30/8/11

Palmiro Togliatti — os anos Ercoli

Renato Guttuso / Ocupación de las tierras no cultivadas

Marco Mondaini
Comparando o prefácio de Giorgio Napolitano à segunda edição, de 1970, do ensaio de Togliatti intitulado O Partido Comunista Italiano — ensaio publicado inicialmente em janeiro de 1958 — com o prefácio de Renzo Martinelli à terceira edição, de 1997, uma diferença salta aos olhos rapidamente: enquanto, no primeiro, o “historicismo” togliattiano é vistotout court de forma positiva, no segundo é observado como algo marcado desde suas raízes por um “caráter finalista”, em relação ao qual, porém, “não só Togliatti, mas o conjunto do partido, seus quadros e seus militantes, as massas que seguiam a orientação do PCI” encontrar-se-iam de acordo. Então, para Martinelli, muito poucos teriam questionado o fato de que o PCI consistia numa “necessidade histórica”, assim como a ruína do capitalismo e a chegada ao socialismo [1].
Parece-nos que o juízo fortemente crítico emitido por Cesare Luporini, nos anos 1970, contra o “historicismo teórico” largamente hegemônico no interior do PCI refere-se precisamente a este “historicismo” de natureza finalista — uma teoria que até funcionava como agente problematizador do real, mas que, em última instância, revelou-se mais um elemento de cristalização intelectual e política:
No fundo, no partido italiano nos sentíamos como numa situação privilegiada em razão de sua maior flexibilidade aparente e abertura crítica ou problemática em relação à rigidez de outros partidos. Também isto mostrava-se ligado a seuhistoricismo teórico, que parecia, em geral, possibilitar uma maior ou mais rápida historicização e, ao mesmo tempo, problematização do imediatamente acontecido, do qual sempre partir de novo. Este, por exemplo, o halo que circundou logo a famosa entrevista de Togliatti a Nuovi Argomenti. Em que outro Partido Comunista poderia expressar-se, ainda que a título pessoal por parte de seu dirigente máximo, um juízo problemático com um distanciamento crítico assim tão amplo? Mas no conjunto, hoje, à distância, as coisas me parecem muito diferentes. Parece-me que vivíamos (isto é, pensávamos e agíamos) como num interstício, um interstício entre duas ortodoxias e, em ultima análise, entre dois dogmatismos, o stalinista e o historicista [2].
Entretanto, se o “finalismo” constitui um lado da medalha do “historicismo” togliattiano — um lado sem sombra de dúvida negativo, apesar de fortemente enraizado na tradição comunista —, a relação com Gramsci levou-o a compartilhar a noção de “historicismo absoluto”, a forma de aproximação ao real que parte da ordem histórica, entendida como um bloco indissolúvel entre estrutura socioeconômica e plano cultural — o “bloco histórico” —, que estabelece “o nexo entre práxis política (motivada eticamente) e situação material” [3]:
Esqueceu-se, em uma expressão muito comum [Gramsci refere-se aqui ao materialismo histórico], que se deveria colocar o acento sobre o segundo termo, “histórico”, e não sobre o primeiro, de origem metafísica. A filosofia da práxis é o “historicismo” absoluto, a mundanização e terrenalidade absoluta do pensamento, um humanismo absoluto da história. Nesta linha é que deve ser buscado o filão da nova concepção do mundo [4].
Coincidentemente, Togliatti explicita sua concordância com a concepção gramsciana do “marxismo como historicismo absoluto” exatamente no mesmo mês e ano em que dava provas do seu “historicismo finalista”, em janeiro de 1958, durante o primeiro seminário de estudos gramscianos, organizado pelo Instituto Gramsci:
Encontramo-nos aqui diante da afirmação que está no centro de todo o pensamento de Gramsci: a historicidade absoluta da realidade social e política, bem como a definição do marxismo como um historicismo absoluto, ou seja, como única doutrina capaz de levar à compreensão de todo o movimento da história e ao domínio deste movimento pelos homens associados [5].
Mas, como afirmou certa feita Paolo Spriano, mais do que defender “como eixo para a renovação cultural da Itália [...] uma formação que extraísse os seus conteúdos, integralmente, de uma análise [...] da situação histórico-social, com base na grande tradição historicista” (e até aqui Spriano cita Rossana Rossanda), Togliatti tendeu “a condensar na política a história [...] e, ao mesmo tempo, na história da cultura” [6].
