua juventude na Sardenha até sua carreira como jornalista e ativista político, e finalmente com o ascenso do fascismo, Gramsci testemunhou a repressão brutal dos movimentos de camponeses e trabalhadores. Seus escritos pré-carcerários documentam muitas das atividades políticas diretas e espontâneas que ocorreram no movimento trabalhista italiano e as respostas reacionárias que se seguiram. Como um ativista, rejeitou consistentemente estratégias que priorizavam a tomada revolucionária de poder ao cultivo de uma cultura revolucionária (BUTTIGIEG, 1995, p. 1-32). Gramsci havia percebido que sem a formação de um movimento revolucionário de massa, os grupos sociais dominantes utilizariam os militares e a violência para proteger suas posições e prevenir que os grupos sociais subalternos obtivessem o poder político. Em 1919, escreveu: “se uma minoria revolucionária obtiver sucesso na tomada violenta de poder, essa minoria será derrubada no dia seguinte por um contragolpe lançado pelas forças mercenárias do capitalismo, uma vez que a maioria não envolvida permitiria que a nata das forças revolucionárias fosse massacrada” (GRAMSCI, 1977, p. 127).5 Porque o Estado moderno se fundou sobre a unidade da força e do consenso, Gramsci argumentava que os movimentos revolucionários necessitavam de uma direção intelectual e moral antes mesmo da conquista do poder político.

Apesar das críticas, Gramsci não repudiou os movimentos espontâneos. Ele simplesmente enfatizou qual era seu significado, sua função e suas limitações no processo político. Em sua visão, os levantes espontâneos dos trabalhadores e camponeses por toda a história italiana demonstrava o desejo revolucionário das massas em transformar suas condições. Como escreveu no artigo “Unidade proletária”, publicado em fevereiro de 1920:
“Da perspectiva do lirismo revolucionário e da moralidade pequenoburguesa, estas manifestações de massa são vistas como sublimas ou grotescas, heroicas ou bárbaras; da perspectiva do marxismo, elas devem ser vistas em termos de necessidade histórica. Para os comunistas, elas têm valor real na medida em que revelam nas massas uma capacidade, inícios de uma nova vida, aspirações em criar novas instituições e uma nova unidade histórica para renovar a sociedade humana das suas raízes para cima” (IBID., p. 173).6
Em seus escritos, Gramsci insiste na ideia de que a atividade política espontânea deve operar em coordenação com a direção consciente, na qual as massas entendam sua atividade, seu sentido e as consequências. O objetivo político central é, para os grupos subalternos, se mover da atividade política rebelde para a atividade revolucionária na qual o grupo possua a capacidade de não apenas se revoltar contra suas condições inaceitáveis mas possuir o conhecimento e a capacidade de transforma-las.
L’Ordine Nuovo e os conselhos de fábrica
A fundação do jornal L’Ordine Nuovo foi um movimento crítico no projeto de desenvolver uma cultura e sociedade socialistas. Gramsci e seus camaradas acreditavam que o movimento socialista era algo a ser construído politicamente e culturalmente, e eles viam o jornal como um elemento deste processo. A primeira página da edição de estreia, publicada em 1o de maio de 1919, continha o slogan do jornal: “Instrui-vos porque teremos necessidade de toda vossa inteligência. Agitai-vos porque teremos necessidade de todo vosso entusiasmo. Organizai-vos porque teremos necessidade de toda vossa força.”7 O jornal era um instrumento no desenvolvimento do movimento de conselhos de fábrica de Turim. Em 1919, Gramsci escreveu artigos louvando o desenvolvimento dos conselhos de fábrica como as organizações democráticas da cultura proletária que forneceriam a educação política necessária para trabalhadores se tornarem equipados no exercício do poder político. A organização de associações, clubes sociais e comunidades camponesas de trabalhadores democráticos e autônomos era vista como a base da democracia dos trabalhadores e “o esqueleto do Estado socialista” que poderia substituir o Estado burguês (IBID., p. 65-66)8 Gramsci acreditava que o espírito de democracia e colaboração fomentado no ambiente de trabalho forneceria aos trabalhadores educação, experiência, disciplina e a estrutura permanente necessária para a fundação de um Estado democrático de trabalhadores (GRAMSCI, 1977, p.67; MAYO, 2008, p.423). Em suas palavras: “É necessário convencer os trabalhadores e camponeses que é do seu interesse se submeter a uma disciplina permanente de cultura, desenvolver uma concepção de mundo e o complexo e intricado sistema de relações humanas, econômicas e espirituais que formam a vida social do globo.” (GRAMSCI, 1987, p. 126).9  A questão não era meramente que os trabalhadores entendessem a si mesmos como assalariados, mas que entendessem a si mesmos como os produtores “no processo de produção, em todos os níveis, da oficina à nação e ao mundo” (ID., 1977, p. 109-113).10

O grupo de L’Ordine Nuovo, em suas palavras, empreendeu o desenvolvimento dos conselhos de fábrica e o estudo da “fábrica capitalista como uma forma necessária da classe trabalhadora, como órgão político, como o ‘território nacional’ do ‘autogoverno’ dos trabalhadores”. O propósito era “desenvolver a ideia de liberdade dos trabalhadores realizada na prática inicialmente no Conselho de Fábrica e, em seguida, para além” (Ibid., p. 292- 297).11 Nesse sentido, os conselhos de fábrica funcionaram como organizações políticas prefigurativas nas quais se colocava os valores democráticos e socialistas em prática em meio ao capitalismo como um processo de construção (prefigurando) a sociedade socialista futura (BOGGS, 1977, p. 359-393). Como Gramsci escreveu posteriormente em seu Caderno 3, §48, a unidade da espontaneidade e da direção consciente no movimento de conselhos de fábrica “deu às massas uma consciência ‘teórica’ de si mesmas como criadoras dos valores históricos e institucionais, como fundadoras dos Estados.”

