22/11/10

O futuro do Ocidente e a teoria das Relações Internacionais

Piet Mondrian (Holanda) Composición

Mario Telò

Este ensaio faz parte de Gramsci e il Novecento, obra publicada em 1999 na Itália e não traduzida entre nós. Trata-se da compilação dos anais do seminário de mesmo nome realizado em Cagliari em 1997, por ocasião do sexagésimo aniversário da morte do pensador italiano. Para uma visão global dos ensaios apresentados naquele seminário, recolhidos no livro mencionado e aqui traduzidos, o leitor deve partir da introdução escrita por Renato Zangheri.

Gramsci contribui para a teoria das relações internacionais através da sua reflexão sobre as tendências do capitalismo internacional entre as duas guerras. Sua abordagem desta ordem de questões tem uma dupla origem: por um lado, como ex-dirigente político, encarcerado e isolado, de um movimento vencido, um movimento internacional que nascera de uma análise errada, uma ilusão ideológica que tinha atribuído um significado universal e antecipador de um processo mundial à Revolução de Outubro de 1917.
Por outro lado, e cada vez mais com o passar dos anos [1], ele se põe como intelectual europeu que, afastado da política ativa, enfrenta a modernização do capitalismo mundial, situando-se assim objetivamente na grande trilha do revisionismo que vai do Bernstein-Debatte à intectualidade europeia que, entre as duas guerras, recusa esquivar-se das questões teóricas radicais impostas pela afirmação do novo modelo americano. Seria errado privilegiar uma só destas duas perspectivas, embora sua correspondência dê crédito a uma evolução da primeira para a segunda abordagem.

Deste entrelaçamento de motivações, cada vez mais orientadas a uma pesquisa desinteressada (für ewig), parece-me virem fortes sugestões para reler as muitíssimas notas do cárcere que fazem referência a Americanismo e fordismo mesmo indiretamente, portanto, bem além do Caderno 22. Delineiam-se sugestões para uma trama teórica que atravessa passagens fundamentais de Maquiavel, dos intelectuais, das notas de filosofia política.

Quanto à colocação do presente trabalho no debate contemporâneo sobre o pensamento de Gramsci, considerei particularmente interessantes dois desenvolvimentos novos e amplamente originais da investigação: em primeiro lugar, as investigações de uma nova geração de estudiosos italianos, que, situando Gramsci em relação à constelação das suas referências culturais, reforçam uma tendência no sentido da sobriedade, da competência disciplinar, da exatidão das referências filológicas, e, como consequência, a desideologização do debate em relação ao debate gramsciano dos anos 1960-1980. Em segundo lugar, e sobretudo, gostaria de chamar a atenção sobre o fato novo constituído pela aproximação recente ao pensamento político de Gramsci por parte de uma qualificada corrente de estudiosos anglo-saxões (americanos, canadenses, etc.), especializados em teoria das relações internacionais e em sociologia política [2]. Se estes percursos se aprofundarem e fecundarem, não só alguns passos serão feitos para um novo período de estudos gramscianos caracterizados pela superação do par ideologização-desencanto típico das décadas 1970-1980. O mais importante, à parte a gramsciologia, é que um clássico do pensamento político, reconhecido em nível internacional, agora se torna uma referência original, entre outras, para o avanço das ciências políticas e sociais.

Uma surpreendente continuidade dos anos vinte para os anos trinta

No panorama da intelectualidade europeia entre as duas guerras, Gramsci percorre, em relação às interrogações postas pela América, um caminho original, contra a corrente e, no fundo, solitário. Do Caderno 1 ao Caderno 22, inúmeras e importantes notas confirmam não só que o interesse de Gramsci pela modernização americana e suas implicações permanece constante entre 1929 e 1935, mas também que, enquanto todo o arco dos representantes das principais correntes da cultura e da política europeia que tinham estudado le pays du taylorisme [3] e o tinham traduzido de algum modo nas línguas europeias dos anos vinte, é geralmente transtornado pela crise de 1929 e pelos seus efeitos sociais e políticos na Europa, Gramsci, ao contrário, aprofunda o quadro problemático e a própria trama interpretativa sobre o futuro do capitalismo lançados nas primeiras notas do cárcere. Antes, muitas das perguntas do Caderno 1 sobre o alcance interno e internacional dos novos modos de produção e de vida encontram no Caderno 22 as respostas certas. Trata-se, pois, de uma temática central do ponto de vista teórico: por uma parte, a releitura do Marx dos dois cânones do “Prefácio” da Contribuição para a crítica da economia política entrelaça-se com a reflexão crítica sobre os percursos do marxismo revisionista de Sorel, Bernstein e De Man, e sobre o itinerário de Croce; e, por outra, a ruptura com o marxismo da Terceira Internacional, através das contradições do próprio Bukharin, encontra precisamente no tema do futuro do capitalismo um capítulo decisivo.

De fato, Gramsci veio a amadurecer, na mais completa solidão política, a convicção de que a racionalização americana representava o horizonte de referência para o desenvolvimento histórico da Itália e da Europa e, por consequência, o verdadeiro desafio para a guerra de posição do movimento operário europeu.

Neste ensaio, gostaria de chamar a atenção sobre dois elementos: a singularidade da resistência da sua previsão sobre o futuro do Ocidente — ou melhor, da sua estratégia de conhecimento — em relação à própria literatura europeia de referência dos Cadernos [4]. E, em segundo lugar, as implicações da emergente supremacia americana para as tendências das relações internacionais e, em particular, o novo nexo América-Europa, que já se anuncia como eixo do futuro do Ocidente.

