29/1/14

Gramsci e o PCI | Duas concepções da hegemonia

  • Apresentação da Marcos Del Roio
Antonio Gramsci
✆ Jesús Barraza
Massimo Salvadori  |  O sentido original do termo “hegemonia” engloba dois elementos: o comando por parte de quem a exerce e o fato de que este comando é exercido por quem o detém com os seguintes objetivos: 1) “guiar” os aliados; 2) conduzir, juntamente com os aliados, uma ação de força contra uma ou mais partes adversárias. Parece, portanto, que o conceito de hegemonia, em sua dupla articulação, implica a busca, por um lado, de consenso no interior de um bloco de alianças e, por outro, de domínio sobre os adversários, que deve ser obtido por meio da força. Encontramo-nos diante de uma combinação de nexos que são indissociáveis.

Todos sabem que, na cultura política italiana (e não apenas italiana) contemporânea, a discussão sobre a hegemonia e suas implicações está ligada à obra de Antonio Gramsci e, particularmente, ao significado dos seus Cadernos do cárcere. De tal maneira que, hoje, se poderia afirmar sinteticamente que Gramsci aparece, sobretudo, como o “teórico da hegemonia”. A atenção central dedicada à teoria gramsciana da hegemonia tem suas raízes na busca conduzida
pelo PCI das formas de uma via ao socialismo adequada à complexidade do desenvolvimento da sociedade civil e do Estado nos países de desenvolvimento industrial avançado, tendo consciência de que o “modelo” de socialismo representado pelos países socialistas de tipo bolchevique-stalinista não é mais nem praticável, nem desejável. A obra de Gramsci, particularmente os Cadernos, é considerada pelos teóricos e pelos ideólogos comunistas uma etapa central, uma espécie de trait d’union entre o leninismo e o pós-leninismo. As interpretações, que poderíamos dizer correntes e com um viés mais diretamente político (a de Luciano Gruppi é exemplar nesse sentido), tendem a sugerir uma leitura segundo a qual Gramsci teria realizado uma espécie de “rotação” teórica, que se iniciaria no interior do leninismo e da sua própria perspectiva e que, por fim, justamente por meio da elaboração da “teoria da hegemonia”, teria aberto caminho para a estratégia atual do PCI fundada na aceitação do “pluralismo”, na democracia política, no diálogo entre forças políticas diversas, na estratégia de reformas.

Os pontos da teorização gramsciana presentes nos Cadernos que são mais utilizados e “sensíveis” a tal objetivo são aqueles que dizem respeito: 1) à necessidade de uma força que procure fundar um Estado novo que seja “hegemônico” antes mesmo de assumir o poder; 2) à necessidade de o proletariado formar um “bloco” de forças históricas capaz de exprimir a complexidade da sociedade civil; 3) à necessidade de assumir um papel central na relação com os intelectuais; 4) à necessidade de conduzir no “Ocidente” uma luta que leve em consideração as diferenças entre as formas da revolução social na Rússia e as formas de um proceso revolucionário nos países burgueses desenvolvidos; em suma, que leve em conta as “lições” derivadas da falência da revolução na Europa centro-ocidental no primeiro pós-guerra.

>> Texto completo | PDF: 20 pp.


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