23/6/13

Um esboço da relação de uma biografia de Gramsci com sua obra

Rodrigo Duarte Fernandes dos Passos
  • De que modo a biografia do comunista italiano Antonio Gramsci (1891-1937) evidencia pontos normalmente ignorados em sua obra? Responder a essa pergunta é a justificativa da leitura de “A Vida de Antonio Gramsci”, de Giuseppe Fiori, obra sobre a qual se pretende fazer uma breve resenha no presente texto.
Uma trajetória sofrida e solitária, pontos que incidem, de algum modo, na sua obra também. Nasceu em Ghilarza, aldeia da ilha italiana da Sardenha. Sua origem não necesariamente humilde, mas cuja trajetória assim se configurou em face, inicialmente, da injusta prisão e pena cumprida pelo pai por alguns anos num contexto de intrigas políticas. Tal experiência levou a inúmeros sacrifícios por parte da mãe e dos irmãos para a manutenção da família. Após a expiação, seu pai conseguiu apenas uma recolocação modesta, ponto que explica em parte as contínuas dificuldades.


Mas tais óbices não se restringiram à trajetória individual, e sim a todas às dificuldades, pobreza, lutas e rebeliões que ele testemunhou como nativo da Sardenha. Problemas decorrentes, por exemplo, das leis alfandegárias que protegiam a burguesia industrial da Itália setentrional e ceifavam a agricultura sarda. Tal experiência fez da questão meridional um tema central de sua reflexão e de sua orientação programática de luta, buscando combinar a organização dos camponeses e populares das ilhas e sul-italianos aos operários da porção setentrional da Itália.

Relaciona-se fortemente à trajetória de Gramsci sua enorme força de vontade para persistir diante das inúmeras dificuldades e cultivar o gosto pelos estudos e a leitura e, com particular ênfase no período carcerário, escrever. Chama a atenção o fato de que Gramsci abriu mão de comer – nos piores momentos, prescindia da refeição matinal e adiava o almoço o máximo que podia para não sentir fome à noite - e, por vezes, vendeu seus próprios mantimentos a fim de poder comprar seus livros (FIORI, 1979, p. 83). Depois de viver muito penosamente em Cagliari e conseguir completar sua formação colegial com muitas privações e com a ajuda do irmão Gennaro, obteve uma bolsa de  estudos - que mal o custeava - para o curso de Letras na Universidade de Turim, a partir de 1912. A duríssimas penas, Gramsci se manteve com a ajuda da família. Observou-se a piora de seus sérios problemas de saúde, que sempre o acompanharam desde tenra idade e o acréscimo de outros de natureza nervosa. Dedicou-se muito ao curso superior até o quarto ano, até que, em função de problemas de saúde e suas opções pessoais, bem como do envolvimento com a imprensa socialista, desistiu em 1915.

A questão meridional foi marcante na sua atuação política, nas suas perspectivas programáticas e de atuação no Partido Socialista e, posteriormente, no Partido Comunista da Itália (PCI); também foi uma referência para sua obra carcerária. Teve atuação intensa como redator de L’Ordine Nuovo. Foi secretário-geral do PCI e conheceu sua companheira, Giulia Schucht, na União Soviética. Da união, nasceu Delio. Todos se reuniram na Itália. Posteriormente, Delio e Giulia fugiram do país, já com a ascensão de Mussolini. Mas Gramsci não teve a mesma sorte e foi encarcerado em 1926, mesmo sendo deputado eleito em Turim pelo PCI. Jamais veio a ver pessoalmente seu segundo filho, Giuliano. Começa uma dura e penosa trajetória prisional, na qual consegue depois de dois anos, autorização para escrever. Seus contatos com a mulher ficam mais esparsos em face de uma doença psiquiátrica de Giulia e mantém com a cunhada Tatiana intensa correspondência. Produziu, no cárcere, mais de 3.000 páginas entre cartas e cadernos e sua saúde pouco a pouco piorou, até morrer em decorrência de um derrame cerebral.