O futuro do Ocidente: percursos de análise divididos na intelectualidade europeia entre as duas guerras

A grande maioria dos intelectuais europeus que, durante o decênio 1919-1929, produziu uma floração abundante de publicações sobre a racionalização produtiva americana, considerada não só como horizonte inelutável de progresso para a Europa, mas também como premissa para uma revisão radical da ideia socialista, foi profundamente abalada pela grande crise deflagrada em Wall Street em 1929 e que, embora em formas diferenciadas, se propagou rapidamente na Europa. Com o desemprego de massa e o advento do nazismo no país economicamente mais moderno da Europa, uma nova cultura da crise suplanta o americanismo, e a equação capitalismo-estagnação-subconsumo-fascismo substitui as previsões evolucionistas e otimistas dos anos vinte.

Gramsci, mesmo preferindo as análises de A. Philip sobre a racionalização e os seus conflitos aos arroubos de A. Siegfried, e mesmo ironizando as conclusões de H. De Man sobre a evolução espiritual e psicológica do socialismo, substancialmente compartilhou os elementos essenciais daquela literatura sociológica, isto é: a) o alcance histórico das mudanças tayloristas e fordistas em curso na produção, nos consumos e nos modos de vida dos EUA; b) o caráter progressista dos novos métodos organizativos e, ao contrário, o sinal “conservador” da resistência do velho tipo de sindicalismo; c) as amplas implicações internacionais do americanismo e seu caráter de algum modo compulsório para a Europa.

A coisa mais interessante é que Gramsci, que se nutre desta cultura da racionalização produtiva dos anos vinte, afirma sua autonomia de juízo em relação ao novo contexto dos anos trinta. Gostaria de chamar a atenção para o fato de que Gramsci não segue em absoluto, entre 1930 e 1935, tais correntes culturais na revisão profunda que elas iniciam seja no terreno da análise do futuro do capitalismo ocidental, seja nas novas orientações estratégicas. Em particular, é inteiramente surpreendente que Gramsci ignore do modo mais total a autêntica guinada que, por exemplo, os dois autores por ele mesmo mais citados na literatura sobre a modernização dos anos vinte, De Man e Philip, imprimiriam à própria visão do futuro do Ocidente e à estratégia socialista em seguida à crise de 1929 e suas consequências sociais e políticas, em primeiro lugar o desemprego de massa e a vitória do nazismo na Alemanha. Como se sabe, os dois intelectuais citados se tornariam nos anos trinta, não só nos respectivos países (Bélgica e França), mas também no plano internacional, os líderes da corrente neorreformista do socialismo planista, uma corrente importante política e teoricamente para os novos conceitos estratégicos elaborados na luta contra a crise e o desemprego, bem como para a ideia de socialismo (“reformas de estrutura”, “economia dirigida” ou “plano do trabalho”, etc.). Como se sabe, seu esforço de conjugação entre social-democracia e intervenção pública programada na economia, entre reformismo e keynesianismo, inspiraria várias décadas de políticas da esquerda europeia, incluindo personalidades eminentes da esquerda italiana, de Riccardo Lombardi a Palmiro Togliatti [5].

É verdade que, diferentemente das suas obras precedentes, nem os escritos principais do De Man planista [6] nem o livro de Philip sobre De Man seriam traduzidos em italiano. Mas importantes ambientes culturais italianos, aos quais Gramsci dedica muitas páginas nosCadernos, desde a Escola de Ciências Corporativas da Universidade de Pisa até Ugo Spirito, etc., consagrariam uma notável atenção aos novos desenvolvimentos das políticas anticrise, e Delio Cantimori traduziria e comentaria em 1934 Le Plan du Travail, de De Man, para o Arquivo de Estudos Corporativos. Além disso, Gramsci está a par das implicações explosivas da crise de 1929, seja na Alemanha, seja na Europa Ocidental. Por que, então, ele não adapta sua interpretação do destino do capitalismo ao novo clima europeu e não evolui no sentido daquela nova cultura econômica que poderíamos definir “neoestagnacionista” e daquela cultura política que oscilava entre o neossocialismo planista e os pródromos do VII Congresso da Internacional Comunista, com o primado do antifascismo e das frentes populares?

Nossa hipótese é que as raízes teóricas de tal solidão ou mesmo “rigidez” de Gramsci são bastante profundas. A primeira razão reside no fato de que Gramsci não pretende conceder nada a um possível relançamento, com os fatos de 1929, da ortodoxia terceiro-internacionalista da “crise geral do capitalismo”, de interpretações estagnacionistas do capitalismo e deterministas do nexo entre crise econômica e atualidade do socialismo. Gramsci não rompera em 1925-1926 só com a vulgata kominternista à E. Varga; ele refutara também a impossível coexistência, tentada pela direção bukhariniana da IC, entre dignas análises empíricas, socioeconômicas, da impetuosa modernização em curso no capitalismo ocidental (especialmente entre o VII Pleno de 1926 e o VI Congresso de 1928, o que explicava o “bukharinismo” dos comunistas italianos) e a manutenção do esquema teórico leninista originário, destacadamente do conceito catastrofista de “crise geral do capitalismo”, jamais verdadeiramente colocado em discussão pelo movimento comunista internacional (nem mesmo no VII Congresso ou na época do Kominform). A explicação da dureza da polêmica das notas do cárcere com o “sociologismo” de Bukharin reside nesta irresolvida subalternidade teórica [7]. A derrota de Bukharin é o símbolo do fracasso do último período de debate e de compromisso na história do Komintern (1926-1927).

