13/1/11

Sobre o léxico político gramsciano

Natalya Critchley (Venezuela) Barco en Puerto Cabello

Rita Medici

Pode-se dizer que hoje está inteiramente fora de discussão a filiação de Gramsci àquele grupo de autores — mais ou menos incorporados à cultura oficial como “clássicos” — que contribuíram para formar o léxico político do qual comumente nos servimos [1]. Ou seja, existem expressões e conceitos, utilizados a seu tempo por Gramsci e que são, hoje, de uso quase comum: fazem parte daquela linguagem jornalística e midiática que é elemento de conexão entre cultura “alta” e cultura “baixa” (uma conexão talvez mais no sentido inferior do que nos tempos em que Gramsci escrevia para a imprensa socialista). Entre estes termos, conceitos e expressões gramscianas que se tornaram de amplo uso e, em alguns casos, de uso comum, os mais conhecidos são, entre outros, “moderno Príncipe”, “reforma intelectual e moral”, “intelectual orgânico”, “nacional-popular”, “revolução passiva”, “hegemonia”.

É perfeitamente evidente que a divulgação destas expressões foi também, necessariamente, uma “vulgarização” em relação às fórmulas gramscianas, alterando-lhes de maneira mais ou menos consistente o significado original; é óbvio, pois, que não há coincidência imediata entre o que aqueles termos e expressões significavam inseridos no tecido do discurso teórico de Gramsci, e o que se entende hoje na linguagem político-jornalística, mais simplificada e desenvolta. E, por outra parte, também não podemos pensar que exista uma total diversidade: por isso, quando, agora, falamos de “hegemonia”, ou definimos algo (um projeto ou o comportamento de uma determinada força política) como “hegemônico”, estamos de todo modo usando estes termos aproximadamente no mesmo sentido a eles dado por Gramsci (ainda que se possa observar que, no caso específico, o termo assume uma nuance negativa, que não estava presente no léxico de Gramsci).

Não obstante, as vulgarizações, inevitáveis quando ocorre ampla recepção de um autor, devem ser consideradas dentro e não fora da história deste autor, e fazem parte da fortuna da sua obra. Algo análogo aconteceu àquele que podemos julgar hoje como um dos maiores pensadores políticos italianos da primeira metade do século XX, Gaetano Mosca, conhecido por ter sido o teórico da chamada “classe política”. Precisamente este conceito mosquiano de “classe política” conheceu notável fortuna e sofreu aquele mesmo processo de divulgação e simplificação que referimos a propósito do léxico de Gramsci [2]. Incidentalmente, deve-se observar que este conceito mosquiano de “classe política” se afirmou com força irresistível e hoje é livremente usado, apesar de todos os doutos esclarecimentos marxistas que puderam ser feitos no curso do tempo sobre sua inconsistência teórica: uma vez que, como é óbvio, em termos marxistas não faz nenhum sentido falar (como faz Mosca) de uma “classe política”, a qual, de algum modo, se forme e transforme prescindindo da dinâmica das classes sociais e das relações econômicas; de resto, como sabemos, Gramsci faz observações nos Cadernos bastante sarcásticas sobre a natureza híbrida deste conceito mosquiano, por ele definido como uma espécie de puzzle, um amontoado de significados diferentes, entre os quais o autor se teria movimentado sem nenhuma clareza [3].

Relendo as páginas nas quais Gramsci expressou este juízo, bastante severo, sobre o léxico político de Mosca, pode-se ter a sensação de que se deu um curioso tipo de contrapasso, já que poderíamos afirmar, hoje, algo muito semelhante sobre o léxico político de Gramsci. Com efeito, não se deve imputar totalmente aos intérpretes, mas em parte também às dificuldades do texto gramsciano dos Cadernos, o fato de que ainda nos faltam, em relação ao léxico gramsciano, um conhecimento e um domínio completo. Se excluirmos um livro de caráter sobretudo de divulgação, saído há cerca de duas décadas [4], ainda não temos uma obra que analise de modo sistemático este aspecto do pensamento de Gramsci, ainda que, como é óbvio, um ou outro conceito tenha sido adequadamente investigado. De todo modo, seja qual for a causa, o que ainda falta é uma exata reconstituição daquele léxico que encontramos exposto nos Cadernos e que, em alguns casos, outros autores tomam de empréstimo; um léxico que, em geral, já estava presente e era utilizado por Gramsci na vasta produção político-jornalística constituída pelos escritos anteriores a 1926.