No entanto, se essa condensação trazia em si muito da originalidade do pensamento togliattiano, ela também deixava as portas abertas às pressões do esquematismo stalinista. Assim, conviveram sob forte tensão na obra de Togliatti — numa verdadeira “correlação de forças” — um “marxismo concebido como método de investigação diferencial” e uma “aceitação acrítica da primazia staliniana, numa rígida aplicação de ‘princípios’ e normas codificadas pelo stalinismo” [7].
Uma tensão que acabaria por ganhar tonalidades agudas, entre 1944 e 1964, e que não degenerou em uma espécie de “curto-circuito teórico-político” devido à sua capacidade eminentemente maquiavélica de balancear virtù e fortuna — em outras palavras, o seu “fazer política”. Dessa forma, Togliatti conseguiu levar avante o autêntico trabalho de Sísifo de carregar na mão direita o veneno (o dogmatismo staliniano), tendo na mão esquerda o antídoto (a filosofia da práxis gramsciana).
Talvez não seja apressado afirmar que, na segunda metade dos anos 1930, esse “modelo de convivência não-pacífica” entre originalidade teórica e aceitação do stalinismo começa a germinar como possibilidade na reflexão togliattiana. Isto, tanto porque datam de então as suas primeiras investigações mais amadurecidas e inovadoras (as intervenções sobre o fascismo e sobre a guerra civil espanhola), como porque é neste período que ele assume o cargo de responsável da Seção de Agitação e Propaganda do Komintern, tornando-se um dos principais fautores da luta contra o trotskismo, num dos momentos mais asfixiantes do terror stalinista, o dos “processos de Moscou”.
1. A guerra de Espanha e a “democracia de tipo novo”
Em 1934, um fato prático novo fornece à Internacional Comunista um sério motivo de reflexão: o Partido Comunista Francês sai do isolamento e estabelece com os socialistas um “pacto de unidade de ação” contra o fascismo, estabelecido formalmente em 27 de julho — isto, após uma manifestação antifascista unitária que reúne cerca de cem mil pessoas, em 12 de fevereiro, na cidade de Paris. A sua influência é imediata sobre os comunistas italianos, os quais assinam com o partido socialista, em 17 de agosto, um “pacto de entendimento”. A partir de então, novas palavras de ordem começam a circular no movimento comunista internacional, rompendo com a lógica do socialfascismo: “revolução democrática, revolução antifascista, aceitação dos socialistas como força e como partido do movimento operário e até mesmo aspiração à fusão” [8].
Neste momento, o nome Ercoli já circula pelo movimento comunista internacional há mais de dez anos (Togliatti fez uso deste pseudônimo que o acompanharia por toda a sua vida, pela primeira vez, durante o V Congresso da IC, em junho-julho de 1924) e, agora, mais do que nunca, como um alto e influente dirigente kominterniano. Um claro sinal deste fato pode ser buscado na sua indicação como um dos quatro relatores oficiais do VII Congresso, junto ao búlgaro Georgi Dimitrov, ao alemão Wilhelm Pieck e ao soviético Dimitri Manuilski.
Entretanto, o grande responsável pela virada levada a cabo durante o VII Congresso foi Dimitrov, entre outras coisas, por ter convencido Stalin a autorizar as mudanças de linha política por vir — uma autorização baseada na interpretação de que essas transformações seriam um “mal menor”, já que, na verdade, o congresso é convocado a fim de ratificar uma orientação em uso, principalmente na França.
Durante o Congresso, realizado em julho-agosto de 1935, além da saudação oficial a Stalin, Ercoli apresentará o relatório intitulado “A preparação de uma nova guerra mundial por parte dos imperialistas e os deveres da Internacional Comunista”, no qual a enunciação do objetivo da luta pela paz é claramente determinado pelos interesses de política externa soviética [9]
Mas qual terá sido o papel desenvolvido por Ercoli no ano compreendido entre julho de 1934 e julho de 1935, isto é, desde a assinatura do “pacto de unidade de ação” entre PCF e SFIO até o início do VII Congresso? O de um líder político pleno de “reservas e vacilações” ante as inovações [10], o de um dirigente comunista que “recebe um vento fresco de realidade”, no final de 1934, e “passa a atribuir aos partidos comunistas da Europa Ocidental uma maior capacidade de fazer política” [11], ou, ainda, o de um teórico que vai esboçando uma concepção cada vez mais estreita entre socialismo e democracia, muito superior à postura oficial da IC, exposta por Dimitrov [12] e marcada por um “caráter substancialmente instrumental”? [13]
Acompanhando de perto as intervenções escritas por Ercoli no período, o que concluímos é que, pelo menos publicamente, é defendida com relativa energia a política de “frente única”, de união entre socialistas e comunistas. Mas após a insurreição nas Astúrias, em outubro, constata-se um gradual deslocamento de ênfase, onde a expressão “frente única” é substituída pelos termos “revolução democrático-burguesa” e “revolução proletária”.