O Partido Socialista Italiano (PSI) não apoiou o movimento de conselhos de fábrica, e estes não tinham a capacidade organizacional de gerar um apoio público massivo. O próprio grupo Ordine nuovo foi acusado de ser “espontaneísta” e “voluntarista” (C. 3, § 48). As críticas de Gramsci ao partido por esta falta de apoio são instrutivas pois revelam sua concepção do papel da liderança do partido. Em um artigo intitulado “Pela renovação do Partido Socialista”, ele critica o PSI por sua falta de conexão e liderança com tanto camponeses e trabalhadores, por não informar o público dos eventos nacionais e internacionais que afetam o movimento trabalhista, por não definir um programa revolucionário para um governo socialista, por não desenvolver uma campanha educacional abrangente para elevar a consciência dos trabalhadores italianos como produtores da economia global, e por não promover uma “consciência revolucionária” entre os trabalhadores (ID., 1977, p. 190-196).12 Em uma seção crítica, Gramsci afirma que o partido está desconectado da realidade da luta de classes, de sua posição nela, e está despreparado para assumir o poder político. Em suas palavras, “o Partido Socialista deve desenvolver uma ação abrangente destinada a colocar a totalidade da classe trabalhadora em uma posição de ganhar a revolução e ganhá-la permanentemente” (IBID., p. 191). Em um de seus momentos mais proféticos, argumentou que se o partido fosse incapaz de capturar o poder político, haveria uma reação política violenta das classes proprietárias para destruir o movimento trabalhista e sua organização.

A concepção de liderança partidária de Gramsci é também revelada em seus escritos do período das ocupações de fábricas em agosto e setembro de 1920. Por toda Itália mais de 400 mil metalúrgicos ocuparam suas fábricas devido à queda dos salários e às más condições de trabalho. Um adicional de 100 mil trabalhadores de outros sindicatos apreenderam fábricas em apoio aos metalúrgicos, e milhões de outros se envolveram indiretamente (CLARK, 1977, p. 157). As ocupações em Turim, que envolveram mais de 100 mil trabalhadores, reviveram a atuação dos conselhos de fábrica, e trabalhadores em diferentes regiões do país criaram conselhos de fábrica similares aos de Turim. Através da organização de conselho, trabalhadores continuaram a administrar fábricas, mantendo produção, distribuição, transporte e comercialização de matérias-primas. Algumas fábricas também estabeleceram os “Guardas Vermelhos” para defender as fábricas de possíveis assaltos.

As ocupações de fábrica validaram a importância política dos conselhos de fábrica enquanto organizações democráticas, como Gramsci já havia argumentado, e o fato dos trabalhadores serem capazes de retomar a produção e a coordenação interfábricas reforçou o fato de que os trabalhadores eram capazes de se auto-administrarem e auto-organizarem. Em uma série de artigos, Gramsci analisou alguns dos fatores que confrontaram os trabalhadores ao longo da ocupação. Em um artigo que apareceu nas edições do Piemonte e de Milão do Avanti!, ele alertou os trabalhadores a não se iludirem pensando que a ocupação de fábricas por si só resolveria a questão do poder político.
“a pura e simples ocupação das fábricas pela classe trabalhadora, embora indique a extensão do poder do proletariado, não produz dentro ou fora de si mesma qualquer posição nova, definitiva. O poder permanece nas mãos do capital; a força armada permanece propriedade do Estado burguês; a administração pública, a distribuição das necessidades básicas, as agências de eliminação de crédito, o aparelho comercial ainda intacto todos permanecem sob o controle da classe burguesa” (GRAMSCI, 1977, p. 327).13
Gramsci argumentou que a ocupação das fábricas marcaram um evento histórico da classe trabalhadora em um movimento revolucionário, mas a revolução não seria tão fácil de realizar como a ocupação de fábricas indefesas.