Torna-se necessária uma investigação completa e analítica sobre este léxico, sua formação nos escritos de juventude, sua maior ou menor originalidade, levando em conta, inclusive, o fato de que mais de uma vez Gramsci tornou famosas expressões que, em realidade, pertencem a outros: para dar um só exemplo, a célebre “reforma intelectual e moral”, que Gramsci retoma de Renan (mas também “revolução passiva”, retomada de Vincenzo Cuoco; “revolução/restauração”, do historiador francês Edgar Quinet; “pessimismo da inteligência” e “otimismo da vontade”, de Romain Rolland, etc.) [5].

Naturalmente, não pode haver um valor imediatamente explicativo nas análises filológicas, que, no entanto, são a premissa indispensável de uma operação histórico-interpretativa com resultados dignos de crédito. Este trabalho preliminar, que aqui só pode ser esquematicamente resumido nos pontos fundamentais, deve consistir, em primeiro lugar, num exame acurado da formação deste léxico nos escritos de Gramsci que precedem osCadernos. Deve-se aqui colocar o problema da “passagem” deste léxico para os escritos do cárcere, bem como das inovações e das perdas: o caso mais relevante é o de jacobinismo, visto por Gramsci de modo bastante negativo pelo menos até um certo ponto (veja-se, por exemplo, o texto “Notas sobre a Revolução Russa”, escrito por Gramsci em abril de 1917) [6], e depois encontrável nos Cadernos como categoria histórico-interpretativa de primeira grandeza (sabemos ser à luz dos dois conceitos fundamentais de jacobinismo — ou melhor, ausência de jacobinismo — e de “revolução passiva” que Gramsci observa as vicissitudes históricas do Risorgimento italiano). O ponto de vista gramsciano começa a mudar de maneira sensível a partir de 1921, quando ele faz traduzir em italiano e publica por partes, em L’Ordine Nuovo, o ensaio do historiador francês Mathiez Le bolchevisme et le jacobinisme, no qual se defende que os bolcheviques são “os novos jacobinos” [7].

Uma segunda operação deve consistir em avaliar a dívida de Gramsci com outros autores no tocante ao léxico; e aqui será preciso capacidade para apontar o que se trata de puros empréstimos lexicais, quando não há coincidência nas implicações teóricas: este pode ser o caso, por exemplo, da expressão “revolução passiva”, já tornada famosa por Vincenzo Cuoco no seu ensaio sobre a revolução napolitana de 1899, mas da qual Gramsci, segundo declara, serviu-se em sentido completamente novo (Q 1.775). Uma terceira e última operação que se faz necessária é a de uma exata reconstrução textual do que Gramsci efetivamente disse e do lugar ocupado nas suas páginas pelas várias expressões que compõem seu já célebre léxico político. Entre outras coisas, atribuindo a todo conceito também sua exata dimensão quantitativa, que uma obra de reconhecimento do texto gramsciano deve necessariamente aduzir. Por exemplo, do ponto de vista quantitativo, uma expressão muito célebre, como a de “moderno Príncipe” —certamente uma das mais conhecidas e mais “afortunadas” do léxico político gramsciano —, tem escassa consistência, já que aparece em poucas passagens dos Cadernos do cárcere (embora seja empregada num parágrafo de importância fundamental, como é o § 1 do Caderno 13); ao passo que existem conceitos dos quais, na realidade, Gramsci faz um uso mais amplo e que, no entanto, não se associam tão forte e imediatamente ao seu pensamento.

Por exemplo, ignorou-se por muito tempo a importância de uma noção-chave da reflexão gramsciana, a de “classe subalterna”, relegada a uma posição secundária: ainda resta esclarecer adequadamente o papel que desempenha na construção teórica de Gramsci, mas, em alguns países do terceiro mundo, dão testemunho da sua importância recentes desdobramentos de orientações de pesquisa relativas à problemática da história das classes subalternas, a partir precisamente de sugestões gramscianas [8]. Ao mesmo tempo, impor-se-iam esclarecimentos adequados inclusive com relação ao modo como Gramsci utiliza uma outra noção de primeira importância, a de “sociedade civil”, que chegou a Gramsci a partir de uma longa história precedente, a partir do século XVII com John Locke, bem como, no século seguinte, com os economistas escoceses Adam Ferguson e Adam Smith, passando em seguida, no século XIX, por filósofos como Hegel; uma noção que, ao mesmo tempo, Gramsci (e com ele toda a tradição do marxismo italiano) julga como conceito básico da concepção materialista da história no célebre “Prefácio” de 1859 para a Contribuição à crítica da economia política.