O que nos leva a crer que o Ercoli de 1934/1935 apresenta, sim, certas “reservas e vacilações” ante o novo, que, então, localizava-se nas ações e propostas dos comunistas franceses (lembremos que, no mesmo mês de outubro, Ercoli, na posição de representante da IC, veta a iniciativa de Maurice Thorez de desenvolver a “frente única” em uma “frente popular” estendida ao Partido Radical) e, além do mais, sua concepção sobre a relação entre socialismo e democracia está ainda em um sofrido processo de superação da natureza instrumental típica do pensamento kominterniano.
Assim, em julho de 1934, Ercoli tece elogios ao sucesso da “frente única” na França, observando que o grande ensinamento tirado da lição da união entre comunistas e socialistas foi que se essa “tivesse sido realizada na Alemanha, lá o fascismo não teria vencido”. E sendo uma “questão de principio” para os comunistas, na Itália será feito “todo o possível para estabelecer um pacto de ação com o PSI”, não excluindo as devidas concessões, pois “os comunistas não colocam obstáculos à realização da unidade de luta da classe operária contra o fascismo” [14]. Mas, em setembro, Ercoli corrige a mira ao afirmar que:
[...] Para poder desenvolver esta ação no modo mais amplo e mais eficaz, nós pagamos qualquer coisa, isto é, fazemos qualquer concessão de forma — mas nunca de principio, nunca de substância — aos líderes socialistas [...] [15].
Já, em novembro, referindo-se à situação espanhola, Ercoli faz duras críticas à “traição dos anarquistas” e aos “erros cometidos pelos líderes socialistas” durante o levante nas Astúrias. Entre outras falhas, estes últimos não teriam compreendido a importância “de aderir a uma larga política de frente única e de mobilização revolucionária das grandes massas trabalhadoras da cidade e do campo”. E mais, não alcançaram a percepção de que (e aqui o discurso de Ercoli retrocede à plataforma saída do X Plenum) “não se pode bater definitivamente o fascismo senão com a revolução proletária vitoriosa, com a instauração da ditadura proletária na forma soviética” [16].
Porém, às vésperas do início do VII Congresso, no final de junho de 1935, Ercoli parece buscar aprumar suas reflexões, dizendo que “na sua etapa atual a revolução espanhola tem ainda o caráter de uma revolução democrático-burguesa”, e fazendo uso, assim, do esquema leniniano de julho de 1905, pelo qual, baseada na “aliança operário-camponesa”, a etapa da “revolução democrático-burguesa” desaguaria na “revolução socialista” [17].
O “efeito liberador” causado pelo VII Congresso se fará presente logo no primeiro escrito de Ercoli sobre a questão da “frente única” após o encontro internacional dos comunistas, no mês de agosto. Então, após fazer uma autocrítica do movimento (“Digamos também francamente que no passado, na maioria das vezes, prevaleceu nos nossos partidos a tendência a considerar cada ação de frente única de modo restrito e que a política de frente única da Internacional Comunista foi entendida e aplicada, frequentemente, de modo sectário e exclusivamente formal” [18]) e de certa forma uma autocrítica pessoal (“Estas verdades elementares do marxismo e do leninismo [...] guiaram os camaradas franceses a colocar a questão da frente popular como desenvolvimento da frente única” [19]), Togliatti realiza um avanço significativo na valorização das liberdades democráticas — ainda que adjetivada e permeada de um resíduo instrumental:
[...] Nessa situação, não há dúvida de que o terreno sobre o qual se organiza a luta antifascista só pode ser o da defesa dos interesses econômicos cotidianos dos trabalhadores e o da defesa das liberdades democráticas burguesas. Por que defendemos as liberdades democráticas burguesas? Antes de mais nada as defendemos porque, como partido da classe operária, não temos nenhum interesse que nos separem do conjunto do proletariado, e sabemos muito bem que, conquanto um regime democrático burguês possa ser reacionário, esse é sempre melhor para os operários que uma ditadura fascista aberta, na qual são suprimidastodas as possibilidades de organização legal da classe operária e de defesa legal dos seus interesses. Diante da luta dos grupos mais reacionários da burguesia para liquidar os últimos resíduos das liberdades democráticas burguesas, não podemos de nenhum modo ser indiferentes. A defesa destas liberdades torna-se o terreno histórica e politicamente indispensável para o reagrupamento e a organização das forças de massa que devemos levar à conquista do poder. O contato e a ação comum, pela defesa das liberdades democráticas burguesas, com estratos não propriamente proletários, com estratos de trabalhadores camponeses, de artesãos, de pequena-burguesia da cidade, não somente é inevitável, mas é necessário, se a vanguarda da classe operária pretende conseguir convencer estes estratos não proletários de que a garantia completa das liberdades populares se encontra na ditadura do proletariado [...] [20].
