19/9/14

Gramsci e a Teoria Crítica das Relações Internacionais

Rodrigo Duarte Fernandes dos Passos   |   O objetivo dessa comunicação é esboçar uma discussão sobre as eventuais relações epistemológicas do pensamento carcerário de Antonio Gramsci com uma vertente teórica das  Relações Internacionais conhecida como Teoria Crítica. Tal denominação tornou-se gradativamente um rótulo eclético que designa diferentes abordagens teóricas das relações internacionais. Por vezes, o rótulo referido abriga enfoques associados a abordagens distintas da tradição marxista. Contempla autores distintos entre si classificados como neogramscianos, cosmopolitas, habermasianos, foucaultianos, construtivistas, feministas, pós-modernos.

Antes de se alcançar nessa vertente tão ampla gamade autores e perspectivas, destaca-se o pioneirismo de seus fundamentos sistematizados pelo cientista político canadense Robert W. Cox em 1981 2 no contexto do que a literatura internacionalista  chama de “Terceiro Debate” 3. Em seu construto teórico, o pensamento de Antonio Gramsci (1891-1937) ocupa um papel de relevo. Salienta-se também que comentadores 4 incluem as influências dos filósofos frankfurtianos sobre  essa perspectiva.

Preliminarmente, o rótulo “Teoria Crítica” alude à tradição inaugurada por tais filósofos, autores marxistas vinculados ao Instituto de Pesquisa Social da Universidade de Frankfurt, com um famoso texto 5 de Max Horkheimer (1895-1973) que serviu pioneiramente como referência epistemológica dessa tradição teórica. Diante da justaposição dessas duas perspectivas numa mesma vertente teórica voltada para as Relações Internacionais, toma-se como questões centrais dessa comunicação:

O estatuto epistemológico da elaboração de Horkheimer é compatível com o congênere de Gramsci de modo que suas formulações possam estar em um mesmo construto teórico? De acordo com as especificidades epistemológicas de Gramsci, é acurado rotulá-lo e identificá-lo com a “teoria crítica” dos autores frankfurtianos, considerando terem todos a matriz do marxismo? É válido estender o rótulo “teoria crítica” à formulação do comunista italiano sobre o temário internacional?

A tese central a ser evidenciada nesse texto aponta para uma incompatibilidade entre Gramsci e Horkheimer, mesmo que o enfoque de ambos remeta à tradição marxista. Ao justapor-se idéias do prisioneiro de Mussolini com aquelas do filósofo do Instituto de Pesquisa Social, há diferenças fundamentais não contempladas pela reflexão dos autores da Teoria Crítica das Relações Internacionais e, em particular, pelo pioneiro desse enfoque, Cox. Não temos a pretensão de passar em revista todos os teóricos dessa vertente internacionalista. Discutiremos alguns dos aspectos fundantes da perspectiva lançada por Cox e alguns pontos de divergência e convergência com Gramsci e Horkheimer.

Sabe-se da vastidão do tema em pauta. Não se pretende explorar exaustivamente todos os aspectos referentes a essas diferenças. Exploraremos com maior ênfase nesse texto as divergências referentes a Gramsci e Horkheimer no que refere à maneira como ambos tratam a relação do marxismo com as ciências naturais e as humanidades. Em primeiro lugar, mostraremos de modo sucinto a perspectiva original da Teoria Crítica conforme Horkheimer. Algumas teses de Gramsci encontradas no Caderno do Cárcere de número 11 6completarão o argumento em conjunto com a discussão a respeito do desacordo do autor sardo com o autor alemão e, conseqüentemente, com Cox. Em seguida, tratar-se-á das principais premissas do que Cox chamou de “teoria crítica”. Por fim, buscar-se-á verificar alguns problemas da apropriação de Gramsci para a caracterização dessa vertente.

Rodrigo Duarte Fernandes dos Passos Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Professor Adjunto I do Departamento de Ciências Sociais do Centro de Ciências Humanas e Letras e do corpo permanente do Programa de Mestrado em Ciência Política da Universidade Federal do Piauí. Pesquisador do Grupo “Marxismo e Pensamento Político” do Centro de Estudos Marxistas da Universidade Estadual de Campinas. Agradeço a todos(as) do Grupo e em especial ao Professor Alvaro Bianchi. As discussões no seu âmbito muito contribuíram para a presente reflexão.
 
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