Apesar das grandes diferenças do caso, os social-democratas europeus que, com base na crise de 1929 e na ofensiva fascista, operam uma revisão à esquerda, no sentido de uma reatualização do objetivo socialista e dos planos de trabalho, isto é, através de uma programação política do capitalismo, terminam por atribuir aos acontecimentos iniciados com o crack de 1929 um significado periodizante com que Gramsci de modo algum concorda.

A segunda razão está na distância de Gramsci em relação ao próprio termo ad quem da reflexão neossocialista dos anos trinta, isto é, em relação à aposta num novo papel planificador do Estado na economia, através de uma estratégia das reformas ligada, por um lado, ao “nacionalismo econômico” e, por outro, ao dirigismo dos poderes públicos complementado por formas institucionalizadas de concertação social. Gramsci conhece, desde 1933-1934, os primeiros volumes da coleção publicada na Ed. Sansoni pela Universidade de Pisa, de que emergem os muitos fios que ligam as hipóteses e as experiênicas de economia programada surgidas em contextos tão diferentes da Europa democrática e fascista [8]. A dúvida sobre o possível papel do Estado como alavanca da modernização percorre as notas carcerárias de Gramsci, mas nos parece que ele, por fim, tenda a uma acepção crítica, seja porque, diante do impulso histórico para o cosmopolitismo econômico, ele considera “ocasional” o “recuo político nacional da vida estatal”, seja porque lhe é fundamentalmente estranha aquela tematização da relação entre democracia política nacional e governo da economia, que, por pelo menos cinquenta anos, constituiria o horizonte realista do movimento operário europeu (as vias nacionais ao socialismo; a luta para a edificação dos Estados sociais; a ampliação da democracia). Neste nó está não só uma grande diferença entre Gramsci e Togliatti (mesmo o Togliatti das “reformas de estrutura”), mas também a raiz de um estranheza com relação às várias culturas estatistas da esquerda europeia, desde o republicanismo francês às versões dirigistas do welfare social-democrata e às versões neomarxistas da independência nacional em relação à globalização [9].

Mas existe uma terceira razão forte, ligada às anteriores: o juízo sobre o futuro do Ocidente. Apesar da grande crise e do nazismo, Gramsci entre 1929 e 1935 reforça a convicção de que, entre os dois capitalismos — o autoritário e estatista, representado pela Alemanha e Itália, e o liberal-democrata e expansivo, representado pelos Estados Unidos —, é o segundo que representa o futuro do Ocidente. Os dois pontos essenciais de tal superioridade estratégica são: a) a distância epocal entre o capitalismo produtivista e o “capitalismo de rapina”, deflacionista, baseado num “mercado restrito”, no qual “as massas não são pensadas como um mercado. O mercado para a indústria é pensado no exterior” [10]; b) o nexo imanente entre racionalização fordista e Estado liberal. Gramsci considera o período fascista na Europa como transitório? Observou-se corretamente que, nos Cadernos, ele amadurece a ideia de um possível futuro liberal-democrata da própria Itália [11]. Mas, à parte este aspecto, deve-se chamar com vigor a atenção sobre a originalidade da ótica interpretativa de Gramsci no quadro da intelectualidade europeia do tempo. Por exemplo, a propósito do nexo entre capitalismo e fascismo, Gramsci está muito distante do erro de perspectiva cometido por vários e até prestigiosos grupos intelectuais nos anos trinta, entre os quais a célebre Zeitschrift für Sozialforschung da Escola de Frankfurt, que, nos primeiros números, de 1931 a 1933, leva tão longe a crítica ao evolucionismo social-democrata a propósito do nexo entre capitalismo organizado, democracia e socialismo, que chega a uma rígida equação entre capitalismo e autoritarismo [12].

A emergência da hegemonia americana nas relações internacionais

Qual é, segundo Gramsci, a estrutura do mundo que lhe é contemporâneo? Qual interpretação do sistema internacional desenvolvia um pensador que considerava inerte uma teoria política destituída de um quadro de previsão mundial? [13]

Apesar da incerteza de uma fase de transição, caracterizada, de um lado, pela Grande Guerra e pela crise do sistema de equilibrio da pax britannica, e, de outro, por um confronto aberto entre duas “forças históricas maiores do mundo” [14], Antonio Gramsci está convencido de que os anos vinte e trinta configuram passos significativos para uma gradual afirmação da hegemonia dos Estados Unidos da América nas relações econômicas e políticas internacionais. Trata-se, pois, dos pródromos de um mundo bipolar, no qual um dos dois polos afirmava cada vez mais sua hegemonia, e o outro, ao contrário, estava a exaurir sua expansividade “hegemônica” internacional (não mais funcionava o esquema “permanentista” Rússia-Europa, como aventado segundo a analogia clássica do pós-1789, a França como antecâmara e farol da revolução burguesa na Europa) [15].

Ater-se a esta ideia forte do futuro do capitalismo não era de modo algum óbvio nem definido no período caótico em que a libra continuava a ser defendida como moeda de referência para o Gold Standard (pelo menos até o verão de 1931, como símbolo da pax britannica), em que a crise de 1929 abalava antes de mais nada os EUA, principal país da modernização capitalista, mas ainda carente da vontade e da capacidade de primado reveladas com a Segunda Guerra Mundial; em resumo, num período em que o advento da Alemanha nazista fazia temer, na reflexão de várias correntes da intelligentsia europeia, um outro tipo de hierarquia internacional entre os Estados.

