1/10/13

Antonio Gramsci e João Guimarães Rosa | Um diálogo (inter)nacional(popular)

João Guimarães Rosa ✆ Joakim Antonio
Héder Junior dos Santos  |  Este trabalho procura analisar as ideias do filósofo italiano Antonio Gramsci e do literato brasileiro João Guimarães Rosa. Primeiramente, procuramos discutir a fecundidade da incorporação das noções fornecidas pelo pensador marxista para refletirmos a importância de Rosa para o contexto do modernismo brasileiro. Em seguida, passamos a descrever o que para Gramsci seria uma arte “nacional popular” e sua capacidade de romper com o distanciamento entre o intelectual e o universo popular, destacando ocorrer na realização formal, o espaço de encontro entre o local e o universal. A partir daí, tecemos considerações sobre a trajetória de Rosa e como ela acaba por fornecer elementos motores para seu projeto artístico de inspiração popular, sobre o qual, poder-se-ia considerar que, senão combativo, pelo menos ofereceu uma interpretação peculiar acerca do esfacelamento dos valores tradicionais em pleno processo de modernização brasileira.


Podemos considerar que Antonio Gramsci (1891-1937) foi um filósofo basilar para elaboração de vários conceitos-chave ainda hoje revisitados para se interpretar as condições sociais no capitalismo avançado. Alguns deles se tornaram termos recorrentes nos debates sobre a cultura e os processos sociais, como é, pois,o caso da noção de “nacional-popular”, a ser reincorporada e tratada neste artigo. A partir das reflexões do pensador italiano em questão, pode-se considerar que oreferido conceito se relaciona à quebra do distanciamento estabelecido entre os intelectuaise artistas,e as classes subalternas que lhes fornecem substrato narrativo, ou melhor, que lhes providenciam conteúdo.

Tem-se, segundo Gramsci, colocada a provocação maior ao artista dialético, a saber, tornar nacional e popular a vida de sujeitos comuns, sem elaborar representações calcadas em umolhar caracteristicamente pitoresco e pretensamente objetivo. A vida dos integrantes das camadas subalternas trazidas para a assim chamada “grande literatura” (ou uma literatura universalmente válida), sem dada folclorização ou se recorrer ao ato falacioso de um particularismo atroz, ao mesmo tempo em que confereproblemas de caráter humano-universais às personagens emolduradas pelaobra, sem que elas necessitem de afastar-se de seu chão histórico.

Dito de outra formàs personagens representativas de dadaelite, ou ainda a sujeitosinexistentes historicamente. O autor de Cadernos do cárcere estava contra certa arte fascista que desenhava heróis inatos, ausentes de terreno histórico, como foram representados, por exemplo,os santos da igreja oficial, cuja força simbólica fez com que tais criaturas nascessem como que iluminadas, escolhidas e especiais; e isto em termos políticos, como observouo pensador, aumentavao paternalismo, que por sua vez, se constituía em moeda de troca com o fascismo, no caso italiano. Assim se expressa Gramsci (1968), em Literatura e vida nacional, a propósito da postura adotada por intelectuais e artistas católicos, seu afastamento da matéria popular e os reverbérios desta diluição para a formação de uma moralidade laica e difusa na Itália:
A literatura católica transpira apologética jesuíta, tal como o carneiro transpira, e cansa pela sua vulgar mesquinhez. A insuficiência dos intelectuais católicos e o pouco êxito de sua literatura são um dos mais expressivos indícios da íntima ruptura que existe entre a religião e o povo: este se encontra num miserável estado de indiferentismo e de ausência de vida espiritual ativa: a religião conservou-se na forma da superstição, mas não foi substituída por uma nova moralidade laica e humanista por causa da impotência dos intelectuais laicos (a religião não foi nem substituída nem intimamente transformada e nacionalizada, como em outros países, como o próprio jesuitismo na América: a Itália popular ainda está nas condições criadas imediatamente pela Contra-Reforma: a religião, na melhor das -se com o folclore pagão e conservou-se neste estágio). (Gramsci, 1968, p. 109)