Em relação à problemática da sociedade civil, esta dupla fonte gramsciana — Marx e o marxismo e, ao mesmo tempo, o pensamento econômico-político moderno — já tinha sido assinalada com absoluta clareza por Norberto Bobbio em anos bastante longínquos, num texto apresentado ao congresso gramsciano de Cagliari em 1967. Tratou-se, então, de uma contribuição fundamental, que não deixou de suscitar polêmicas e que indicou, entre outras coisas, toda uma linha de pesquisa que só mais recentemente foi inteiramente acolhida: a de aprofundar as relações e as comparações entre Gramsci e as várias escolas do pensamento político, e não só com os vários filões do pensamento marxista. Bobbio posteriormente reapresentaria aquele texto, ao lado de outras contribuições, num volume de ensaios publicado há poucos anos [9]. Trata-se de um escrito de notável relevo teórico e interpretativo, e é oportuno tornar a partir dele para fazer o balanço de uma questão — qual é, em Gramsci, o significado e sobretudo a importância do conceito de “sociedade civil” — e saber as conseqüências que isso, precisamente, acarreta para a qualidade e a natureza da sua reflexão política geral. E isto, inclusive, considerando-se a recente tentativa, por parte de alguns, de inserir Gramsci no contexto da tradição liberal ou democrática, com a intenção, em si compartilhável, ainda que às vezes realizada com meios impróprios (como quando se afirma que ele foi um pensador “liberal”), de reivindicar plenamente Gramsci para a grande tradição do pensamento europeu moderno e contemporâneo [10].

Esquematicamente, mas também com grande riqueza de observações de detalhe, Bobbio distingue no pensamento político moderno duas diferentes concepções do Estado e da relação entre sociedade civil pré-estatal e o próprio Estado: a hobbesiano-rousseauniana, que vê o Estado como “negação radical e [...] inversão do estado de natureza”; e a lockiano-kantiana, segundo a qual, ao contrário, o Estado é “conservação-regulação da sociedade natural”, não mais entendido, pois, como “alternativa”, mas só como “aperfeiçoamento” da fase que o precede. Além disso, segundo Bobbio, uma terceira posição com respeito ao problema seria representada por Hegel, o qual concebia o Estado, simultaneamente, como “conservação” e “superação” da sociedade pré-estatal, diferenciando-se, pois, da linha Hobbes-Rousseau, dado que o Estado “contém” a sociedade civil (que nada mais é do que a historicização daquele estado de natureza, que, em lugar disso, a teoria hobbesiana e a rousseauniana eliminavam totalmente); no entanto, contém-na transformando-a em realidade orgânica, ao passo que, por exemplo, em Locke, o Estado contém a sociedade civil não para superá-la mas simplesmente para legitimá-la [11].

Segundo Bobbio, depois de Hegel, mas já com um contemporâneo de Hegel como Saint-Simon, tem início a “parábola descendente” deste processo de “racionalização” do Estado, que tivera precisamente a Filosofia do direito de Hegel como seu ponto culminante: tem início a crença na “inevitável extinção” do Estado, uma teoria que teria ampla difusão durante todo o século XIX e se tornaria, para Marx e para Engels, “um dos eixos” do sistema de ambos. Segundo Bobbio, portanto, havia uma total antítese, neste ponto da relação sociedade/Estado, entre os fundadores da teoria marxista e a tradição jusnaturalista, que em Hegel encontrara seu ponto culminante. Uma visão negativa do Estado, visto como “aparelho coercitivo, particularista e subordinado”, e, conseqüentemente, como “instituição transitória”; uma visão com a qual se efetivaria uma inversão completa na concepção do curso histórico: o progresso, observa Bobbio, não se move mais da sociedade ao Estado, mas, inversamente, do Estado à sociedade. A teoria do Estado presente em Antonio Gramsci pertenceria, pois, a esta “nova história”, pela qual o Estado não mais pode ser considerado “um fim em si mesmo”, mas, ao contrário, “um aparelho”, “um instrumento”: logo, não um ente acima da sociedade, mas subordinado, não uma instituição permanente, mas transitória [12].