Embora a ocupação de fábricas fosse a demonstração mais significativa do movimento trabalhista no biennio rosso de 1919-1920, nem o Partido Socialista nem o movimento dos trabalhadores estavam preparados para a revolução. Ao fim de setembro, sindicatos negociaram o aumento dos salários para os trabalhadores como uma resolução da disputa. O acordo representou uma vitória temporária para os trabalhadores em termos econômicos, mas em termos políticos sinalizou a derrota do movimento revolucionário (CAMMETT, 1967, p. 120). Os trabalhadores expressaram a decepção e desilusão com o PSI por contornar o momento revolucionário que os próprios trabalhadores produziram. Gramsci acusou o Partido de “verbalismo demagógico” por promover a revolução sem ter capacidade de produzi-la, por gerar um problema político e propor a ele uma “solução econômica” reformista. Em outras palavras, o Partido demonstrou a derrota da direção consciente. Ele criticou o PSI por sua direção inadequada e por sua incoerência política, afirmando que o Partido era revolucionário apenas em palavras e não em ação:
“o Partido Socialista Italiano não é diferente do Partido Trabalhista Inglês. É revolucionário apenas em termos de afirmações gerais contidas em seu programa. É um conglomerado de partidos. Ele se move e não pode evitar se mover lentamente e tardiamente. Corre o risco permanente de se tornar uma presa fácil de aventureiros, carreiristas e homens ambiciosos sem capacidade política e seriedade” (GRAMSCI, 1977, p. 337). 14
“Ele muda e altera suas cores ao mesmo tempo que as massas mudam e alteram suas cores. De fato, esse partido Socialista, que se proclama guia e mestre das massas, não é nada mais do que um funcionário miserável anotando as operações que as massas espontaneamente realizam. Este pobre Partido Socialista, que se autoproclama a cabeça da classe trabalhadora, não é nada mais do que a retaguarda do exército proletário” (IBID., p.337-33
O PSI demonstrou sua inabilidade em dirigir. Falhou em entender sua missão política de estabelecer um novo Estado, e falhou em liderar o povo que clamava representar e do qual obtinha apoio. Nas palavras de Gramsci, “deveria ser o partido de ‘todos os trabalhadores’ e em vez disso se tornou o partido de ‘ninguém’” (IBID., p. 370).15 Até a derrota do movimento de conselhos e ocupações de fábrica, o jovem Gramsci, como Carlos Nelson Coutinho argumentou, subestimava o papel do partido político no processo revolucionário. Gramsci começou a ver a necessidade da organização política além do espaço da fábrica, “abrangendo todas instituições sociais, políticas e culturais que propiciam a reprodução da vida social como um todo (incluindo a reprodução da produção econômica).” (COUTINHO, 2012, p.18). Através desta experiência, Gramsci declarou seu apoio à formação do partido comunista e considerou necessário um novo tipo de partido, capaz de politicamente liderar as massas, além dos estreitos interesses corporativistas da classe trabalhadora, no processo de criação de um Estado socialista.

Gramsci consistentemente argumentou que a transformação política não poderia ocorrer sem organização e direção consciente, mas para tal direção ter sucesso, era necessário aos trabalhadores e camponeses se educarem e desenvolverem uma consciência crítica de suas condições. Em novembro de 1923, um ano desde que os fascistas tinham chegado ao poder, Gramsci enviou uma carta para o jornal italiano Voce della Gioventù, o documento oficial da Federação Comunista da Juventude. A carta era uma resposta a uma discussão no jornal sobre a derrota do movimento revolucionário e que prenuncia alguns dos grandes temas dos Cadernos do Cárcere. Gramsci argumenta que uma das questões principais que contribuíram para a derrota do movimento não foi somente o fracasso da direção, uma vez que a existência de um “partido verdadeiramente revolucionário” poderia não ser o suficiente. Ele argumenta que a causa da derrota pode ser algo mais profundo do que apenas a falha da liderança. Tinha a ver com a falta de autoconsciência crítica do próprio movimento. O movimento revolucionário italiano não entendeu sua própria posição, não desenvolveu uma concepção de mundo coerente, não a disseminou entre as massas ou fortaleceu a consciência de seus militantes. Em outras palavras, faltou ao movimento revolucionário uma cultura própria e compreensão crítica. Desta forma, de acordo com Gramsci, era necessário iniciar do início e desenvolver a tal auto-compreensão crítica.
“Eis o que deve ser o “começo” da “classe trabalhadora”. É necessário proceder a uma autocrítica impiedosa de nossa fraqueza e começar a nos questionar o porque perdemos, quem somos, o que queremos, onde queremos ir. Mas há outra coisa que deve ser feito primeiro (sempre se acha que o começo tem outro... começo!): é necessário fixar os critérios, princípios, a base ideológica de nossa própria crítica” (GRAMSCI, 1978, p. 169).16
Depois de colocar a questão retórica “A classe trabalhadora tem sua própria Ideologia?”, ele continua:
“Por que os partidos proletários italianos sempre foram fracos do ponto de vista revolucionário? Por que falharam quando deveriam ter passado das palavras à ação? Eles não conheciam a situação na qual deveriam agir, não conheciam o terreno no qual deveriam travar o combate. Basta pensar: em mais de trinta anos de vida, o Partido Socialista não produziu um único livro com estudos sobre a estrutura socioeconômica da Itália. Não possuem um único livro sobre os partidos políticos italianos, seus vínculos de classe, seus significados (...)
Não conhecemos a Itália. Pior ainda: nos falta os instrumentos adequados para conhecer a Itália como ela realmente é. Por isso, é quase impossível para nós fazer previsões, nos orientar, estabelecer linhas de ação que tenham alguma probabilidade de serem precisas. Não há nenhuma história da classe trabalhadora italiana. Não dá nenhuma história da classe camponesa. Qual foi a importância dos eventos de 1898 em Milão? Que lição fornecem? Qual foi a importância da greve de 1904 em Milão? Quantos trabalhadores sabem que então, pela primeira vez, a necessidade da ditadura do proletariado foi explicitamente afirmada?” (IBID., p. 170).
Em outras palavras, Gramsci está dizendo que falta à classe trabalhadora e camponesa uma consciência histórica e crítica de sua própria existência e das condições nas quais existem. Como ele continua em sua carta, pergunta: “O que é para ser feito?” e em sua resposta postula a importância da educação e organização com o objetivo de desenvolver uma estratégica para uma luta futura. “Aqui está uma tarefa imediata para o grupo de amigos da Voce: se encontrar, comprar livros, organizar aulas e discussões sobre o assunto, formar um critério sólido para pesquisa e estudo, e criticar o passado – a fim de ser mais forte no futuro e ganhar” (IBID., p.171). Ele essencialmente expressa a conexão integral entre teoria e prática e a necessidade de compreender sua própria condição para então transformá-la.

