22/7/13

Que método Marx ocultou?

Helmut Reichelt  |  O fato de que Karl Marx mudou a sua concepção sobre o modo de apresentação de O capital no correr do tempo é conhecido o suficiente para ser novamente aquí demonstrado.1 Mas, com todas as “mudanças de plano” constatadas, uma questão está fora de dúvida: deve ser uma sistemática, na expressão de Theodor W. Adorno, “achegada” ao seu objeto.

Helmut Reichelt

E esse objeto é a dinâmica do sistema real. Apenas tendo isso como pano de fundo é que faz sentido travar uma discussão sobre o modo de apresentação, sobre o método dialético e sobre a fórmula gasta de que o método não importa se descolado de seu conteúdo. Frequentemente se enfatiza que algumas manifestações de Marx sobre a dialética e sobre o método não contribuem de maneira suficiente para decifrar essa relação complexa. Adorno suspeita até que “o dialético Marx não dispõe de uma concepção inteiramente desenvolvida da dialética, com a qual ele pensa apenas flertar” (Adorno, 1972, p.306).

Mas de fato é só isso? Quando Marx se pronuncia em O capital sobre o seu método de apresentação, sempre tem em vista esse “movimento efetivo”, o “vínculo interno” das “diferentes formas de desenvolvimento”; e acentua: caso consiga-se “apresentá-lo de forma correspondente” e “refletir de modo ideal a vida da matéria”, terá que ser sob uma figura sistemática, de modo que pareça “tratar-se de uma construção a priori” (Marx, 1872, p.27). O sistema apresentado deve corresponder à dinâmica real, “refleti-la”. Mas como esse “reflexo ideal”, a “vida da matéria” aparece em cada caso, é algo ainda não esclarecido. E o próprio Marx contribuiu de modo significativo para desviar o acesso ao método e à sua relação com os processos reais. Já foi assinalada a supressão de um importante parágrafo no final da análise sobre a forma de valor; o mesmo ocorreu com uma frase de conexão no capítulo sobre a acumulação, que ainda se encontra na primeira edição do Livro I: “O desenvolvimento da apresentação levará mais tarde, por sua própria dialética, àquelas formas mais concretas”. Outros exemplos poderiam ser acrescentados, o que nos anos 1980 motivou Gerhard Göhler (1980) a chamar a atenção para tais “reduções”, como indica o próprio título de sua discussão sobre o método marxiano. O leitor que acompanhou tal temática e também consultou a correspondência entre Marx e Friedrich Engels encontrará ainda mais coisas.

A continuação planejada por Marx de Para a crítica da economia política, de 1859 – a segunda parte que ele tinha em vista – deveria ser “muito mais popular  e o método [estar] muito mais oculto do que na primeira parte”, escreve Marx a Engels.4 Em outras palavras: mesmo na própria edição da crítica das categorías feita sob os seus cuidados, em 1859, o método encontra-se “oculto”, de tal maneira que o leitor tem de recorrer ao volumoso Rohentwurf 5 de O capital, precisamente o texto original de Para a crítica da economia política. Ali se supõe ao menos que o método não esteja “oculto”. A própria linguagem em que o Rohentwurf foi redigido mostra a sua grande proximidade com a filosofía de Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Marx indica expressamente “a grande ajuda” que a lógica hegeliana teria “proporcionado” a ele no “método de elaboração”.6 Trata-se de uma “dialética necessária” (Marx, 1857/58, p.421 e p.250), e do desenvolvimento de “mudanças dialéticas” (ibidem, p.370). As categorias centrais da lógica hegeliana – ser, aparência, essência – surgem de novo no contexto de seu desenvolvimento das categorias econômicas, resumido na apresentação do “capital em geral” (ibidem, p.231), que deve ser diferenciado do “conceito simples de capital” (ibidem, p.327). E esse desenvolvimento do conceito de capital consegue algo que apenas parecia possível ao conceito hegeliano – a reconstituição teórica da dinâmica imanente do sistema objetivo que se expande até as posibilidades assinaladas de sua superação prática: “O desenvolvimento preciso do conceito de capital – conceito fundamental da economia moderna – exige, a exemplo do próprio capital, do qual ele é o conceito abstrato contraposto, o alicerce da sociedade burguesa. Da concepção nítida dos pressupostos fundamentais da relação devem resultar todas as contradições da produção burguesa, assim como a frontera a partir da qual ela é ultrapassada” (ibidem, p.250). Na metáfora de Hegel, tal como a planta desenvolve-se a partir da semente, assim também a lei do capital se desenvolve a partir de determinações simples, chegando até a sua superação imanente. Nesse conceito simples de capital “devem estar contidas em si todas as suas tendências civilizatórias etc.; e não aparecer, como ocorre na economia de agora, simplesmente como consequências externas. Do mesmo modo, devem-se demonstrar as contradições mais tarde liberadas como já presentes nele de forma latente” (ibidem, p.327).7 A exigência não poderia ser maior: mesmo o desenvolvimento da maquinaria deve ocorrer no contexto dessa imanência. “Desenvolver a introdução da maquinaria a partir da concorrência e da lei, deduzida dela, da redução dos custos de produção, é fácil. Trata-se de desenvolvê-la a partir da relação do capital com o trabalho vivo, desconsiderando outro capital” (ibidem, p.668). Marx postula ter reproduzido a dinâmica interna desse processo objetivo nesse conceito de capital, o que possibilitaria conceber a criação de novas relações sociais na sua lógica objetiva de desenvolvimento.
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