Não é o caso de rever passo a passo a complexa e sutil análise que Bobbio realiza, com a perícia costumeira, em relação às questões terminológicas que esta investigação envolve: de fato, é preciso ter consciência de que, entre as várias tradições (lockiana, hobbesiana, etc.), existem oscilações e diferenças sobre o que se deve entender exatamente por “sociedade civil”: se indica uma esfera inteiramente diferente em relação à estatal, ou, como ocorre na escola jusnaturalista, a expressão societas civilis está a significar, segundo o uso latino, “sociedade política” (e, portanto, Estado). Bobbio ainda observa que também em Gramsci não faltam algumas incertezas terminológicas, e isso não é destituído de conseqüências para a reflexão crítica, considerando, inclusive, a natureza não sistemática da sua reflexão. Não é possível seguir toda a argumentação desenvolvida por Bobbio, e, por outro lado, aqui se pretende apenas indicar algumas linhas para completar aquela investigação e também para, eventualmente (e parcialmente), revê-la. Em grande parte pode-se compartilhar, e deve-se considerar como uma indicação a ser acolhida, sua afirmação de que o conceito de “sociedade civil” seja, precisamente, um conceito-chave (na definição de Bobbio, “a parte central do sistema”) a partir do qual se pode empreender uma reconstrução do pensamento político gramsciano [13].

Isto, no entanto, a partir de uma leitura textual que seja consciente da complexidade teórica e terminológica do texto gramsciano no tocante a este problema, dado que, como observou corretamente Nicola Badaloni na sua intervenção durante o encontro de 1975 em Florença, a articulação gramsciana não é dúplice (ou seja, baseada no binômio sociedade civil/sociedade política), mas sim tríplice (sociedade econômica/sociedade civil/sociedade política); analogamente, na análise gramsciana são três os vários momentos, ou níveis, das relações de força (veja-se o § 17 do Caderno 13, no qual este problema é tratado amplamente) (Q 1.578 s.): 1) o momento da relação das forças sociais, “estreitamente ligada à estrutura”, a ser reconstruída “com base no grau de desenvolvimento das forças materiais de produção”; 2) o momento da relação das forças políticas, nos seus vários níveis, desde o mais elementar, estritamente econômico, ao de tipo econômico-corporativo e ao propriamente político-hegemônico; 3) o momento da relação das forças militares (mas que, adverte Gramsci, são sempre também políticas). Ao contrário do que poderia parecer, não se trata de puras e simples sutilezas terminológicas: de fato, podem comportar conseqüências relevantes no plano interpretativo, a ponto de permitir, entre outras coisas, a rediscussão da tese de fundo a que chegava o ensaio de Bobbio — a noção de que a sociedade civil de Gramsci fora retomada antes de Hegel do que de Marx [14].

Observou Badaloni que, com base numa análise que vê como característica do mundo burguês “tornar hegemônica a espontaneidade da esfera econômica sobre a sociedade civil e o Estado”, Gramsci salienta como o pensamento (econômico) burguês (por exemplo, sua variante liberista) apresenta “a hegemonia da sociedade econômica sobre a civil e política” [15]: poder-se-á entender por que Gramsci, no § 18 do Caderno 13, apresenta todas as formas de economicismo (inclusive as teorias sindicalistas) como formas de aceitação implícita desta subordinação de sociedade civil e política à sociedade econômica burguesa (Q 1.589-91). No entanto, Badaloni adverte sobre a tentação de prescindir de um dos três termos, de relacionar a sociedade civil unicamente com a sociedade política. Gramsci reformula a relação entre sociedade econômica, civil e política mediante o conceito de “sociedade regulada”, como aquele que compreende em si todas as três esferas, mas — observa ainda Badaloni — dispostas de modo a reafirmar a centralidade da sociedade civil como “lugar de transmissão dos impulsos hegemônicos”, “lugar de autogoverno e de desenvolvimento da liberdade” (na presença do “salto de qualidade” da esfera econômica, “desde o privado até o coletivo”) [16]. Não é possível aqui ir adiante: basta ter mostrado a complexidade e também a necessidade de uma revisão, baseada numa releitura atenta dos textos, de um dos conceitos-chave do léxico político gramsciano. A este propósito, existem contribuições recentes que estão obviamente à disposição do estudioso que queira enfrentar o problema [17].