A ênfase na compreensão de sua história ecoa a importância que Gramsci coloca no registro dos movimentos espontâneos e autônomos dos grupos subalternos em suas notas sobre a subalternidade (C.3, §48; C.25, §§2 e 5). Ele enfatiza a importância do desenvolvimento de uma história integral dos movimentos e iniciativas independentes dos grupos subalternos como uma forma de entender os movimentos revolucionários, assim como um processo necessário para o desenvolvimento da consciência crítica. Ele concebe o desenvolvimento da consciência crítica dos grupos subalternos como o processo de tornar o senso comum coerente, o que chama de “bom senso”. Gramsci esclarece essa ideia em sua conhecida afirmação do Caderno 11, §12 que concerne a formação de uma consciência crítica (o “conhece-te a ti mesmo”), que é motivada pela necessidade prática de prover uma “direção consciente para uma atividade”. Ele descreve esse processo como o de tornar os elementos do senso comum “mais unitários e coerentes”, bem como prover “bom senso” para a atividade. A ideia geral é que os grupos subalternos devem desenvolver uma autoconsciência crítica de sua história sócio-política e prática prévia de modo a fortalecer suas capacidades organizacionais e intelectuais na luta por transformar a sociedade. Em outras palavras, grupos subalternos devem aprender com sua história a fim de informar a eficácia de sua práxis.

O objetivo de sua análise é definir os elementos que possibilitam aos grupos subalternos conquistar uma vitória permanente em suas lutas. Como escreve em seu Caderno 25, §2: “Grupos subalternos estão sempre sujeitos à atividade dos grupos dominantes, mesmo quando se rebelam e insurgem: somente a vitória ‘permanente’ rompe, e não imediatamente, a subordinação”. A ideia de “vitória permanente”, em um sentido crítico, envolve essencialmente a abolição da própria subalternidade, o que requer a formulação de uma nova fundação ético-política da sociedade que impeça a subordinação de um grupo por outro. A ideia estratégica que Gramsci apresenta é a de que os grupos subalternos devem formular e desenvolver uma nova “concepção de mundo”, um novo “senso comum” e cultura que tenham capacidade de transformar a sociedade.

Esse processo, que Gramsci descreve como “fragmentado”, “episódico” e “continuamente interrompido pela atividade dos grupos dominantes” (C.25, §2) exige a formação de organizações políticas subalternas autônomas, como conselhos, sindicatos, associações culturais e partidos, que sejam capazes de confrontar as organizações e instituições dos grupos sociais dominantes. Desenvolver a definição de uma nova fundação ético-política da sociedade requer um nível concentrado de direção intelectual e moral (isto é, hegemonia), na qual os grupos subalternos comecem a transformar a sociedade civil em um movimento político de massa que seja capaz afinal de confrontar e transformar efetivamente os aparatos coercivos do Estado (sociedade política) (BUTTIGIEG, 1995).

A despeito das reivindicações de vanguardismo e elitismo em seu pensamento, os temas da educação e organização aparecem nos escritos pré- carcerários e carcerários de Gramsci. Além disso, em claro contraste com estas observações, as críticas de Gramsci ao senso comum e à espontaneidade ilustram o foco radicalmente democrático e crítico de sua análise, que identifica as limitações da concepção de política e formas de pensamento dos grupos subalternos a fim de melhorar e fortalecer suas capacidades intelectuais e políticas. Ele abraçou as implicações radicais dos movimentos espontâneos dos grupos subalternos, mas também não tinha ilusões que queima de lojas, depredações, orações por mudança, ou ocupações de fábrica transformariam permanentemente as estruturas já existentes do poder político e social organizado. Como estágios elementares, a mudança revolucionária requer articular e disseminar uma concepção nova de filosofia e cultura que tenha uma base crítica e forneça uma base nacional-popular que unifique o povo em uma concepção de vida e de mundo comum. Central ao pensamento de Gramsci é o fato de que a transformação revolucionária demanda a participação ativa das massas e não simplesmente seu apoio acrítico. Isto constitui essencialmente a base para a forma radical da democracia, na qual as massas desempenham o papel predominante na direção de suas vidas, comunidades e sociedade política.
Occupy Wall Street e organização política
Retornar aos escritos de Gramsci sobre espontaneidade e direção consciente fornece insights para repensar a forma e a força das lutas subalternas hoje. Mesmo que a filosofia de organização do Occupy Wall Street (OWS) do “movimento sem liderança” confronte com a ideia de Gramsci de partido político unindo e liderando uma aliança de classes e grupos na transformação da sociedade, elementos do OWS assemelham um movimento gramsciano da luta pela hegemonia (REHMANN, 2013, p. 1-18). O desenvolvimento do OWS pode ser entendido em termos de espontaneidade e direção consciente. O que se esperava ser uma ocupação da Wall Street na baixa Manhattan em 17 de setembro de 2011 se desenvolveu espontaneamente em um movimento político para além dos Estados Unidos, se difundindo para mais de 750 cidades ao redor do mundo.