Em Gramsci, a centralidade da emergência da potência americana de modo algum é posta em discussão, apesar das gigantescas mudanças que assinalam a passagem da década do desenvolvimento para a década da crise; antes, ela pertence aos dados permanentes, estruturais ou “orgânicos” da análise de perspectiva, ao passo que ao conjuntural e ao transitório parecem pertencer — às vezes surpreendentemente — as contratendências aqui supramencionadas (as nostalgias da ordem liberal do Gold Standard britânico, a crise de 1929, os impulsos nacionalista-protecionistas, entre os quais, in primis, o advento do nazismo).

Dado que as notas sobre a política internacional estão entre aquelas em que o autor dosCadernos mais se empenha num esforço de elaboração für ewig, no sentido de uma contribuição à ciência política das relações internacionais [16], esta leitura do mundo e do futuro do Ocidente é de grande importância cognoscitiva e rica de implicações teóricas. De fato, segundo um postulado comum ao pensamento realista, Gramsci considera que, “assim como num Estado a história é história das classes dirigentes, também no mundo a história é história dos Estados hegemônicos” [17]. Gostaria de chamar a atenção sobre o fato de que daqui parte o estudo do caso italiano e do futuro da Europa. Para Gramsci, uma teoria política deve incluir seja a dimensão interna do Estado, seja as relações internacionais.

O segundo elemento significativo é que os Estados Unidos não se afirmam só como “grande potência”, mas como “Estado hegemônico”. Gramsci aplica o conceito de hegemonia também ao estudo da evolução das relações internacionais.

Certamente, veremos mais adiante como Gramsci retoma alguns traços de duas fortes tradições realistas no estudo do papel das grandes potências nas relações internacionais: a teoria econômica do imperialismo e o próprio conceito de “grande potência”, mas o interessante é como estes pontos de partida tradicionais são elaborados e superados.

A partir das notas sobre o americanismo e o fordismo emerge com clareza que a base da nova hegemonia americana é o novo modo de organizar a produção. A mudança na ordem internacional, pois, tem a mudança produtiva como premissa “lógica” interna [13]. Mas, apesar de estarmos no quadro problemático da tradição dos escritos sobre o imperialismo de Bukharin, Luxemburg e Lenin, nos Cadernos se configura uma claríssima tomada de distância em relação à teoria do imperialismo. Por certo, são evidentes vários traços da análise de Rosa Luxemburg, Bukharin e sobretudo Lenin sobre as dinâmicas econômicas internas que levam aos conflitos internacionais em torno da conquista de oportunidades, mercados e áreas de desenvolvimento externo [19]; mas se trata de observações empíricas evidentes, entre outras coisas amplamente derivadas, por via indireta, da célebre obra de Hobson (Imperialism. A Study, 1905). O termo “imperialismo” aparece duas vezes nos Cadernos, sempre num sentido limitador, a primeira das quais em referência ao colonialismo esfarrapado da Itália da época de Crispi, a segunda ao nacionalismo fascista, isto é, com uma contraposição à América capitalista e à Europa mais avançada, evocando antes uma passagem do ensaio de Schumpeter (e de T. Veblen) [20]. Considerada insuficiente para a análise dos próprios países capitalistas europeus mais modernos, a “teoria leninista do imperialismo” sequer é aplicada ao caso do novo gigante econômico americano. Por quê? Por duas razões principalmente. De fato (como já antecipara Hobson), os altos salários — componente essencial do fordismo — põem em crise radical a premissa subconsumista da teoria econômica ortodoxa do imperialismo; e as implicações internacionais da inovação fordista não configuram uma oposição centro-periferia, mas, antes, um modelo expansivo, uma peremptória pressão para a exportação do novo tipo de capitalismo, o capitalismo do trading State.

Quanto ao conceito de “grande potência”, ele é o ponto de partida para a elaboração da noção de Estado hegemônico. A guerra, isto é, a segurança militar, é critério prioritário para estabelecer se um Estado é grande potência ou não. Além disso, numa interessante nota do Caderno 9 (1932), retomada no Caderno 13 (1932), Gramsci precisa que a linha de um Estado grande potência “não oscila, já que ele mesmo determina a vontade dos outros e não é determinado por esta, já que a linha política baseia-se no que há de permanente, e não de casual e imediato, bem como nos próprios interesses e naqueles das outras forças que concorrem de modo decisivo para formar um sistema e um equilíbrio” [21], incluída a manutenção dos compromissos assumidos em relação aos aliados.

Mas o ponto decisivo não é tanto este. Às noções clássicas evocadas ele acrescenta duas especificações inovadoras: a conquista, por parte do grupo social dirigente de uma grande potência, de uma “função hegemônica” e, pois, de uma “tranquilidade interna” que lhe possam permitir lutas externas. Em segundo lugar, ele se interroga sobre a possibilidade de uma transposição para o plano internacional do conceito de “hegemonia político-intelectual”, mesmo num mundo a tal ponto “unificado na sua estrutura econômico-social”. É claro que Gramsci pensa nos EUA. A resposta fica em aberto, levando em conta a rapidez com que se difunde a inovação e a impossibilidade de conservar seu monopólio. Mas um ponto está estabelecido: já estamos num mundo que vai além do nacionalismo e seu corolário, “o imperialismo” econômico-financeiro. Nos dois casos recordados, Gramsci alude à vasta problemática da hegemonia: no plano empírico, projeta-se uma grande potência de tipo novo (em relação à pax britannica) quanto a capacidades hegemônicas internas e internacionais. Além disso, no plano teórico, abre-se um grande campo de expansão e aprofundamento da própria teoria da hegemonia.