Todavia, a experiência que marcou definitivamente Ercoli em sua trajetória teórico-política nos anos 1930 foi, indubitavelmente, aquela da guerra civil espanhola — o conflito armado acontecido entre julho de 1936 e março de 1939 que, segundo o historiador francês Pierre Vilar, “está no coração da dolorosa história do século XX” [21]. Um episódio que será o “laboratório” da política de “frente popular” do Komintern, assim como o foi a Alemanha da passagem dos anos 1920 para os anos 1930 para a política de “classe contra classe”.
Adotando o nome de Alfredo, Togliatti permanecerá na Espanha durante vinte meses, entre 14 de julho de 1937 e 25 de março de 1939, indicado diretamente por Stalin como “conselheiro político” junto ao Partido Comunista Espanhol [22].
Interessante a esse respeito é a divisão ocorrida entre, por um lado, Alfredo e Dimitrov, e, por outro lado, o argentino Vittorio Codovilla (secretário de fato do PC espanhol no lugar de José Díaz), o búlgaro Stepanov (membro do secretariado dos países latinos da IC) e Manuilski acerca da definição da “frente popular”. A redação do texto “Carta aos operários espanhóis”, que seria publicado em 10 de maio de 1935, tornou explícito este dissenso. Escrito em sua primeira versão por Codovilla, o documento será revisado por Togliatti ganhando uma tonalidade diversa: “Não se trata de empreender ingenuamente a via insurrecional, válida para recordar a força da classe operária e para fixar o objetivo último da ação, mas não como regra de comportamento a breve e médio prazo” [23].
As correções de Togliatti ao texto de Codovilla, em verdade, retratariam uma diferença de fundo entre os dois grupos sobre “questões fundamentais como o papel da democracia, a relação com ‘o outro’ (em particular, os eventuais aliados), o modelo bolchevique de revolução e a autonomia das seções nacionais da Internacional Comunista” [24]. A busca do “prumo”, de junho de 1935, em “Notas sobre o caráter do fascismo espanhol”, parece ter sido impulsionada, assim, por um posicionamento mais fechado de uma parte do Komintern e do PC espanhol.
Com o avançar de 1936, a experiência espanhola passa a ser percebida por Togliatti como “um novo e mais avançado ponto de referência para a revolução na Europa Ocidental”. Um ponto de referência porque vislumbra “um objetivo político geral de caráter transitório, que consiste em uma verdadeira nova forma e específica etapa da revolução socialista: ‘um tipo novo de república democrática’” [25], a qual supera a distinção entre “defesa da democracia” e “luta pelo socialismo”, estabelecida no VII Congresso da IC.
Em outras palavras, parece que a reflexão togliattiana deu um salto de qualidade, pois “tem-se a impressão de que se faz agora menos rígida nela a separação entre as duas fases e que se começa a criar forma a idéia de que o problema principal de uma revolução socialista na Europa dos anos 1930 seja o da reorganização das massas no terreno da democracia e o da luta por novos e conseqüentes desenvolvimentos dessa democracia” [26].
Vejamos, porém, mais de perto, a evolução dos escritos de Alfredo sobre a Espanha durante o ano de 1936 a fim de confirmar, ou não, a tese consensual de que se encontra aí a “primeira experiência e elaboração teórica da ‘democracia progressiva’”, a sua “premissa longínqua”.