Em uma questão de semanas, o OWS emergiu na cena política e se tornou um dos desenvolvimentos esquerdistas mais significativos dos Estados Unidos em quarenta anos. Os sessenta dias de ocupação do OWS em Nova York podem ser entendidos como bem sucedidos pois geraram o Movimento Occupy, destacaram a questão da desigualdade e mudaram o discurso público, mas no sentido gramsciano, o OWS pode ser entendido também como um fracasso, pelo menos no curto prazo, pois não transformou as estruturas existentes da sociedade. Um exame de suas forças e fraquezas pode fornecer insights sobre o que é necessário ao OWS ou outro movimento similar para desenvolver um nível suficiente de organização e liderança que transforme a sociedade. A emergência de grupos pós-Occupy após o desmonte sistemático dos acampamentos pelo governo indica que ativistas estão repensando a eficácia de suas práxis e questões de poder.

O OWS emerge dentro de um “ciclo de lutas” de protestos de massa ao redor do mundo que irromperam no final de 2010 e 2011: a primavera árabe no norte da África e no Oriente Médio, o movimento dos indignados na Espanha, os protestos anti-austeridade na Europa e América do Sul, e a ocupação da Assembleia de Wisconsin nos Estados Unidos no início de 2011 (HARDT; NEGRI, 2012). A organização do OWS surgiu a partir de diversos fatores. Seguindo o espírito da Primavera Árabe e em resposta à injustiça socioeconômica nos Estados Unidos, no início de 2011 a revista canadense anticonsumo e de culture-jamming17, Adbusters, enviou um e-mail aos seus 90 mil seguidores declarando que a “América necessita de sua própria Tahrir”, em referência à ocupação da praça Tahir no Egito (SCHWARTZ, 2011).

Em julho, a Adbusters (2011) chamou as pessoas para “inundar a baixa Manhattan, montar tendas, barricadas pacíficas e ocupar a Wall Street por alguns meses” a começar pelo dia 17 de setembro. Em 2 de agosto, um grupo de aproximadamente cinquenta apoiadores da Adbusters e anarquistas compareceram a um comício organizado pelos New Yorkers Against Budget Cuts [Nova-iorquinos Contra o Corte de Orçamento] (NYABC) para discutir e planejar a ocupação. Insatisfeitos com a tomada de decisão do NYABC e com a ideia de formular demandas predeterminadas, o grupo de anarquistas, incluindo o antropólogo e ativista David Graeber (2011), rompeu com o comício e criou seu próprio encontro, concordando em usar métodos organizativos “horizontais” de assembleias gerais e processos de tomada de decisão consensuais (Holmes, 2012, p. 151-161). O grupo se encontrou semanalmente durante agosto, desenvolvendo finalmente uma New York City General Assembly18 (GA), que funcionou como o órgão regulador do OWS. A GA escolheu originalmente a One Chase Manhattan Plaza, perto da Wall Street, como o local de protesto, mas a polícia isolou-o em 17 de setembro, levando os organizadores a escolher o Zuccotti Park, um espaço público de propriedade privada a duas quadras de Wall Street, como o local da ocupação. Muito embora os manifestantes tenham sido impedidos de ocupar e fechar Wall Street, a ocupação de Zuccotti Park conservou o simbolismo de ocupar Wall Street.

O foco de OWS na desigualdade e na corrupção de dinheiro na política ressoou no público e teve um impacto significativo no discurso político. Depois da crise financeira de 2007-2008, os americanos experimentaram os efeitos da austeridade, da crise hipotecária, arrestos, desemprego, aumento da dívida pessoal e estudantil, desigualdade massiva e desilusões com o establishment político. Uma gama de intelectuais já havia examinado a desigualdade e a política de classe do 1% versus 99% nos Estados Unidos, mas o slogan da OWS, “Nós somos os 99%”, gerou uma atenção generalizada (JURKOWITZ, 2011). Proporcionou igualmente uma intervenção no entendimento sobre a economia do senso-comum estadunidense ao introduzir elementos de bom senso nos exames da desigualdade de riqueza e poder (Rehmann, 2011, p. 9-11).

Isso abriu o discurso público para discussões em massa sobre a desigualdade, a crise capitalista sistêmica e o poder de classe, ampliando a discussão para além dos limites de explicações liberais de regulação fraca, corrupção e ganância. No início de outubro de 2011, 54% do público tinha uma visão favorável do OWS, comparado aos 27% dos de orientação libertária do Tea Party (TIME MAGAZINE, 2011). No fim de outubro, os meios de comunicação aumentaram a discussão sobre “desigualdade econômica” em cinco vezes, estendendo-se por 2013 (JURKOWITZA, 2011; BYERS, 2011). Porque o OWS pareceu ter surgido do nada, aproveitando o descontentamento popular entre as massas, e gerando amplo apoio público, ele apresentou características de um movimento espontâneo.