Do ponto de vista dos estudos gramscianos, a justificativa da leitura do livro de Fiori está justamente nas pistas metodológicas - atinentes ao raciocínio, à sua maneira de analisar e pesquisar do comunista italiano. Reconstituir uma obra e as fontes que as motivaram para que não a entendamos parcialmente e reconstituir conceitos de um autor remetem necessariamente a uma contextualização histórica, biográfica, mínima quelucidam elementos do método do comunista sardo- que ajudam a elucidar a formação do pensamento gramsciano, a sua compreensão e ir além. Ou seja, a leitura cumpre um passo no sentido de entender o que se intenta por “traduzir” – ponto explorado por Gramsci em sua própria obra como tradutibilidade ou traducibilidade - suas categorías para outras formulações e análises também. Por outras palavras, usar o arsenal categorial gramsciano não é repeti-lo mecanicamente, mas buscar o uso de conceitos sob a chave de uma historicidade de adaptação às diferentes peculiaridades e tradições culturais que se desdobra no enriquecimento dos conceitos referidos.

Destaco e enfatizo alguns pontos do livro e contextos que lhe são afins.

Em primeiro lugar, a trajetória pré-carcerária marxista de Gramsci (FIORI, 1979, p. 85, 117). Sua militância socialista e comunista também são pontos centrais. Tal ponto destina-se às apropriações liberais, social-democratas, populistas, nacionalistas, democratas, stalinistas, eurocomunistas, culturalistas e até mesmo pós--modernas feitas a respeito do autor italiano. Muitas destas apropriações ignoram o contexto específico que cercou a elaboração das suas ideias. Ou simplesmente ignoram a trajetória précarcerária do prisioneiro de Mussolini.

Embora esse assunto não apareça na biografia de Fiori, o raciocínio que se segue guarda coerência com a trajetória de Gramsci. Refiro-me a outro aspecto muitas vezes negligenciado e relacionado a esse ponto: a apropriação não rigorosa de sua obra, muitas vezes exposta em edições temáticas ou antologias, dando a falsa impressão de que o opus gramsciano, particularmente aquele do cárcere, é sistemático, contínuo e, em certos aspectos, completo. Deve-se ressalvar que Gramsci não somente não teve uma obra carcerária e pré-carcerária sistemática, como também sempre deu valiosas pistas de que tinha intenções de revisar os seus escritos. Sempre era severo e sedento de interlocução a respeito de suas formulações.

Palmiro Togliatti, secretário-geral do PCI e antigo companheiro de militância de Gramsci, foi o primeiro a dar um formato pretensamente sistemático aos escritos carcerários de Gramsci, uma vez que legou àquele seus escritos carcerários. Foi um dos responsáveis pela publicação em 1948 e anos seguintes das primeiras edições temáticas e antologias com os escritos gramscianos.

Somente em 1975 foi publicada na Itália uma edição crítica dos cadernos carcerários. Ela foi organizada por Valentino Gerratana. Uma das contribuições mais marcantes da edição mencionada foi a classificação feita pelo organizador. Ele identificou textos nos quais Gramsci efetuou uma primeira redação, por ele classificados de textos “A”. Tais textos tiveram uma segunda redação - com reelaborações de formulações e/ou acréscimos e supressões em relação aos primeiros textos - e foram clasificados como textos “C”. Os textos nos quais Gramsci efetuou uma única redação foram clasificados como textos “B”. A edição brasileira mais recenté dos “Cadernos do Cárcere”, organizada por Carlos Nelson Coutinho, Marco Aurélio Nogueira e Luiz Sérgio Henriques, repete alguns dos vícios das edições temáticas e antologias já existentes, agrupando trechos de diferentes cadernos por temas. Além disso, contempla apenas os textos “B” e “C”. Assim, prescinde da compreensão do movimento interno da obra do comunista sardo, tomando os textos de última redação como supostamente aqueles nos quais Gramsci teria a intenção de consolidar. Todavia, não sabemos, por exemplo, se as omissões nos textos “C” em comparação com os textos “A” não seriam objeto de reelaboração futura. Não é possível ter um juízo precipitado sobre as intenções de Gramsci.

Retomando a biografia de Fiori, a lenda de Gramsci social-democrata é mencionada pelo autor no contexto de suas críticas conjunturais a orientações que buscassem a revolução na Itália em 1925, quando avaliava que o povo italiano naquele momento lutava pela democracia em face do problema posto pelo fascismo (FIORI, 1979, p. 249). Tomada fora de contexto, tais afirmações levam a entendimento precipitado sobre o comunista sardo.

Ao longo de toda a sua trajetória, observou elementos da mudança conveniente de posição no jogo político (FIORI, 1979, p. 60, 135), o que veio a chamar no cárcere de “transformismo”.