Em março de 1936, ou seja, antes do início do conflito armado entre as tropas republicanas e as tropas franquistas, em um texto intitulado “A vitória da frente popular na Espanha”, Togliatti continua a trabalhar com o conceito leniniano de “revolução democrático-burguesa” — utilizado, como vimos acima, de forma um tanto ou quanto incerta desde os acontecimentos de outubro de 1934. Será esse o caráter dado por Ercoli à revolução espanhola naquela fase:
Os deveres que se põem ao proletariado espanhol, a todos os trabalhadores espanhóis, são determinados pelo próprio caráter da revolução espanhola, uma revolução democrático-burguesa, nacional, dirigida contra os latifundiários, a Igreja e o capital financeiro, uma revolução, dentro da qual, um papel decisivo é atribuído aos problemas nacionais e agrários [27].
Será com o começo da guerra civil, e mais exatamente nos meses de outubro e novembro de 1936, que Togliatti ultrapassará as teses leninianas de 1905 e decifrará a especificidade do caso espanhol criando um conceito novo.
No início de outubro, em “A luta do povo espanhol contra os rebeldes fascistas”, Togliatti aponta “a necessidade política e histórica da defesa, por parte do proletariado, das instituições democráticas e republicanas contra o fascismo” — “uma democracia avançada, uma democracia revolucionária”. O momento é de “uma revolução democrática” (note-se bem, já não adjetivada burguesa, como antes!) e não de “uma revolução socialista”. A palavra de ordem dos comunistas é a de “defesa da república democrática” [28].
Mas é no final de outubro, em “Sobre as particularidades da revolução espanhola”, que Ercoli desata as amarras que o prendiam a um tipo de “análise não-diferenciada”, na qual o exemplo russo não deixava de iluminar o caso espanhol. A revolução espanhola é definida como “uma revolução que possui a mais larga base social. É uma revoluçãopopular. É uma revolução nacional. É uma revolução antifascista” [29].
A revolução espanhola possui características específicas que a diferenciam do “modelo” criado por Lenin de “revolução democrático-burguesa”: “[...] o verdadeiro caráter da frente popular espanhola não pode ser explicado definindo-o pura e simplesmente ‘ditadura democrática dos operários e camponeses’. Antes de mais nada, a frente popular espanhola não se apóia apenas nos operários e camponeses, mas possui uma base social mais larga; em segundo lugar, impulsionada pela própria guerra civil, ela toma uma série de medidas que vão bastante além do programa de um governo de ditadura democrático-revolucionária” [30].
É, porém, no longo e fundamental trecho em que define o “novo tipo de república democrática” — substancialmente distinta das “repúblicas democráticas burguesas” —, que Togliatti lança na terra as sementes que germinarão sete anos mais tarde, a de uma nova concepção de democracia, entendida de forma positiva como um processo de auto-aperfeiçoamento rumo à sua afirmação radical no socialismo, e não de forma negativa como um simples instrumento a ser devidamente descartado no instante fatal da ruptura insurrecional:
Mas a república democrática que se cria na Espanha não se assemelha a uma república democrática burguesa de tipo comum. Ela se cria no fogo de uma guerra civil na qual a parte dirigente cabe à classe operária; ela se cria num momento em que numa sexta parte do globo o socialismo já venceu e em uma série de países capitalistas a democracia burguesa conservadora foi destruída pelo fascismo. O traço característico desta nova república democrática consiste no fato de que, nela, o levante do fascismo contra o povo é esmagado por este com armas na mão: como conseqüência, não resta mais lugar, nesta república, para este inimigo do povo. Se o povo conseguir vencer, o fascismo não poderá mais, nesta república, ter a possibilidade que lhe foi dada, por exemplo, na Inglaterra, na França, nos Estados Unidos, de utilizar a democracia burguesa e os direitos que ela concede para destruir a democracia e instaurar um regime no qual as massas não têm mais nenhum direito.
Em segundo lugar, nesta república, é destruída a base material do fascismo. Neste momento, todas as terras e as empresas daqueles que apóiam a revolta dos fascistas foram confiscadas e colocadas à disposição do povo. Neste momento, em relação à situação de guerra, o governo espanhol é obrigado a introduzir um controle do aparelho econômico no interesse da defesa da república, e, quanto mais os rebeldes teimarem em guerrear contra o governo regular, tanto mais este deverá avançar na via do disciplinamento de toda a vida econômica do país.
Em terceiro lugar, esta democracia de novo tipo não poderá, em caso de vitória do povo, deixar de se tornar inimiga de toda forma de espírito conservador. Ela possui todas as condições que lhe consentem desenvolver-se ulteriormente. Ela oferece a garantia de todas as ulteriores conquistas econômicas e políticas dos trabalhadores da Espanha. É por isso que todas as forcas da reação mundial querem a derrota do povo espanhol [31]. 