Embora o OWS tenha alterado o discurso público e tenha expandido o terreno da política radical, ele afetou pouco no sentido de uma mudança política substantiva. As condições que acionaram o protesto permanecem em vigor: o capitalismo não foi derrubado, o 1% permanece no poder, a desigualdade ainda existe, as massas continuam endividadas. Como Slavoj Žižek (2011, p. 68). explicou em um local do Zuccotti Park, a métrica para o sucesso deveria ser o impacto na “vida normal” das pessoas depois da ocupação. Em termos de mudança da vida normal, o impacto do OWS foi mínimo. No entanto, como Thomas Frank argumentou, uma gama de intelectuais de esquerda louvaram o OWS como um sucesso por sua tática, organização horizontal e sua habilidade de elevar a consciência, mas não necessariamente por seus eleitos políticos substantivos (FRANK, 2012)

Um fator que contribuiu para a dificuldade de determinação do sucesso e fracasso do OWS é a decisão explícita da GA por não formular demandas. A falta de demandas demonstra o comprometimento do OWS com a política prefigurativa, mas é representativo também das divisões internas entre seus membros. Originalmente a Adbusters sugeriu que a ocupação de Wall Street seguisse o modelo da Revolução Egípcia na elaboração de uma única demanda, similar à demanda dos egípcios: “Mubarak deve sair”. Para determinar uma demanda única, Adbusters sugeriu que os ocupantes aderissem à “mudança mundial de tática revolucionária” derivada da “fusão de Tahir com as acampadas da Espanha”:
“A beleza desta nova fórmula e o que torna esta novidade tática animadora é a sua simplicidade pragmática: falamos uns com os outros em várias reuniões físicas e assembleias virtuais... nós focamos no que a nossa demanda será, uma demanda que desperte a imaginação e, se alcançada, que nos impulsione em direção à democracia radical do futuro ... e então nós saímos e aproveitamos uma praça com significado simbólico singular e colocamos nossas bundas ali para que isso aconteça” (ADBUSTERS, 2011).
Como uma demanda possível, Adbusters sugeriu “que Barack Obama ordene uma comissão presidencial encarregada de acabar com a influência do dinheiro sobre os nossos representantes em Washington”. Muitos protestantes rejeitaram a ideia de formular demandas, baseados no compromisso com a democracia direta e o princípio prefigurativo de “construir a nova sociedade na casca da velha”.19 Graeber, por sua vez, argumentou que “a emissão de demandas significa reconhecer a legitimidade – ou ao menos o poder – daqueles para os quais as demandas são feitas” (GRAEBER, 2011, p. 141). Nesse sentido, as demandas são essencialmente reformistas e, para muitos anarquistas, “a ocupação é a sua própria demanda”, o que é capturado no slogan “Ocupe Tudo, Demande Nada”. Nesse sentido, como Joshua Clover explica: “A ocupação é a tática. A falta de demanda é uma estratégia” (CLOVER, 2012, p. 100).

Alguns estudiosos argumentaram que a falta de demandas foi uma fonte de força do movimento, abrindo um espaço inclusivo para as visões reformistas e radicais, e expandindo o seu tamanho (ROWE; CARROLL, 2014, p. 149-171). Na verdade, o OWS foi feito por uma série de liberais, progressistas e anarquistas. Alguns queriam destruir o capitalismo e outros queriam reformá-lo (Bray, 2013, p. 4, 40). A organização horizontal da assembleia geral permitiu que estas visões divergentes permanecessem juntas, mas sem uma vontade coletiva definitiva. A criação de grupos de trabalho separados, como o Demands [“Tarefas”], Queering OWS e Occupy SEC [Comissão de Valores e Câmbio do Occupy] deu aos ativistas autonomia para seguir seus interesses e objetivos separados. Em alguns aspectos, a falta de demandas coletivas e a organização dos grupos de trabalho divergentes podem ser vistos como sinal de “fraqueza do núcleo ideológico do movimento”, como Jodi Dean e Marco Deseriis argumentaram (DESERIIS; DEAN, 2012). Sem demandas ou objetivos coletivos, a eficácia do OWS pode ser interpretada de diversas maneiras. Por exemplo, para alguns a influência do Occupy SEC na escrita dos regulamentos do Volker Rule incluindo a Dodd–Frank Wall Street Reform e o Consumer Protection Act é uma vitória (JAFFE, 2014; GOLDSTEIN, 2013), mas para outros, como Mark Bray, o objetivo nunca foi a Volker Rule ou a reforma de Wall Street. O objetivo era “a destruição do capitalismo e a construção de uma economia sem classes, economicamente sustentável e democrática caracterizada pela ajuda mútua e solidariedade que prioriza o cumprimento da necessidade humana” (BRAY, 2013, p. 39).

Dado que o OWS capturou a atenção pública, a solicitação de demandas era uma questão de liderança na criação de um outro mundo. De diversas formas, a falta de demandas representa a incoerência política do movimento em apresentar uma concepção alternativa de mundo além da crítica do sistema existente e a política prefigurativa do horizontalismo como o método de organização da ocupação. O princípio de desenvolvimento de uma agenda, uma visão e exigências fora do próprio processo reforçam os aspectos espontâneos do OWS, dando mais ênfase aos processos democráticos, ainda que espontâneos, do que à direção consciente. Após a análise de Gramsci sobre a direção consciente, as lutas subalternas necessitam tanto de um molde de política prefigurativa – de construção de novas formas de comunidade – como de uma política estratégica de desenvolvimento de organizações formais que sejam capazes de alcançar a transformação estrutural.

É neste sentido que Gramsci viu o partido de massa, composto por uma aliança de classes e grupos, como a vontade coletiva da transformação política. Embora o OWS seja um movimento explicitamente sem liderança e partidos (GENERAL ASSEMBLY AT OCCUPY WALL STREET, 2012, p. 369), ele representa a formação de um partido em forma embrionária, como Dean argumentou (DEAN, 2013, p. 58-59). Ele foi capaz de efetivamente comunicar uma crítica sustentada da ordem existente através da linguagem, dos slogans e das práticas. Funcionou como um intelectual coletivo na educação de organizadores e participantes no processo de construção de consenso. Reivindicou representar 99% da população e tentou liderar os Estados Unidos em uma nova direção política.

