31/5/13

A atualidade da Economia Política marxista

Alfredo Saad Filho

Quando comecei a ler O capital pela primeira vez, há muitos anos, esperavaque o livro me revelasse os segredos do capitalismo mostrando coisas que, a princípio, não poderia nem imaginar. Implicitamente, eu estava tratando O capital como um livro de profecias. Claro que isso é errado. A Economia Política marxista não oferece segredos aos seus iniciados. O que ela oferece são conexões entre aspectos da realidade que outras teorias sociais tendem a analisar separadamente.

Alfredo Saad Filho
Usando a Economia Política Marxista é possível perceber relações sistêmicas entre as sociedades, dentro de cada sociedade e, através da história, tal utilização permite a explicação da existência das classes, da exploração, do progresso técnico, do imperialismo, do neoliberalismo e de toda uma série de estruturas, processos e relações que não são imediatamente evidentes. Em contraste, teorias ortodoxas (por exemplo, a economia neoclássica) utilizam modelos discretos construídos com conceitos intercambiáveis, como “bloquinhos de lego”, como se a realidade fosse uma aglomeração de elementos ligados apenas externamente e de forma contingente. Isso limita analiticamente essas teorias, tornando-as pouco interessantes.

Método

O potencial superior da teoria marxista deve-se ao fato de ela reconhecer que a realidade é um todo concreto que determina os seus momentos, enquanto a maioria das teorias sociais presume o contrário. Na teoria marxista, entender a realidade é o processo de reconstruir no pensamento – ou apropriar-se conceitualmente de – as estruturas e relações reais de determinação entre o concreto e seus momentos. Essa análise sistemática, procedendo em níveis sucessivamente mais complexos e concretos, permite iluminar as relações entre diferentes aspectos da realidade através da introdução ordenada de conceitos que expressam essas relações. Esse procedimento é típico da dialética materialista desenvolvida por Evald Ilyenkov (1977, 1982).1 A dialética materialista supera as oposições artificiais na textura do concreto e ajuda a identificar as relações sistêmicas (a unidade) que sustentam os momentos da realidade. Ela também permite identificar conexões estruturadas e historicamente específicas onde elas não são evidentes, o que poderia sugerir às teorias não dialéticas que análises separadas seriam suficientes.

Isso é muito útil do ponto de vista das ciências sociais, mas evidentemente ese procedimento é incompatível com as profecias. Apesar de a dialética ter um papel central na crítica da Economia Política, Marx nunca escreveu em detalhe sobre seu método. E. P. Thompson estava certo ao comentar que isso não se deveu a negligência de Marx – o fato é que o seu método não existe no plano do abstrato, como um conjunto de regras formais de pensamento ou apresentação.2 O método de Marx só existe como uma prática concreta, e através da análise de problemas específicos. Evidentemente, é possível extrair regularidades a partir de uma leitura metodológica de O capital ou dos  Grundrisse, o que a dialética sistemática busca rigorosamente fazer (Arthur, 1997, 2000; Smith, 1990). Entretanto, isso não é a mesma coisa que derivar um conjunto de princípios filosóficos rígidos (que não existem em Marx), e esse esforço é intrinsecamente limitado porque os métodos de investigação e de exposição de Marx eram, na prática, muito flexíveis (Saad Filho, 2002).

Essa conclusão é importante porque o marxismo, como qualquer teoria social, não tem acesso imediato ou privilegiado à verdade e não oferece respostas prontas para os problemas da atualidade. A análise marxista oferece um instrumental de estudo e espera-se que ela seja um guia para a ação, mas o marxismo não basta para construir a realidade. Esperar o contrário seria um hegelianismo não per- mitido para uma teoria materialista. 

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Entretanto, essa flexibilidade metodológica não implica que a Economia Política marxista seja desestruturada. Ao contrário, ela é articulada de maneira firme e rigorosa, não por categorias hegelianas, mas por categorias do valor.

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