Já no mês de novembro, em “Um ano de luta pela frente popular antifascista”, além de sublinhar que “a particularidade de toda a situação contemporânea está justamente no fato de que não é possível defender a democracia sem o apoio de uma frente única da classe operária”, Togliatti esclarece que “a frente popular antifascista constitui, na fase atual da luta das massas contra o fascismo, uma forma de união de tudo aquilo que existe de democrático e progressivo na humanidade, bem como uma garantia do fato de que a barbárie fascista não conseguirá triunfar sobre as forças da liberdade, do progresso social e da paz” [32].
Em suma, o Togliatti dos últimos meses de 1936 parece dar-se conta de que, no mundo contemporâneo, a defesa da democracia depende da classe trabalhadora, a democracia tornou-se um patrimônio para os trabalhadores e uma ameaça para a burguesia, a democracia pode ser mais vizinha à consecução do ideário socialista do que à manutenção do sistema capitalista.
2. Os processos de Moscou e a luta contra o trotskismo
Entretanto, o Togliatti que dá início à obra de recuperação da democracia [33], em meados dos anos 1930, o pensador de uma “democracia de tipo novo”, é também o homem que não só aplica com zelo as diretivas propagandísticas contra o trotskismo, mas recomenda também continuamente aos camaradas italianos lutar contra o trotskismo, lamentando que os italianos não lutem o suficiente [34]. Em suma — por temor, ou não, de ser mais um perseguido nesses tempos em que a vida política na URSS tinha se tornado pesada demais —, é um co-responsável pelo terror staliniano nos seus anos mais duros — e isto junto à elite kominterniana responsável pela vitória da linha política de frente popular , durante o VII Congresso da IC.
Em diferentes níveis, a participação de Togliatti nos processos stalinianos — contra o líder comunista húngaro Bela Kun, morto em 1939; contra todo o grupo dirigente do Partido Comunista da Polônia, que seria dissolvido por decreto; e contra os líderes comunistas alemães, à esquerda e à direita eliminados em sua maioria [35] — inviabiliza a crença, alimentada pelo próprio Togliatti no pós-1956, de que ignorava os crimes de Stalin”. Com toda a certeza, Togliatti nunca se ocupou das execuções materiais dos expurgos, pelo menos na Rússia, mas sempre soube, muito bem, o que acontecia em torno de si” [36], principalmente a partir do momento em que a repressão começa a atingir os próprios membros do Komintern e os comunistas estrangeiros na URSS[37].
O Togliatti dos processos de Moscou, da luta desenfreada contra o trotskismo e, também, contra o suposto maior representante do trotskismo na Itália, Amadeo Bordiga, que, em certos momentos, escorrega para o uso da linguagem socialfascista, pode ser exemplarmente visualizado em dois escritos do biênio 1936-1937.
O primeiro, “Os ensinamentos do processo de Moscou” [38], publicado na revista da Internacional Comunista em outubro-novembro de 1936, ao mesmo tempo que “Sobre as particularidades da revolução espanhola”, reflete os tempos do primeiro processo contra o “centro trotskista-zinovievista”, aberto em agosto de 1936. Os títulos dos cinco itens que dividem o texto falam por si sós no que concerne ao outro lado da práxis política de Togliatti: “1. a importância internacional do processo contra o bando terrorista trotskista-zinovievista; 2. os chefes reacionários da socialdemocracia correm em ajuda dos bandidos trotskistas-zinovievistas; 3. o trotskismo é um agente do fascismo no seio da classe operária; 4. a colaboração da polícia com os bandidos trotskistas; 5. a luta contra o trotskismo contra-revolucionário é um dever de cada trabalhador honesto”.
O segundo, “O líder da classe operária italiana”, publicado em maio-junho de 1937 nas páginas de Lo Stato operaio é, ao mesmo tempo, um grande elogio a Antonio Gramsci, recém-falecido em 27 de abril, e uma oportunidade a mais para ofender Trotski e Bordiga, após o segundo processo de Moscou, instaurado em janeiro de 1937, contra o centro paralelo trotskista. E a síntese alcançada por Togliatti é uma instrumentalização forçada de Gramsci, a fim de destruir a figura dos dois líderes comunistas de esquerda:
[...] Bordiga vive hoje tranqüilo na Itália como um canalha trotskista, protegido pela polícia e pelos fascistas, odiado pelos operários como deve ser odiado um traidor. No princípio da guerra contra a Abissínia, a imprensa italiana comunicava que ele tinha participado de uma festa religiosa, tinha sido benzido pelo padre junto aos soldados em partida para a Abissínia, e na saída da igreja tinha passado sob um arco formado pelos punhais de uma companhia de militares fascistas que lhe prestavam as honras. Isto acontecia no momento em que Gramsci, prisioneiro de Mussolini, lutava até o fim, no cárcere, sob a bandeira comunista [39].
