30/8/11

Uma “carta do cárcere”, há mais de oitenta anos


Esta é uma das 478 cartas e bilhetes redigidos de diferentes cárceres, entre 1926 e 1937, por Antonio Gramsci. Juntos, compõem um inesperado "romance de formação": um precioso documento da transformação de um sardo provinciano em grande intelectual europeu. E também representam, evidentemente, um ato de acusação contra o fascismo, que condenou Gramsci a uma inexorável "morte lenta". Um bom número destas cartas foi dirigido a Tatiana (Tania) Schucht, cunhada do prisioneiro, que, com o amigo Piero Sraffa, especialmente designado por Palmiro Togliatti e pelo PCI, foi figura essencial na assistência a Gramsci e na afortunada preservação do seu legado. Mantivemos aqui as notas e referências da edição brasileira das Cartas do cárcere, publicadas em dois volumes pela Editora Civilização Brasileira, em 2005.
11 de abril de 1927


Querida Tania,
Recebi seus cartões de 31 de março e de 3 de abril. Agradeço as notícias que me manda. Espero sua vinda a Milão; mas, confesso, não quero contar muito com ela. Pensei que não seria muito agradável continuar a descrição, iniciada na última carta, de minha vida atual. É melhor que, em cada vez, escreva o que me vier à cabeça, sem um plano preestabelecido. Escrever também se tornou um tormento físico, porque me dão penas horríveis, que arranham o papel e exigem uma atenção obsessiva para a parte mecânica de escrever. Acreditava que poderia obter o uso permanente de caneta e me havia proposto escrever os trabalhos que lhe mencionei; mas não pude obter a autorização e não gosto de insistir [1]. Por isso, só escrevo nas duas horas e meia ou nas três horas em que cuidamos da correspondência semanal (duas cartas); naturalmente, não posso fazer anotações, isto é, na realidade não posso estudar de modo ordenado e proveitoso. Mal leio. Mas o tempo passa rapidamente, mais do que podia pensar.


Passaram cinco meses desde o dia de minha prisão (8 de novembro) e dois meses desde o dia de minha chegada a Milão. Não parece verdade que tanto tempo passou. Mas se deve ter em conta o fato de que, nestes cinco meses, vi coisas de todo tipo e tive as impressões mais estranhas e mais excepcionais de minha vida [2]. Roma, de 8 de novembro até 25 de novembro: isolamento absoluto e rigoroso. 25 de novembro: Nápoles, na companhia de meus quatro companheiros deputados até o dia 29 (três, não quatro, porque um foi separado em Caserta para Tremiti) [3]. Embarque para Palermo e chegada a Palermo no dia 30. Oito dias em Palermo: três viagens frustradas para Ustica, por causa do mar tempestuoso. Primeiro contato com os presos sicilianos acusados de mafiosos: um mundo novo, que só conhecia intelectualmente; verifico e comprovo minhas opiniões a propósito, que reconheço como bastante precisas. Em 7 de dezembro, chegada a Ustica. Conheço o mundo dos presos comuns: coisas fantásticas e incríveis. Conheço a colônia dos beduínos da Cirenaica, confinados políticos: quadro oriental, muito interessante [4]. Vida em Ustica. Em 20 de janeiro, torno a partir. Quatro dias em Palermo. Travessia para Nápoles com criminosos comuns. Nápoles: conheço toda uma série de tipos do mais alto interesse para mim, eu que, do Mezzogiorno, só conhecia a Sardenha. Em Nápoles, entre outras coisas, assisto a uma cena de iniciação à camorra: conheço um condenado à prisão perpétua (um certo Arturo), que me deixa uma impressão indelével. Depois de quatro dias, vou embora de Nápoles; parada em Cajanello, no quartel dos carabineiros; conheço meus companheiros de algema, que irão comigo até Bolonha. Dois dias em Isernia, com esses tipos. Dois dias em Sulmona. Uma noite em Castellamare A., no quartel dos carabineiros. Mais ainda: dois dias com cerca de sessenta presos. São organizados entretenimentos ocasionais em minha homenagem; os romanos improvisam uma belíssima festa literária, Pascarella e pequenos quadros populares do submundo romano. Apulienses, calabreses e sicilianos fazem uma apresentação de luta com facas segundo as regras dos quatro Estados do submundo meridional (o Estado siciliano, o Estado calabrês, o Estado apuliense, o Estado napolitano): sicilianos contra apulienses, apulienses contra calabreses. Sicilianos e calabreses não competem, porque entre os dois Estados o ódio é muito forte e até mesmo uma apresentação se torna séria e cruenta. Os apulienses são os mestres de todos: esfaqueadores insuperáveis, com uma técnica cheia de segredos e absolutamente mortal, desenvolvida segundo todas as outras técnicas, a ponto de superá-las. Um velho apuliense, de 65 anos, muito reverenciado mas sem dignidade “estatal”, derrota todos os campeões dos outros “Estados”; depois, no ponto culminante, esgrima contra um outro apuliense, jovem, de corpo muito bonito e de agilidade surpreendente, alto dignitário a que todos obedecem, e por meia hora demonstram toda a técnica normal de todas as escolas conhecidas. Cena verdadeiramente grandiosa e inesquecível, por todos os motivos, pelos atores e pelos espectadores: todo um mundo subterrâneo, complicadíssimo, com uma vida própria de sentimentos, de pontos de vista, de pontos de honra, com hierarquias férreas e formidáveis, se revelava para mim. As armas eram simples: as colheres, friccionadas na parede, de modo que a cal assinalava os golpes na roupa. Depois Bolonha, dois dias, com outras cenas; depois Milão. Certamente, estes cinco meses foram movimentados e ricos de impressões para um ou dois anos de ruminação. Isto explica como passo o tempo, quando não leio; volto a pensar em todas estas coisas, analiso-as minuciosamente, embriago-me com este trabalho bizantino. Além disso, tudo o que ocorre a meu redor e que consigo compreender se torna extremamente interessante. Certamente me controlo com freqüência, porque não quero cair nas monomanias que caracterizam a psicologia dos detentos; me ajuda nisso, especialmente, um certo espírito irônico e cheio de humor que me acompanha sempre. E você, o que é que faz e no que pensa? Quem é que lhe compra os romances de aventura, agora que não estou presente? Estou certo de que releu as admiráveis histórias de Corcoran e de sua amável Lisotta [5]. Tem ido, neste ano, às aulas na Policlínica [6]? E o professor Caronia, foi ele quem encontrou o bacilo do sarampo? Acompanhei suas lamentáveis complicações; e não compreendi, pelos jornais, se o professor Cirincione também foi suspenso [7]. Pelo menos em parte, tudo isto está ligado ao problema da máfia siciliana. É incrível como os sicilianos, da camada mais baixa até os níveis mais altos, são solidários entre si e como até mesmo cientistas de inegável valor andam perto do Código Penal em razão deste sentimento de solidariedade. Convenci-me de que, realmente, os sicilianos constituem um caso à parte; há mais semelhança entre um calabrês e um piemontês do que entre um calabrês e um siciliano. As acusações que os meridionais em geral dirigem contra os sicilianos são terríveis: acusam-nos até mesmo de canibalismo. Não teria acreditado nunca que existissem tais sentimentos populares. Penso que seria preciso ler muitos livros sobre a história dos últimos séculos, especialmente o período da separação entre a Sicília e o Mezzogiorno durante os reinos de José Bonaparte e Joachim Murat em Nápoles, para encontrar a origem destes sentimentos [8]. 
Estou entusiasmado com o gorro; onde é que conseguiu encontrá-lo? Acho que é o gorro de Orgosolo, vermelho e azul, que eu não conseguia mais encontrar. A bola de papelão não pode ser enviada e, do mesmo modo, você não pode me mandar o verniz: acredito que é absolutamente impossível, especialmente o verniz, que pode ser considerado como um veneno, segundo o regulamento, e exigiria toda uma série de controles muito complicados. Veja só: um outro objeto de análise muito interessante: o regulamento carcerário e a psicologia que amadurece entre o pessoal de guarda a partir do regulamento, por um lado, e a partir do contato com os prisioneiros, por outro. Eu acreditava que duas obras-primas (falo a sério mesmo) concentravam a experiência milenar dos homens no campo da organização de massa: o manual do cabo e o catecismo católico. Convenci-me de que se deve acrescentar, se bem que num campo muito mais restrito e de caráter excepcional, o regulamento carcerário, que contém verdadeiros tesouros de introspecção psicológica. Espero as cartas de Giulia: acredito que, depois de lê-las, conseguirei escrever a ela diretamente. Não pense que isto seja uma criancice. Uma notícia importante: de uns dias para cá tenho comido muito; no entanto, não consigo comer verduras; tenho me esforçado muito, mas desisti porque sinto terríveis engulhos. E, apesar de tudo, não consigo esquecer que você talvez venha e que talvez (ai de mim) nos possamos ver, ainda que por alguns minutos. Abraços,
Antonio