Fiquemos, nesta seção, no plano da análise. Como se articula concretamente tal complexo equilíbrio entre a dimensão da potência e a da hegemonia? O interesse pelos desdobramentos em curso na política internacional dos EUA é duplo: de um lado, é de tipo empírico-descritivo. Desde o primeiro e o segundo caderno, Gramsci observa que “a expansão dos Estados Unidos como grande potência mundial começa no final do século XIX” [22]. Com a grande guerra, os EUA se tornam “árbitros da finança mundial” (sistema complexo do endividamento internacional) e, apesar do fracasso da política de W. Wilson, uma grande potência política reconhecida. Gramsci vê a importância dos problemas que os EUA encontram na expansão da sua influência tanto em todo o continente americano, quanto no Pacífico (Japão e China [23]) e parece deixar em suspenso o juízo de previsão sobre o futuro das relações internacionais.

De outro lado, quando a análise entrelaça o âmbito do modelo produtivo interno com o do papel internacional dos EUA, Gramsci afirma que, com os anos vinte, pode-se falar verdadeiramente de uma nova hegemonia in nuce: ela é tanto econômica quanto cultural, ideológica e institucional. A hegemonia internacional está por vários caminhos ligada à hegemonia interna do fordismo. Ela tem sua origem na produção e opera amplamente no terreno das chamadas “superestruturas”. Portanto, devemos levantar a hipótese de que Gramsci pensa num novo possível poder internacional que saiba suscitar e organizar o consenso dos Estados dominados.

A este respeito, o estudo das perspectivas de uma nova relação entre América e Europa é crucial. Ele configura duas linhas de desenvolvimento: de um lado, uma crescente pressão hegemônica da América, que, “com o peso implacável de sua produção econômica (isto é, indiretamente), obrigará ou está obrigando a Europa a uma transformação radical de sua estrutura econômico-social demasiadamente antiquada”. Não se trata de “uma nova civilização”, mas de uma intensificação — desestruturadora para a velha Europa — do ritmo da modernização e da introdução de “um novo modo de vida”. Aqui estão as raízes da hegemonia. Há, pois, uma continuidade e uma virada em relação aos dois eixos da passada hegemonia britânica: livre-cambismo e Gold Standard. Como no caso precedente, não se trata de um puro domínio militar-político. Mas a hegemonia americana se anuncia como mais difusa e perturbadora, tanto social quanto políticamente.

De outro lado, com efeito, tal hegemonia se poderá expressar através de uma nova estrutura do mercado transatlântico capaz de combinar interdependência e regionalismo: os efeitos conjuntos da política alfandegária americana (estimulada também pela exigência “de dar um substrato econômico organizado à própria hegemonia política sobre as nações que lhe são subordinadas”) e da “exigência das economias nacionais de sair dos quadros nacionais, sem perder o caráter nacional” poderiam, segundo Gramsci, gerar acordos políticos e acordos econômicos inter-regionais capazes de facilitar a regulamentação do intercâmbio.

Antecipando de algum modo os desdobramentos do segundo pós-guerra, Gramsci acrescenta que este quadro poderia permitir até mesmo a afirmação de um europeísmo realista, no sentido de que também poderia “se tornar a etapa intermediária da Pan-Europa de Briand” [24]. O interesse pelo diálogo intenso entre os ministros de Relações Exteriores francês e alemão, naquilo que foi a primeira tentativa política de construir um eixo franco-alemão como chave da integração europeia, é interessante, sobretudo porque os adversários do projeto enfatizavam unicamente seus elementos de fragilidade e o fracasso substancial.
Contribuições à teoria das relações internacionais e problemas abertos

Como mencionamos, as noções gramscianas de hegemonia internacional e de potência hegemônica suscitam reflexões que superam o caso específico e configuram uma abordagem teórica não destituída de originalidade metodológica.

1. Gramsci compartilha algumas importantes ênfases típicas daquela que se tornaria a tradição realista, a propósito da importância das relações internacionais no estudo da política interna, embora, como veremos, ele traga suas especificações de extrema relevância. Por um lado, o estudo das transformações das hierarquias entre os Estados, a referência rigorosa às relações de força internacionais e ao diferente peso das potências em função de critérios clássicos (controle dos recursos e, sobretudo, grau de autonomia estratégica). Estes pontos de referência não devem ser nunca esquecidos quando se discutir o juízo gramsciano sobre os diversos casos nacionais, por exemplo o fascismo italiano. Em suma, a análise do sistema internacional é de algum modo o quadro de referência essencial para o estudo concreto dos casos nacionais.

Mas ele não compartilha os traços a-históricos, a metodologia segmentada e adialética daquilo que seria o percurso do realismo e do neorrealismo no estudo das relações internacionais do século XX. O recurso ao conceito de “revolução passiva” e ao de “hegemonia” não expressa só sua específica atenção à multidimensionalidade da análise das relações internacionais, ao peso de fatores como as relações sociais, a ação dos Estados, a evolução ideológica e cultural, e tudo no quadro da dialética entre mudança e restauração [25]. Em relação à grande corrente dos estudos realistas das relações internacionais (F. Meinecke, L. Dehio, E. Carr, etc.), nisso não questionada pelo neorrealismo (que, depois da Segunda Guerra Mundial, seria sobretudo aprofundado por H. Morgenthau e pela teoria sistêmica de K. Waltz), o historicismo de Gramsci se caracteriza por um aspecto geral: o autor dos Cadernos do cárcere, longe de aceitar a premissa jusnaturalista do realismo pós-hobbesiano, ou a eternização positivista da anarquia internacional, aproxima-se do estudo das relações internacionais com o objetivo de melhor situar e interpretar a análise das relações de força, dos atores, das alternativas em campo, em síntese, o processo complexo e contraditório da mudança histórica; não, banalmente, para reabilitar a tradição e a evolução histórica contra o positivismo, ou para relançar uma visão teleológica e finalista da dialética histórica, mas para dar o justo espaço nas ciências sociais à explicação das transformações estruturais que, na história de longue durée, distinguem uma fase da outra, um paralelogramo de forças socioeconômicas e políticas de outro. Em suma, para Gramsci está em curso uma transformação de sistema internacional, uma superação do sistema de equilíbrios entre Estados, conhecido como “sistema westfaliano”. Acelera-se um processo de unificação do mundo, embora ele não possa ver nitidamente os termos do bipolarismo emergente.