[...] em 1930, tendo sabido que alguns camaradas encarcerados tendiam a cair sob a influência do trotskismo, e não podendo mais conduzir longas discussões, [Gramsci] lançava nos cárceres a palavra de ordem bastante significativa: “Trotski é a puta (sic) do fascismo” [40].  
Notas
[1] As três edições de Il Partito Comunista Italiano são, respectivamente: Milão: La Nuova Accademia, 1958; Roma: Riuniti, 1970; Roma: Riuniti, 1997. O referido texto foi publicado no Brasil com o título de: O caminho italiano para o socialismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.
[2] Citado por: KALLSCHEUR, Otto. “Marxismo e teoria do conhecimento”. In: HOBSBAWM, Eric (Org.). História do marxismo (v. XII). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989, p. 29.
[3] BADALONI, Nicola. “II rapporto con Gramsci: una concordia discorde”. Critica marxista, n. 4-5, 1984, p. 45 (número especial sobre Togliatti nella storia d'ltalia). Em um texto do mesmo período, o filósofo italiano afirmaria que “no pensamento de Gramsci, há uma passagem do ‘historicismo’ [...] para uma ‘filosofia da práxis’”. E mais adiante, que “o termo ‘historicismo’ é um débil substituto para ‘filosofia da práxis’”. Ver: “Gramsci: a filosofia da práxis como previsão”. In: HOBSBAWM, Eric (Org.). História do marxismo (v. X). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987, p. 85. Outrossim, respondendo às críticas de Cesare Luporini ao “historicismo teórico” acima citadas, Badaloni distinguiria o “historicismo crociano” — uma teoria positiva da “revolução passiva” — do “historicismo gramsciano” — uma teoria da “revolução socialista”. Ver: II marxismo di Gramsci. Turim: Einaudi, 1975, p. 158-60.
[4] GRAMSCI, Antonio. Concepção dialética da história. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1989, p. 189 (o grifo é meu).
[5] TOGLIATTI, Palmiro. “Il leninismo nel pensiero e nell’azione di Antonio Gramsci”. In:Antonio Gramsci. Org. por Ernesto Ragionieri. Roma: Riuniti, 1967, p. 145 (o grifo é meu).
[6] SPRIANO, Paolo. “Marxismo e historicismo em Togliatti”. In: HOBSBAWM, Eric (Org.).História do marxismo (v. X). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987, p. 272.
[7] Ib., p. 260.
[8] SPRIANO, Paolo. Intervista sulla storia del PCI. Roma-Bari: Laterza, 1979, p. 78-80. Os textos completos do “Pacto de Unidade de ação entre SFIO e PCF” e do “Pacto de entendimento entre PCd’I e PSI” podem ser encontrados em: DE FELICE, Franco. Fascismo— democrazia — fronte popolare. Il movimento comunista alla svolta del VII Congresso dell’Internazionale. Bari: De Donato, 1973, p. 273-5 e 276-8.
[9] TOGLIATTI, Palmiro. “La preparazione di una nuova guerra mondiale da parte degli imperialisti e i compiti dell’Internazionale Comunista”. In: Id. Opere Scelte. Org. por Gianpasquale Santomassimo. Roma: Riuniti, 1974, p.180-254.
[10] AGOSTI, Aldo. Togliatti. Milão: Utet, 1996, p. 169-71;
[11] RAGIONIERI, Ernesto. “Palmiro Togliatti e il VII Congresso dell’Internazinale Comunista”. In: Id. Pamiro Togliatti. Per una biografia politica e intellettuale. Roma: Riuniti, 1976, p. 761-7.
[12] 0 relatório de Dimitrov ao VII Congresso, intitulado “A ofensiva do fascismo e os deveres da IC na luta pela unidade da classe operária contra o fascismo”, pode ser consultado em: DE FELICE, Franco. Fascismo — democrazia — fronte popolare, op. cit., p. 101-67.