Uma das maiores lições que podem ser tiradas do OWS e Occupy, seguindo uma análise gramsciana, é a prontidão do Estado em utilizar a vigilância, o uso da força e da coerção para romper e reprimir um movimento político explicitamente não-violento. Vários relatórios revelam diversos esforços coordenados entre o Departamento de Segurança Interna, o FBI, a alta oficialidade militar, a política local e a segurança privada para monitorar, estrategicamente incapacitar e finalmente eliminar e desmontar os acampamentos Occupy por todo o país em meados de novembro de 2011 (SCHMIDT; MOYNIHAN, 2012). O projeto Protest and Assembly Rights [Direitos de Protesto e Reunião], financiado pela Global Justice Clinic da NYU School of Law e a Walter Loiter International Human Rights Clinic da Fordham Law School, conduziram um estudo de oito meses sobre a resposta da cidade de Nova Iorque ao OWS (PROTEST AND ASSEMBLY RIGHTS PROJECT, 2012).

O relatório concluiu que a resposta da cidade constituiu “um mapeamento complexo de repressão do protesto”, que violou as leis internacionais e estadunidenses, infringiu os direitos de expressão e reunião dos cidadãos e obstruiu a liberdade de imprensa (IBID., p.71). A polícia se valeu de força excessiva, desnecessária e agressiva contra manifestantes pacíficos, assim como contra transeuntes, observadores legais e jornalistas, causando lesões físicas leves e graves (IBID., p.72). A polícia também fez numerosas apreensões arbitrárias de manifestantes, jornalistas e transeuntes. Em um período de 10 meses, a polícia prendeu mais de 7 mil manifestantes do Occupy ao redor do país, num momento no qual a perseguição do governo federal aos crimes econômicos atingiu uma baixa de vinte anos (IBID., p. vii).

A resposta do Estado para o movimento Occupy não apenas constitui uma “estratégica incapacitação do protesto” (GILLHAM; EDWARDS; NOAKES, 2013, p. 81-102); ela produz um efeito inibidor do próprio protesto pacífico, dissuadindo as pessoas de exercerem suas liberdades civis devido ao medo da punição e violência legais. De fato, a resposta governamental demonstra a ameaça potencial que o Occupy colocou ao status quo e revela as reais alianças políticas do Estado. De uma perspectiva gramsciana, esta é uma das razões do porquê os movimentos políticos subalternos necessitam da formação de organizações tanto autônomas como formais agindo em espaços sócio-políticos diferentes, de modo a simultaneamente apresentar uma política prefigurativa e a contestação do poder do Estado.

Na sequência do desmanche das ocupações e acampamentos, membros do movimento Occupy repensaram questões de poder organizacional nos submovimentos da segunda geração e nos projetos relacionados ao Occupy que seguiram táticas alternativas. Por exemplo, Strike Debt enfrenta o sistema de débito predatório através da organização dos que buscam resistir às dívidas e da compra de dívidas em taxas reduzidas para finalmente aboli-las. Em outubro de 2012, o Occupy Sandy distribuiu alimento, roupa e outros suprimentos, arrecadou mais de 1 milhão de dólares para atender às vítimas do furacão Sandy e ajudou nos esforços de reconstrução em Nova Iorque e Nova Jersey. O Occupy Homes, que é ativo em variados estados, auxilia casas, organiza campanhas de pressão públicas e organiza bairros. Outros grupos focaram na educação e treinamento políticos. Rockaway Wildfire, que foi organizado por membros do Occupy Sandy e pelo OWS, lançou o Wildfire Project para treinar pessoas em organização e prospecção, ação direta, falas em público e mídias sociais (Jaffe, 2014). Em 2012, 99% Spring, que é composto de uma coalisão de sessenta organizações, incluindo aquelas que trabalham com a classe trabalhadora e comunidades negras, lançou uma campanha para treinar 100 mil pessoas em ação direta não-violenta com o objetivo de facilitar uma onda de ações direcionadas a corporações e funcionários públicos (RUSSELL; GOLDBERT, 2012).
Conclusões
O exame crítico do poder organizacional e da eficácia do OWS após o desmanche dos acampamentos pelo Estado pode apresentar novas formas para o Movimento Occupy desafiar o poder de uma forma sustentada. O OWS apresentou uma crítica da sociedade e manteve a organização da ocupação de acordo com princípios prefigurativos e horizontais, mas além de chamar a ocupação de tudo, falhou ao apresentar uma visão de como a forma da nova sociedade iria substituir a antiga. Movimentos prefigurativos e espontâneos são comumente confinados ao seu próprio imediatismo, com intervenção mínima nas estruturas mais amplas do poder ou se retiram completamente da política nas organizações de auto-gestão (BOGGS, 1977). O compromisso do OWS com a política prefigurativa era limitado pelo seu enraizamento prático e logístico dentro das estruturas existentes da sociedade na qual estão baseadas a produção de serviços e bens e a sua distribuição através das relações capitalistas (DESERIIS; DEAN, 2012). Isto sugere que ocupação como tática de protesto é limitada aos seus efeitos simbólicos e comunicativos se não é amarrada a uma luta pelas transformações sociopolíticas que afetam a “vida normal” das pessoas. As organizações pós-Occupy discutidas acima estão tentando precisamente isto, mesmo que limitadas pelo seu alcance e capacidades.