Em segundo lugar, lanço mão do suposto “togliattismo” - a proximidade das posições em relação a Palmiro Togliatti, o já mencionadosucessor de Gramsci na Secretaria Geral do PCI. Companheiro de militância de Gramsci desde os estudos na Universidade de Turim e apontado por leituras e apropriações feitas desde as primeiras edições temáticas e antologias influenciadas pelo PCI, tal proximidade de ideias não foi tão evidente. A título de exemplificação, Fiori (1979, p. 149) menciona uma “vaga paixão de uma cultura proletária” que ambos tinham em comum. Várias outras passagens atestam uma distância e diferença em relação às posições de Togliatti (FIORI, 1979, p. 164, 229, 267, 269, 312, 314). Destaco passagem na qual Fiori relata conversa com seu irmão Gennaro em 1929, que lhe visitou na prisão. Durante a conversa, Antonio se abalou ao tomar conhecimento de uma nova orientação da Internacional Comunista que caminhava simultaneamente a um processo de “purga” de membros da direção central do partido italiano e da própria Internacional. Tal episódio é muito vagamente mencionado - até em função da censura prisional da qual Gramsci tinha ciência - em carta à cunhada Tatiana. Gennaro, por conveniência, relatou a posição de Gramsci a Togliatti como sendo-lhe favorável. Togliatti alinhava-se com Moscou. Gennaro temia que Gramsci também pudesse ser expulso do partido se manifestasse posição dissidente em relação àquela de Togliatti e da Internacional Comunista (FIORI, 1979, p. 311- 313).

Em terceiro lugar, sublinho a sua repulsa pela sociologia por associá-la ao positivismo. Manifestou tal posição nos Cadernos do Cárcere de número 10 e 11, ao criticar, entre outros, Bukharin (FIORI, 1979, p. 301), por sua tentativa de “positivização” do marxismo. Gramsci associa a maior parte de sua reflexão à política e à ciencia  política. A influência de Benedetto Croce foi marcante no sentido da repulsa ao positivismo, muito embora as influências positivistas se fizessem presentes na juventude do comunista sardo (FIORI, 1979, p. 295-297). Contudo, formulou na obra carcerária severa crítica a este filósofo (FIORI, 1979, p. 294). Não ao acaso, a política, temário central de sua elaboração no cárcere, é, por vezes, referida no âmbito de uma ciencia política.

Em quarto lugar, dou relevo à clara ligação entre várias de suas fontes e referências pré-carcerárias, como Sorel e Croce (FIORI, 1979, p. 72, 133, 140, 154), à obra do período carcerário. Muitas vezes, essa ruptura e descontinuidade - entre a vida pré- -carcerária e a prisão - são enfatizadas de modo implícito. Busca-se, por vezes, um Gramsci particular, separado de suas origens, convicções e militância política.