[13] VACCA, Giuseppe. Saggio su Togliatti e la tradizione comunista. Bari: De Donato, 1975, p. 252-4.
[14] TOGLIATTI, Palmiro. “Per l’unità d’azione del proletariato” e “L’unità di azione in Francia”. In: Id. Opere (III, 2). Org. por Ernesto Ragionieri. Roma: Riuniti, 1973, p. 399-403 e 413-7.
[15] TOGLIATTI, Palmiro. “L’Internazionale Comunista e il fronte único”. In: Id, ib., p. 448.
[16] TOGLIATTI, Palmiro. “La guerra civile in Spagna e i compiti del proletariato internazionale” e “L’esperienza spagnuola”. In: Id., ib., p. 489-97 e 502-11.
[17] TOGLIATTI, Palmiro. “Note sul carattere del fascismo sapagnuolo”. In: Id., ib., p. 699. Sobre o esquema leniniano das duas etapas da revolução socialista, ver: LENIN, Vladimir Ilitch. “Duas táticas da socialdemocracia na revolução democrática”. In: Id. Obras escolhidas(v. 1). São Paulo: Alfa-Ômega, 1986, p. 381-472.
[18] TOGLIATTI, Palmiro. “Problemi del fronte único”. In: Id., ib., p. 717.
[19] Ib., p. 725.
[20] Ib., p. 724-5.
[21] VILAR, Pierre. A guerra de Espanha. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989, p. 59.
[22] Sobre a atuação de Alfredo na Espanha, ver: BOCCA, Giorgio. Palmiro Togliatti. Roma-Bari: Laterza, 1977, p. 263-95. Entre outras afirmações polêmicas, o autor levanta suspeitas sobre a presença de Togliatti antes de 14/7/1937 na Espanha, participando de “missões secretas”, e sobre sua responsabilidade direta no assassinato do líder do POUM (Partido Operário de Unificação Marxista), de orientação trotskista, Andrés Nin, ex-secretário do PC espanhol.
[23] ELORZA, Antonio. “Storia di um manifesto. Ercoli e la definizione del fronte popolare in Spagna”. Studi Storici, n. 2, aprile-giugno 1995, p. 358.
[24] Ib., p. 362.
[25] VACCA, Giuseppe. 
Saggio su Togliatti e la tradizione comunista, op. cit., p. 259.
[26] AGOSTI, Aldo. Togliatti, op. cit., p. 218. Cabe ressaltar que entendemos “anacrônica” a afirmação de Agosti de que, neste momento, dá-se no pensamento de Togliatti uma “reapropriação dos valores universais da democracia” (p. 209).
[27] TOGLIATTI, Palmiro. “La vittoria del fronte popolare in Spagna”. In: Id. Opere (IV, 1). Org. por Franco Andreucci e Paolo Spriano. Roma: Riuniti, 1979, p. 108 (o grifo é meu).
[28] TOGLIATTI, Palmiro. “La lotta del popolo spagnolo contro i ribelli fascisti”. In: Id., ib., p. 120-38.
[29] TOGLIATTI, Palmiro. “Sulle particolarità della rivoluzione spagnuola”. In: Id., ib., p. 140.
[30] Ib., p. 151.
[31] Ib., p. 152 (o grifo é meu).
[32] TOGLIATTI, Palmiro. “Un anno di lotte per il fronte popolare antifascista”. In: Id., ib., p. 186 e 190 (o grifo é meu).
[33] CAFAGNA, Luciano. “Il ‘recupero’ della democrazia”. Critica marxista, n. 4-5, p. 69-82.
[34] SPRIANO, Paolo. Intervista sulla storia del PCI, op. cit., p. 91.
[35] Ver, a respeito: BOCCA, Giorgio. Palmiro Togliatti, op. cit., p. 245-50; e, principalmente: MIELI, Renato. Togliatti 1937. Milão: Rizzoli, 1988.
[36] Ib., p. 250.
[37] AGOSTI, Aldo, Togliatti, op. cit., p. 218.
[38] TOGLIATTI, Palmiro. Opere (IV, 1), op. cit., p. 155-78.
[39] TOGLIATTI, Palmiro. “Il capo della classe operaia italiana”. In: Id. Antonio Gramsci, op. cit., p. 29-30.
[40] Ib., p. 35-6.
Marco Mondaini é historiador e professor-adjunto da Universidade Federal de Pernambuco.
Fuente:
http://www.acessa.com/gramsci/?page=visualizar&id=805