Na análise de Gramsci, as lutas políticas subalternas necessitam uma forma de direção consciente que conecte elementos espontâneos da luta com objetivos políticos de longo-prazo que, para Gramsci, é em última instância a transformação do Estado e o seu desaparecimento. Embora muitos anarquistas e correntes marxistas autonomistas rejeitem a luta estratégica pela conquista do poder estatal, na análise de Gramsci a eficácia das formações prefigurativas, que anarquistas e autonomistas marxistas apoiam, serão limitadas se não visarem o poder do Estado e seu uso da força. Muitos ativistas que são ativos no movimento Occupy começaram a tratar a questão do poder e da eficácia política. Por exemplo, ao refletir sobre o OWS e o trabalho de caridade pós-Occupy, a organizadora do Strike Debt Astra Taylor nota: “Nós somos muito bons em espetáculos, somos muito bons em caridade. Somos bons em ação construtiva. A questão realmente construtiva é a questão do poder e como alcançá-lo” (apud JAFFE, 2014).

Ecoando uma ideia gramsciana, Yota Marom (2012, p.422-423), que foi ativa no OWS desde seu estágio de planejamento, escreve: “Em última instância, o poder é a chave – reconhecê-lo e contestá-lo em nossos inimigos, construí-lo para nós, tomá-lo daqueles que oprimem e exploram, usá-lo para transformaa a nós mesmos e os valores e instituições de nossa sociedade. Vencer importa”. De modo similar, Mary Clinton, uma organizadora trabalhista que participou do planejamento do OWS, questiona os limites da natureza anti-política das instituições prefigurativas e como elas podem facilitar uma mudança política abrangente: “como desenvolver alternativas que não apenas retire do sistema, mas que construa poder – como construir estas instituições de modo a apoiar a alternativa?” (apud JAFFE, 2014).

Construir este tipo de poder, em termos gramscianos, é um projeto essencialmente hegemônico que necessita da articulação de uma nova concepção de mundo, bem como da formação de organizações políticas, associações culturais e um partido político de massa que seja capaz de confrontar o poder dos grupos sociais dominantes e instituições governantes. O que isto sugere é uma síntese da política estratégica e prefigurativa que inclui a democratização das instituições da sociedade civil bem como dos aparatos da sociedade política (o Estado, as instituições jurídicas, etc.). Este exame e reorganização crítica do OWS de abordar seus pontos fortes, fracos e formas de organização de modo a tornar mais efetivo e finalmente vencer está certamente no espírito do pensamento gramsciano, embora talvez não nomeado.
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Notas
1 Tradução de Camila Massaro de Góes.
2 A referência aos Cadernos do Cárcere seguirão o modelo internacional das edições críticas”: o número do Caderno (C.) seguido pelo número do parágrafo (§) de acordo com a edição crítica de Valentino Gerratana (GRAMSCI, 1975). Para a edição anglófona dos Cadernos, Gramsci (1992, 1996, 2007). Uma concordância da edição crítica italiana com as antologias inglesas dos Cadernos do Cárcere está disponível no website da International Gramsci Society: http://www.internationalgramscisociety.org/.
3 Sobre os conceitos de intelectual orgânico e filósofo democrático, ver Fontana (1993, p. 27-34; 2005, p. 97-123) e Thomas (2009, p. 429-436).
4 “Trabalhadores e Camponeses”, artigo publicado por Antonio Gramsci em 2 ago. 1919.
5 “Os revolucionários e as eleições”. Artigo publicado por Antonio Gramsci em 15 nov. 1919.
6 “Unidade proletária”. Artigo publicado por Antonio Gramsci em 28 fev. 1920.
7 Ver Gramsci (1966) para uma reprodução fac-símile de L’Ordine nuovo.
8 “Democracia dos trabalhadores”. Artigo publicado por Antonio Gramsci em 21 jun. 1919.
9 “Crônica de L‘Ordine Nuovo”. Artigo publicado por Antonio Gramsci em 12 Julho 1919.
10 “Sindicalismo e os Conselhos”. Artigo publicado por Antonio Gramsci em 8 nov. 1919.
11 “Sobre o Programa de L’Ordine Nuovo”. Artigo publicado por Antonio Gramsci em 14 ago. 1920.
12 “Para uma renovação do Partido Socialista”. Artigo publicado por Antonio Gramsci em 8 mai. 1920.
13 “A ocupação”. Artigo publicado por Antonio Gramsci em 2 set. 1920.
14 “O partido comunista”. Artigo publicado por Antonio Gramsci em 9 out. 1920.
15 “O Estado dos trabalhadores”. Artigo publicado por Antonio Gramsci em 1 jan. 1921.
16 “O que fazer?” Artigo publicado por Antonio Gramsci em 1 nov. 1923
17 Culture jamming é um termo utilizado desde os anos 1980 para o ativismo anti-consumismo que rejeita frontalmente a ideia de que o marketing – por comprar sua entrada nos espaços públicos – deve ser aceito passivamente como um fluxo de informação unilateral (N. da T.).
18 “Assembleia Geral da Cidade de Nova Iorque”
19 David Graeber usa essa frase para definir o processo (GRAEBER, 2012, p. 142).

Tradução de Camila Massaro de Góes
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