26/6/13

Sociedade Civil em Gramsci / Venturas e desventuras de um conceito

Sonia Regina de Mendonça

A Guisa de Introdução / Sem duvida alguma, como o aponta Bianchi, é evidente a existência de uma leitura hegemônica dos escritos de Gramsci, segundo a qual o filosofo e militante italiano é representado como um teórico das superestruturas, um profeta da sociedade civil “organizada” e um defensor da “conquista de espaços” na democracia (Bianchi, 2008, p. 173) Todos igualmente sabemos que o cerne desta leitura da obra de Gramsci repousa na apropriação realizada por Norberto Bobbio – de forma, aliás, bastante reducionista– do conceito de Estado do marxista sardo, onde este é tomado em um sentido “mais orgânico e ampliado”. Segundo esta apropriação a unicidade entre sociedade politica e sociedade civil, entre ditadura e hegemonia e demais díades gramscianas, é completamente rompida, erigindo-se, em seu original lugar, um suposto antagonismo entre os termos.

Como bem o sinaliza Liguori, Bobbio, ao comparar o conceito de sociedade civil em Marx e Gramsci aponta, corretamente, para a diferença entre a sociedade civil em Gramsci e em Marx, qual seja, o fato de Marx identificar a sociedade civil com a base material, i.e., a infraestrutura econômica e Gramsci não inclui-la no momento da estrutura, mas sim no da superestrutura. Entretanto, a partir dessa similitude básica, Bobbio chega a uma conclusão equivocada, pois “enquanto Marx considerava a sociedade civil (base econômica) como o fator primário da realidade histórico-social, Bobbio supõe que a transformação efetuada por Gramsci desloque da ‘infraestrutura’ para a ‘superestrutura’ (e precisamente para a sociedade civil), esta centralidade” (Liguori, 2007, p. 40)”.

Dessa forma, a leitura “bobbiana” da sociedade civil em Gramsci, acabou por difundi-lo e consagra-lo como “teórico das superestruturas”, dando margem a muitos interessados a transformarem facilmente o filosofo e militante sardo num coparticipe da tradição liberal, já que o momento ético-politico adquiria, em seu arsenal teórico assim “relido”, um lugar inédito com relação a Marx e ao marxismo. Mas outro aspecto merece destaque na crítica à herança perniciosa legada por Bobbio aos gramscianos: sua cegueira quanto ao fato de ser a sociedade civil em Gramsci o caminho por cujo intermédio ele enriqueceu, com novas determinações, a teoria marxiana do Estado, ampliando-a e completando-a.
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