Uma última observação a propósito das características do léxico gramsciano, em particular como se apresenta nos Cadernos: deve-se salientar que este léxico é repleto de imagens e rico de metáforas (lembremos ainda a mais conhecida destas metáforas, a do partido político revolucionário como “moderno Príncipe”, por analogia com o Príncipe de Maquiavel). Sobre as dificuldades e, aliás, sobre as verdadeiras aporias que esta imagem gramsciana do “moderno Príncipe” apresenta dirigiram-se, há já muitos anos, as observações críticas de Rodolfo Mondolfo, que do exílio argentino intervinha com autoridade no debate aberto na cultura filosófico-política italiana pela primeira publicação dos escritos gramscianos do cárcere [18]. À parte as observações de mérito, também existe um problema de correta interpretação do que Gramsci pretendia dizer com certas afirmações: observou recentemente Aurelio Lepre que as idéias de Gramsci sobre o partido “às vezes são tornadas obscuras” precisamente pelo uso da expressão metafórica “moderno Príncipe”, que indica, além da obra teórica em que deveriam ser tratadas certas questões, “ora o partido, ora a nova concepção do mundo” [19].

Assim, pode-se indicar como objeto de uma possível investigação o fato de que uma autêntica pletora de imagens e expressões figuradas preencha as páginas dos Cadernos do cárcere. A este respeito não se pretende extrair nenhuma conclusão, a não ser afirmar que a investigação desta típica modalidade da escritura gramsciana dos Cadernos também poderia contribuir para um maior conhecimento deste léxico: a despeito do fato de que Gramsci, em anos já distantes (mas talvez, enquanto escrevia os Cadernos, tivesse se esquecido de ter escrito aquelas linhas), com sua pena mordaz de jornalista político, se lançara contra certas expressões metafóricas do socialista milanês Claudio Treves, que, verificando uma “sutil analogia estratégica” entre “guerra” e “luta de classes”, dera corpo “àqueles vãos fantasmas metafóricos” que são “o exército proletário”, “com seus batalhões”, “suas fortalezas”, seus “campos entrincheirados” [20]. Seria fácil demais localizar nos Cadernos trechos e expressões muito semelhantes (basta lembrar aqui as célebres “guerra manobrada” e “guerra de posições”), em que Gramsci faz valer precisamente aqueles esquematismos que passam através de analogias e metáforas de tipo militar, e não só. Tratava-se, na realidade, de uma batalha de conteúdos, de uma batalha ideológica que também se disfarçava de aspectos formais.

E assim, por outro lado, poder-se-ia observar que as páginas gramscianas do cárcere (não só os Cadernos, mas também seu complemento indispensável, as Cartas) [21] estão igualmente ricamente povoadas de narrativas, em geral brevíssimas, mas muitas vezes de essencial importância para a exposição de um determinado problema tratado por Gramsci. Podemos aqui recordar algumas delas: os 45 cavaleiros húngaros (Q 1.788), os rábulas meridionais (Q 728), Sêneca (Q 2.290), Saladino (Q 1.447). Entre tantas, a mais significativa (e talvez a mais sentida) é a narrativa dos náufragos antropófagos, escolhida para ilustrar o que Gramsci chama de “catástrofes do caráter”: ao mesmo tempo, narrativa e metáfora — a dos náufragos — da transformação total (“catastrófica”, exatamente) de uma personalidade humana (mas, evidentemente, do prisioneiro Gramsci), a qual, por se dar de modo lento e inadvertido, “molecular”, escapa ao controle e, numa certa medida, à compreensão daqueles que, de fora, só vêem seu trágico epílogo [22]. Um episódio altamente emblemático, com o qual Gramsci, enquanto exemplificava um conceito fundamental da sua reflexão [23], tentava afastar de si o temor de um colapso psicológico que lhe subtraísse a força de suportar até o final, com estoicismo, os sofrimentos da prisão.

