26/6/13

Gramsci e os desafios de uma política democrática de esquerda

Marco Aurélio Nogueira

No final dos anos 40, quando começaram a ser publicados, os Cadernos do cárcerede Gramsci já tinham se tornado um mito no interior da esquerda italiana: jamais haviam sido lidos mas eram usados como referência para quase todas as operações políticas que se faziam no sentido de atualizar teórica e partidariamente o movimento comunista. Gramsci era apresentado como um antecipador da renovação que se fazia cada vez mais indispensável, dirigente histórico e intelectual refinado que, nas prisões fascistas, percebera os limites teóricos e práticos da III Internacional, a complexificação e a potencialidade do capitalismo, bem como o novo caráter não insurrecional da revolução.

Havia algum arbítrio e certa instrumentalização naquela operação, explicados em boa parte pela necessidade que tinha a direção comunista (e particularmente Palmiro Togliatti, seu principal integrante) de fornecer uma tradição às classes subalternas italianas e de ligálas ao nome de grandes intelectuais antifascistas.


 Ao mesmo tempo, era preciso dar consistência cultural à construção do «partido novo» e minar as resistências provenientes da cultura terceirinternacionalista, para o que se revelava particularmente eficaz defender a existência de uma longa linha de continuidade histórica entre as opções políticas do pósguerra e certas orientações teóricas mais antigas, surgidas antes do fascismo e durante a luta contra ele. De qualquer modo, um fato mostrar seia implacável: os Cadernos cairiam como um balão de oxigênio sobre os ambientes marxistas que saíam da guerra e ajudariam a acelerar arenovação democrática dos comunistas empreendida por Togliatti. Começaria assim a “era de Gramsci”, a mais bem acabada ¾e seguramente a mais disputada e freqüentada¾ operação de resgate da tradição marxista no campo da política na segunda metade do século XX.