Notas
[1] O primeiro requerimento para usar caneta, tinta e papel, apresentado ao juiz Macis em março de 1927, é o doc. 3, apêndice 1, v. 2, p. 440.
[2] Esta descrição detalhada do período de prisão foi retida pelas autoridades. Tatiana só receberia esta carta em 4 de julho de 1928 (cf., também, carta 34).
[3] Enrico Ferrari (cf. carta 8, n. 4).
[4] A Cirenaica, especialmente a capital e o porto de Bengasi, estava sob o domínio italiano desde a guerra líbica, em 1912. Os beduínos mencionados provavelmente estavam detidos por combater a administração colonial italiana.
[5] Referência a um célebre livro para jovens, Les merveilleuses aventures du capitaine Corcoran, publicado em 1867 por Alfred Assolant (1827-1886). Lisotta é o tigre-fêmea, companheiro de aventuras de Corcoran.
[6] Bióloga, Tatiana havia ensinado ciências naturais no Instituto Internacional Crandon, em Roma, e se interessava pela medicina, o que explica a pergunta de Gramsci as demais referências. “Amiga, e amiga entusiasmada, de médicos e enfermeiros” – assim ela é lembrada por Nilde Perilli (Gramsci vivo nelle testimonianze dei suoi contemporanei, cit., p. 159). Sobre as aulas na Policlínica, há informação direta numa carta de Tatiana aos parentes de Moscou, em 1925: “Peço-lhes que levem em conta meus conselhos, que têm algum fundamento, já que estudei um pouco e sempre estive no campo da medicina. Bem sabem que até terminei os cursos, só não tive a possibilidade de prestar os exames” (Lettere ai familiari, cit., p. 16).
[7] Respectivamente, Giuseppe Caronia e Giuseppe Cirincione, ambos da Universidade de Roma. Caronia havia sido suspenso das atividades docentes por causa de problemas com pacientes internados na sua clínica. Seria reitor da Universidade entre 1944 e 1947.
[8] Durante o período napoleônico, a Itália Meridional esteve sob os governos de José Bonaparte (1806-1808) e de Joachim Murat (1808-1815). Em Nápoles, Murat promoveu algumas reformas segundo os princípios “franceses”, enquanto a Sicília tornou-se bastião da monarquia dos Bourbons e se afastou ainda mais do reformismo europeu do tempo.