Notas

[1] Eric Hobsbawm, nas páginas de Rinascita (8 fev. 1987), foi quem observou que, entre os cinco autores italianos da era moderno-contemporânea compreendidos no elenco dos 250 autores mais citados, aparece o nome de Gramsci: quem o lembra é A.A. Santucci, organizador de Gramsci in Europa e in America (Roma-Bari: Laterza, 1995, p. XI).
[2] Sobre as “ambigüidades semânticas” derivadas de escasso rigor lingüístico, mas também sobre as possiblidades de um relativo esclarecimento, vejam-se as minuciosas observações de G. Zarone. Classe politica e ragione scientifica. Nápoles: Ed. Scientifiche Italiane, 1990, p. 224 s.
[3] “A questão da classe política, tal como apresentada nas obras de Gaetano Mosca, tornou-se um puzzle. Não se compreende com clareza o que Mosca entende precisamente por classe política, tanto a noção é elástica e vaga.” A. Gramsci. Quaderni del carcere. Turim: Einaudi, 1975, p. 1.565. [A partir deste momento, esta edição dos Quaderni será indicada por Q. O volume 6 Cadernos do cárcere (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999-2002) traz uma tabela de correspondência entre a colocação dos parágrafos na edição italiana de 1975 e sua colocação na recente edição brasileira.]
[4] Cf. U. Cerroni. Lessico gramsciano. Roma: Riuniti, 1978.
[5] Este trabalho é ainda mais necessário a partir do momento em que dispomos de uma nova edição, em vias de se concluir, daquele corpus de escritos. Cf. A. Gramsci. Scritti 1913-1926. Org. por S. Caprioglio, V. Gerratana e A. Santucci. Turim: Einaudi, 1980. Até hoje, saíram os v. I-V. [Cf. a alentada antologia de escritos pré-carcerários em A. Gramsci.Escritos políticos. 2 v. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.]
[6] Neste artigo, publicado em Il Grido del Popolo de 29 de abril, Gramsci afirmava peremptoriamente que “a Revolução Russa ignorou o jacobinismo”, por ele definido “fenômeno puramente burguês”. Cf. A. Gramsci. La città futura 1917-1918. Org. por S. Caprioglio. Turim: Einaudi, 1982, p. 138 s.
[7] O ensaio de Mathiez (Paris, 1920) foi publicado em tradução italiana por Gramsci em várias partes no L’Ordine Nuovo (24 mar., 4, 8 e 9 ago. 1921).
[8] Por exemplo, a escola histórica de “estudos subalternos” de Calcutá, recordada por Eric J. Hobsbawm na “Introdução” de Gramsci in Europa..., cit., p. IX.
[9] N. Bobbio. “La società civile in Gramsci”. In: Id. Saggi su Gramsci. Milão: Feltrinelli, 1990, p. 38-63.
[10] Esta tese — que consideramos um tanto frágil, se proposta em termos genéricos — foi retomada com argumentos dignos de atenção, e limitadamente aos anos jovens de Gramsci, por D. Losurdo em Antonio Gramsci dal liberalismo al ‘comunismo critico’. Roma: Gamberetti, 1997, cap. 1.
[11] N. Bobbio. “La società civile...”, cit., p. 39.
[12] Sobre estas questões, uma destacada contribuição está no volume de M. Martelli.Gramsci filosofo della politica. Milão: Unicopli, 1996 (cf., em particular, o cap. IV, “Il comunismo e lo Stato”, p. 131-83).
[13] N. Bobbio. “La società civile...”, cit., p. 56.
[14] Ib., p. 50.
[15] Cf. N. Badaloni. “Libertà individuale e uomo collettivo in Gramsci”. In: VV.AA. Politica e storia in Gramsci. Roma: Riuniti, 1977, v. 1, p. 33.
[16] Ib., p. 37-8.
[17] Aqui assinalamos três contribuições recentes: o já citado estudo de Losurdo, a monografia de Michele Martelli acima mencionada e a biografia de A. Lepre. Il prigioniero. Roma-Bari: Laterza, 1998.
[18] Cf. R. Mondolfo. “Intorno a Gramsci e alla filosofia della prassi”. Critica sociale, XLVII, n. 6, 1955; agora em Id. Da Ardigò a Gramsci. Milão: Nuova Accademia, 1962, p. 139-90.
[19] A. Lepre. Il prigioniero, cit., p. 207.
[20] Cf. A. Gramsci. “Analogie e metafore”. Il Grido del Popolo, 15 set. 1917. Agora em Id.La città futura, cit., p. 331-3.
[21] Veja-se a recente edição integral, otimamente organizada por A.A. Santucci (A. Gramsci. Lettere dal carcere 1926-1937. Palermo: Sellerio, 1996). [Em português, há uma edição integral das Cartas do cárcere, em 2 volumes (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005)]
[22] O episódio é narrado de modo mais claro na carta a Tania de 6 de março de 1933 (cf. A. Gramsci. Lettere dal carcere, cit., II, p. 692-3) e, em vez disso, de forma críptica no § 9 do Caderno 15 (Q. 1.762-4).
[23] Sobre esta narrativa e sobre o significado do conceito gramsciano de “transformação molecular”, cf. V. Gerratana. Gramsci. Problemi di metodo. Roma: Riuniti, 1997, cap. VII, “Contro la dissoluzione del soggetto”, p. 127-41.

Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil - http://www.acessa.com/gramsci/?page=visualizar&id=751
Rita Medici é professora da Universidade de Bolonha. Texto publicado originalmente emGramsci. Il linguaggio della politica, volume constituído de contribuições apresentadas em um seminário promovido pelo Instituto Gramsci Emilia-Romagna, em 1998