2. Em segundo lugar, em relação à tradição realista, Gramsci complementa a tese do primado das relações internacionais com outros fatores explicativos e caracterizadores de uma nova potência hegemônica; trata-se, sobretudo, de fatores econômico-sociais e ideológicos.

Comecemos pelos primeiros: as “inovações estruturais”, a emergência de um novo modo de organizar a produção e o consumo, mesmo sendo fatores internos do Estado, apresentam implicações internacionais muito relevantes [26]. As mudanças na organização da produção não só vêm logicamente antes, mas criam as premissas para uma política externa hegemônica. A hegemonia não é só um atributo do Estado hegemônico, mas nasce no conjunto das relações sociais, ideológicas, políticas, internas do Estado-nação hegemônico.

Mas esta referência às “relações sociais” não deve ser entendida de modo determinista, nem segundo uma visão marxista ortodoxa nem como antecipação de visões neomarxistas [27]. Gramsci propõe uma leitura antideterminista dos processos estruturais. Ele vê a intensa interação entre política e economia [28], ou, antes, o peso específico do momento político e político-militar das relações de força. Portanto, a dimensão político-estatal nunca é explicada com o determinismo econômico-social, ainda que, certamente, ela não seja exaustiva, como nos realistas, não seja, em suma, o principal fator determinante nem internamente nem no sentido do espaço internacional.

3. As notas de política internacional de Gramsci dificilmente podem ser assimiladas a uma série de sugestões de reflexão amadurecidas no âmbito da cultura neomarxista. Já assinalamos a distância entre o Gramsci dos Cadernos e a teoria marxista e leninista do imperialismo. Acrescentemos que também os desenvolvimentos conhecidos como “teoria da dependência”, que suscitou nas últimas décadas um interessante debate na Europa e na América Latina, às vezes com um parentesco com a teoria sistêmica de Wallerstein, estão muito distantes do percurso analítico e conceitual de Gramsci: por certo, ele vê as esferas de influência de tipo vertical que se delineiam também no século XX, as hierarquias de poder econômico que, segundo o eixo Norte-Sul, produzem conflitos sociais e contradições dramáticas. Mas a potência central que assume no período mais longo o primado sobre a periferia dependente não pode se limitar, segundo Gramsci, a um puro papel de brutal domínio, direto e unilateral, sobre os povos subalternos. Ele vê, em suma, uma rede de relações de hegemonia, complexas e articuladas nos vários planos, inclusive aqueles culturais, institucionais, inerentes aos modos de vida. Esta é a sua via de reflexão até mesmo quanto ao aumento da influência dos Estados Unidos na América Latina [29]. Os próprios intelectuais desempenham e podem desempenhar tanto o papel de difusão da hegemonia dominante quanto o do seu questionamento.

Merece uma análise à parte o percurso interpretativo do politólogo canadense Robert Cox, que elaborou, também com base numa releitura dos Cadernos, nos anos oitenta, uma teoria das relações internacionais que desemboca na tese sobre a construção de um “sistema imperial” em torno dos EUA. Trata-se de uma significativa reflexão sobre a evolução da pax americana, entendida não como hegemonia de um Estado, mas como uma totalidade coerente e mais estruturada do que em outros casos do passado, um conjunto de poderes estatais, empresas multinacionais, instituições da regulação voltados para instituir e manter um sistema hegemônico mundial. Superam-se, assim, os limites da abordagem realista e também as abordagens ortodoxas e neomarxistas citadas.

Mas, não obstante seu interesse, esta interpretação parece simultaneamente em desacordo com a referência gramsciana (no entanto, evocada) e por demais totalizante. De fato, para o bem e para o mal, Gramsci permanece ancorado na ideia de que o ator internacional principal é o Estado hegemônico, e não um sistema econômico-político internacionalizado e transnacionalizado. Ele não se expõe à crítica de subestimação do momento político e também político-militar das relações de força. Mais do que num sistema imperial, Gramsci, portanto, pensa numa potência dominante e hegemônica, ainda que de tipo novo. A análise é obviamente mais limitada do que na pesquisa da politologia moderna; no entanto, é interessante, atenta às concretas relações de força e às contradições internas. De resto, o alheamento europeu em relação às teorias sistêmicas americanas era óbvio nos anos trinta, dado que a teoria dos sistemas só se desenvolve depois da Segunda Guerra Mundial e só nos anos cinquenta seria aplicada às relações internacionais (o famoso livro de M. Kaplan, System and Process, é de 1957) [30]. Gramsci vê apenas a alvorada da potência americana. O ponto é que o estudo das relações de força inclui, para Gramsci, múltiplas dimensões interestatais, certamente também entre poderes privados, mas os Estados e os conglomerados de identidades regionais em formação são para ele particularmente importantes, em particular se se toma em conta a evolução das relações Europa-America e os potenciais conflitos Norte-Norte [31]. Em geral, como de resto assinalou o próprio Cox por oposição ao sistemismo de Wallerstein, Gramsci está atento à mudança histórica e às potenciais fissuras da pretensa solidez estrutural-funcional do sistema, às suas contradições dialéticas, em suma à sua dinâmica interna [32].