Em quinto lugar, destaco o caráter central da questão meridional na sua trajetória militante e intelectual como sardo que vivenciou toda sorte de dificuldade da sua terra natal (FIORI, 1979, p. 55-76, 257-261). Fiori, que não teve acesso no momento da elaboração da biografia à edição crítica de Valentino Gerratana (GRAMSCI, 1977), sustenta serem os cadernos carcerários o prosseguimento e ampliação da reflexão sobre a questão meridional contemplada em ensaio incompleto sobre o tema elaborado em 1926 (FIORI, 1979, p. 294, grifos do autor):
Qual a idéia central? Ela já pode ser percebida no ensaio sobre a questão meridional. Ali era colocado, como premissa, o problema das alianças  de classe: o proletariado poderá vencer e garantir estabilidade à nova ordem apenas na medida em que conseguir conquistar para a sua causa as outras classes exploradas, em primeiro lugar a classe camponesa; mas a classe camponesa é integrada em um bloco histórico onde os intelectuais médios exercitam o papel de difusores de uma Weltanschauung burguesa, da concepção de vida elaborada pelos grandes intelectuais da classe dominante; para afastar o camponês do proprietário de terras é preciso favorecer a formação de um novo estrato de intelectuais que rejeitem a Weltanschauung burguesa (Gobetti, Dorso). Os Cadernos são o prosseguimento e ampliação do ensaio sobre a questão meridional. Há neles o estudo do fundamento teórico ao domínio burguês; há a contribuição do homem de pensamento à elaboração de uma nova Weltanschauung proletária, de uma nova concepção de vida oposta à burguesa, que a substitua, na consciência das classes exploradas. É especialmente nestas três direções que Gramsci dos Cadernos se move. Ele historiciza os movimentos culturais do passado, submete a filosofia de Benedetto Croce à crítica, combate as degenerações economicistas e fatalistas do marxismo.
Em sexto lugar, chamo a atenção para a sua preocupação com o método (FIORI, 1979, p. 95, 100, 129, 131) sendo, por vezes, maiêutico, “socrático”, isto é, buscando a compreensão por meio da multiplicação de perguntas. A mesma linha “socrática” está em conformidade, inclusive, com análise presente no livro “As rosas e os cadernos”, de Giorgio Baratta (2004, p. 88-90) e a grande preocupação que tinha com a elaboração, com ofraseado. Sua grande exigência com os próprios textos se manifestava nos próprios hábitos durante a escrita:
Gramsci trabalhava em condições difíceis, com os livros que o diretor, inclinado pelo conformismo dos burocratas a resistências a pequeñas prepotências, lhe permitia receber, irregularmente, do lado de fora. Os companheiros de prisão recordam-se dele absorto durante horas no trabalho. Nunca escrevia sentado. Andava de um lado para o outro, pensativo, e só quando a frase já estava bem ordenada na sua cabeça ia à mesa, apoiava um joelho sobre o banco e sempre de pé, um pouco curvado, anotava, depois logo voltava a andar. Nunca foi um escritor de fluxo contínuo. Nem mesmo a experiência do jornalismo diário o ajudava a produzir com rapidez. Porém, depois de uma longa meditação, aquele pouco que tinha a escrever ele escrevia de uma só vez, sem ser necessário reparar ou apagar (FIORI, 1979: 292- 293).
No mesmo sentido de rigor com a própria elaboração, destaque-se a acuidade filológica que atribuía aos conceitos e termos; o caráter provisório dos textos carcerários, o questionamento de “como escreveria sobre determinados temas, caso pudesse continuar suas pesquisas”, conforme sustentou em carta de 7 de setembro de 1931 a Tatiana Schucht (apud FIORI, 1979, p. 328-329). Fugindo um pouco da biografia em tela, outro ponto semelhante desse modo peculiar de pensar e elaborar ia mais adiante:
Vários companheiros de prisão relataram que Gramsci tinha o hábito de tomá-los pelo braço para passear enquanto conversavam. Um passeio ao qual ele nunca renunciava. Durante algum tempo, essas conversas na prisão foram aguardadas com ansiedade por vários deles que viam a oportunidade  de aprender com o “chefe dos comunistas italianos”. Não eram, entretanto, um monótono monólogo. Gramsci perguntava, inquiria e estimulava seus interlocutores a dizerem o que pensavam para, depois, de modo paciente e com uma fala calma expor seus próprios argumentos e ilustrá-los com imaginativas metáforas para que fossem melhor compreendidos (BIANCHI, 2008, p. 301).
Isso posto, não se pode incorrer na ingenuidade de que uma avaliação global e rigorosa de sua obra, de sua vida e do ritmo de sua elaboração teórica possa resolver todas as questões em aberto que ela suscita. Uma obra fragmentária e incompleta, particularmente aquela do seu cárcere, não pode jamais levar ao “verdadeiro Gramsci” (BIANCHI, 2008, p. 298). Talvez, dentre as diferentes leituras possíveis, possam ser vislumbradas apropriações mais atentas, fiéis à obra e seu criador. Retomando uma metáfora de Álvaro Bianchi, durante todo o período das edições temáticas e antologias o prisioneiro era o mesmo. Mudaram apenas os carcereiros. Qual será o alcance das novas prisões de Gramsci?

Bibliografia

BARATTA, Giorgio. As rosas e os cadernos. Rio de Janeiro: DP&A, 2004.
BIANCHI, Álvaro. O laboratório de Gramsci. São Paulo: Alameda, 2008.
FIORI, Giuseppe. A Vida de Antonio Gramsci. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
GRAMSCI, Antonio. Quaderni del Carcere. Torino: Einaudi, 1977. 4 v.
GRAMSCI, Antonio. A questão meridional. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999. 6 v.

Rodrigo Duarte Fernandes dos Passos e doutor em Ciência Política pela USP. Pesquisador do Grupo “Marxismo e Pensamento Político” do CEMARX - Centro de Estudos Marxistas da UNICAMP. Professor Adjunto I do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Mestrado em Ciência Política da Universidade Federal do Piauí - UFPI.