31/1/13

Gramsci para historiadores / Os Cadernos do cárcere contêm um grande livro de História da Europa burguesa ou moderna

Ricardo Salles

Estas reflexões são parte de um trabalho intelectual coletivo que vem sendo desenvolvido no âmbito do grupo ‘Gramsci e a Modernidade’ e de um trabalho de investigação histórica individual sobre a configuração do Estado imperial brasileiro, do desenvolvimento de uma segunda escravidão e de uma classe senhorial histórica centrada na região da bacia do rio Paraíba do Sul no século XIX, das relações entre lutas escravas e a abolição da escravidão no Brasil.

O título proposto é uma alusão ao livro do historiador e psicanalista Peter Gay, ‘Freud para historiadores’ (1989). A diferença é que, no caso de Gay, sua tentativa foi a de considerar as possibilidades de utilização de um quadro teórico disciplinar, ou ao menos de um conjunto de seus
conceitos, procedimentos, temas e resultados significativos, aquele da psicanálise freudiana, em um outro campo disciplinar, o da história. No caso de Gramsci, argumentarei que o esforço intelectual do revolucionário italiano, em boa parte de seus Cadernos do cárcere, foi exatamente o desenvolver um quadro teórico, um conjunto de conceitos, procedimentos, buscando obter uma série de resultados significativos, exatamente no campo disciplinar da história. Seguirei, nessa colocação, o caminho aberto por Alberto Burgio, em seu Gramsci storico (Gramsci historiador), de 2002, que considera que os Cadernos do cárcere contêm um grande livro de História da Europa burguesa ou moderna.

Gramsci historiador. Logo de início, surgem duas questões quando se busca em Gramsci uma obra de história. Em primeiro lugar, não se trata de ignorar que o esforço intelectual de Gramsci, empreendido entre 1929 e 1935, no cárcere do regime fascista, foi o empreendimento de um revolucionário, portanto afeito à política, mais precisamente, a uma política militante. Em segundo lugar, é preciso salientar que, dadas as condições em que foi realizado, na prisão, este trabalho foi fragmentado, lacunar e preliminar. Fragmentado porque o escopo de seu interesse intelectual, nesse período, envolveu uma variedade de temas simultaneamente. É sabido que seus cadernos intercalam temas distintos, tratados como notas, muitas das quais retomadas em 2 segundas anotações. Temas cuja interligação, se em alguns casos pode ser intuída e, mais raramente, explicitada, não é dada de antemão aos leitores e possivelmente nem era evidente ao próprio Gramsci. Lacunar porque, como ele mesmo apontou em carta para sua cunhada Tatiana Schucht, de 31 de agosto de 1931, faltavam-lhe as fontes necessárias para aprofundar suas observações (apud Buttigieg, sd [2010], 30). Finalmente, seu trabalho foi preliminar porque, consciente dessas limitações e características e talvez psicologicamente motivado por elas e pela intuição de que a derrota diante do fascismo representava algo mais que um contratempo passageiro e abria toda um novo período histórico, Gramsci considerava suas notas uma etapa inicial para a realização de um trabalho intelectual de maior fôlego, profundidade e alcance. Trabalho que ele, infelizmente, nunca pode realizar como queria, mas que, mesmo assim, acabou ficando, e motivando, 120 anos depois de seu nascimento e 74 após sua morte, inúmeros seminários, como esse que realizamos, e inspirando a prática de militantes políticos e sociais, de intelectuais praticamente ao redor do mundo. O que não é pouco.