Em segundo lugar, é o caráter unidimensional do sistema imperial e sua ligação demasiadamente rígida com a global political economy que não convencem plenamente e não parecem encontrar suficientes referências em Gramsci. Certamente, Cox não fala sic et simpliciter de unidimensional hegemonia americana. Antes, a “internacionalização do Estado”, ou aquilo que Gill chama de “desestruturação da autoridade política” e das soberanias territoriais, envolveriam também os Estados Unidos. Mas o sistema imperial lhe parece estruturado segundo um grande e coerente projeto, que compreende seja a internacionalização econômica e das relações sociais, seja partes de Estados e instituições internacionais. Na trilha de Cox, Gill, depois de ter chamado a atenção nos anos oitenta sobre a centralidade da Comissão Trilateral (EUA-Europa Ocidental-Japão), escreve em 1997 sobre a existência de um G-7 nexus [33], uma espécie de governo imperial mundial baseado no G-7.

Para ser claro, Cox nos fornece uma descrição analiticamente correta das condições novíssimas em que, depois de 1945 e nos últimos 50 anos, os Estados Unidos afirmaram seu projeto neo-hegemônico: de resto, o alto nível de institucionalização do novo sistema, caracterizado por várias instâncias de cogestão intergovernamental, de negociação suficientemente elástica e flexível, tinha sido notado também por vários expoentes da teoria das relações internacionais [34]. Precisa (e gramscianamente fundamentada) nos parece, a propósito da hegemonia americana, também a análise da contradição entre um corporativismo nacionalista e protecionista europeu e um novo “corporativismo” aberto à internacionalização da economia e à vitória gradual desta última [35]. Mas mesmo esta interessante parte se presta a múltiplas reservas seja de conteúdo, seja sobre sua matriz gramsciana. Antes de tudo e em geral, a rígida contraposição entre um compacto sistema imperial hegemônico e uma possível “contra-hegemonia”, social, a partir de baixo, transnacional, não só tinha e tem apenas bases utópicas (de resto, honestamente reconhecidas na autoapresentação de uma “teoria crítica”, contra uma teoria “voltada para a resolução de problemas” [36]), mas contradiz a inspiração gramsciana de muitas observações perspicazes, em nome de uma perspectiva de filiação soreliana (por outro lado, também esta honesta e veladamente reconhecida pelo autor [37]). As investigações de R.W. Cox [38] e de S. Gill também merecem atenção no tocante às implicações do choque entre hegemonias no terreno das instituições internacionais. Se, para Gramsci, a dimensão institucional é o meio de estabilização de ideias e de forças socioeconômicas, ou seja, se ela é diretamente inerente à problemática da hegemonia, não se compreende por que a luta entre hegemonias diversas e opostas não deva também envolver os Estados e as organizações internacionais. Gramsci não fala disso, mas por analogia com suas reflexões sobre as instituições nacionais podemos deduzir que as agregações macrorregionais (como hoje a União Europeia ou as outras organizações regionais in fierino mundo) não possam ser consideradas, como na investigação de Gill, nada além de formas complementares da globalização dos mercados ou do sistema imperial descrito por Cox. De modo destacado, em Gill, a oposição entre o que ele define como hegemonia “constitucionalizante” do novo capitalismo global (destrutivo de soberanias políticas tradicionais) e a hegemonia enraizada na “autodefesa da sociedade civil” não percorre os vários níveis de reestruturação da autoridade política [39]. De novo, aqui se negligencia a distância que vai de Gramsci para Sorel. Apesar da riqueza de argumentos analíticos e a referência frequente ao método dialético, Gill e Cox negligenciam assim o nexo profundo entre os níveis da sociedade civil e das instituições políticas em Gramsci, sua atenção às dinâmicas internas nos vários planos institucionais da regulação, tanto nacional quanto supranacional. A “guerra de posição” e a “hegemonia” de um novo “bloco histórico” se desenvolvem na teoria política de Gramsci (no caso em que estejam dadas as condições históricas) no contexto dos processos de “revolução passiva”, e não como alternativa global.

Quanto aos aspectos analíticos, as potenciais contradições entre europeísmo e sistema imperial são substancialmente ignoradas seja no ensaio de Cox de 1981-1985, seja no livro de Gill de 1995, e, no plano histórico (e isso independentemente da disputa sobre Gramsci, que, aliás, compartilha esta subestimação), a análise das alternativas social-democratas europeias durante os decênios da construção dos Estados sociais nacionais é radicalmente subestimada [40].

Por fim, quanto às perspectivas, a fase pós-bipolar atualmente em curso leva muitos estudiosos a se interrogarem sobre o fato de que tudo quanto por longo tempo parecera rígida e univocamente subordinado a um coerente projeto imperial e antissoviético (Plano Marshall, keynesianismo internacional, ordem monetária de Bretton Woods, Otan, integração europeia, G-7, etc.) está se revelando bem mais complexo e, muitas vezes, terreno de contradições relevantes, in primis aquela entre regionalização e globalização [41]. Vale a pena voltar mais adiante sobre este aspecto.

Concluindo este ponto, parece-me que nos Cadernos de Gramsci haja algo mais do que a perspectiva utópica e radical em que terminam por confiná-lo os autores citados, por outro lado surpreendentemente, na medida em que eles mesmos terminam assim por prejudicar suas próprias e estimulantes análises, seja sobre a projeção internacional, seja sobre a atualidade dos Cadernos.

4. Particular atenção suscitou em tempos relativamente recentes, na literatura internacional, a aplicação da teoria da “hegemonia” às relações internacionais. Na realidade, nem sempre a terminologia análoga implica o mesmo conceito. O grande politólogo internacionalista R.O. Keohane, que aplicou de modo útil nos anos oitenta o conceito de hegemonia às oscilações da pax americana, queria sublinhar, no rastro do historiador Ch. Kindleberger [42] e de outros, que a formidável interdependência (econômica, tecnológica, etc.) internacional realizada depois da Segunda Guerra Mundial, bem como o “regime internacional” assim criado necessitavam de, e ainda requerem, uma potência que assegure o funcionamento do conjunto e a ordem graças ao seu primado e à sua supremacia [43]. Todavia, como bem observou também R. Cox, Gramsci faz referência a uma

[...] estrutura de domínio sustentada por uma ampla base de consenso através da aceitação de uma ideologia ou de instituições coerentes com tal estrutura. Assim, uma estrutura hegemônica da ordem mundial é de tal ordem que o poder nela assume essencialmente uma forma consensual, distinta de uma ordem não hegemônica, em que existem manifestamente potências rivais e nenhuma potência é capaz de estabilizar a legitimidade do próprio domínio. Pode haver domínio sem hegemonia; a hegemonia é uma das formas que o domínio pode assumir [44].

Pode-se também aplicar à ordem internacional a ideia de que a hegemonia implica concessões às demandas dos Estados dominados por parte do Estado dominante. Destaquemos, por exemplo, que o bloco histórico produtivista na base do sucesso do fordismo nos Estados Unidos podia ser transferido para o plano internacional, em nome do interesse comum de hegemônicos e subordinados, por causa da expansão da demanda de consumo.

Cox acrescenta a esta precisa observação sua convicção de que, para Gramsci, “é questão aberta se o poder dominante é um Estado ou um grupo de Estados, ou uma combinação qualquer de Estado e poder privado”. Já expressamos nossas reservas neste aspecto. De fato, não há dúvida de que a emergência concreta da potência EUA é a referência empírica principal e de que o autor das Notas sobre Maquiavel tem presente um modelo explicativo em que o Estado hegemônico constitui o ponto de síntese decisório.

Só assim enriquecido e lastreado é que o conceito de “hegemonia global” não só compreende várias dimensões, mas também é capaz de contribuir para superar uma dupla insuficiência analítica: por um lado, da “teoria da interdependência”, que capta a desestruturação da soberania e da autoridade política no mundo em fase de globalização, mas perde a análise das hierarquias e dos conflitos de poder, das mudanças estruturais induzidas no interior dos Estados subalternos por parte do Estado hegemônico; e, por outro, do neorrealismo, que ignora o desgaste e a maior complexidade do papel central dos Estados por causa de fatores seja internos, seja internacionais [45].

Em Gramsci, o Estado hegemônico é aquele que, em outra linguagem, definiríamos hoje, ao mesmo tempo, tanto como grande potência quanto como líder político e cultural: por um lado, ele dispõe da mais ampla autonomia no campo da política externa e, por outro, “dirige um sistema de alianças e de entendimentos, de maior ou menor extensão” [46]. Tal como no terreno interno a classe hegemônica, no plano internacional o Estado hegemônico cumpre a própria função quer com a força, quer com o consenso. Esta combinação pode explicar a durabilidade e a estabilidade da hegemonia internacional, como seria demonstrado, mais do que pelo caso tradicional da Grã-Bretanha, exatamente pelos Estados Unidos. Os aspectos ideológicos, culturais, sociopolíticos da hegemonia são essenciais, diferentemente daquilo que sempre sustentou a abordagem realista das hierarquias internacionais. Os Estados Unidos expressam ao máximo a variedade do arsenal de formas de potencial influência hegemônica sobre a Europa e o mundo; e, antes, nos anos trinta, a supremacia tecnológico-militar, nos termos clássicos da segurança, não se manifestara de modo algum. O próprio fordismo não se tornaria forma e canal do modelo americano na ausência do americanismo, isto é, da revolução das mentalidades e dos modos vida tradicionais europeus e das alterações da composição demográfica.

Obviamente, Gramsci não entendeu o alcance da transição política e ideológica realizada pela longa presidência de F.D. Roosevelt. Mas ele captou um aspecto crucial: o capitalismo racionalizado e de altos salários (fordismo) não é, no fundo, o núcleo do que sucessivamente se traduziria nos princípios do New Deal e, através deste, no que se transformaria em eixos da nova ordem internacional pós-bélica? Diferentemente do que muitas vezes se escreve [47], o fordismo não está limitado a uma forma nacional de regulação, mas é inteiramente compatível com o alto grau de internacionalização da economia e do mercado transatlântico das décadas do segundo pós-guerra.

Os silêncios de Gramsci sugerem também uma contraprova. A Alemanha ditatorial de Hitler é claramente considerada como internacionalmente incapaz de expansão como potência “hegemônica”. Jamais se chamou suficientemente a atenção para o fato de que Gramsci (mesmo nas notas escritas entre os anos de 1933 e 1936!) exclua possa ser o papel de Estado dominante e hegemônico desempenhado pela Alemanha hitleriana. A peremptoriedade com que não leva sequer em consideração tal variante entre as alternativas do futuro do capitalismo é impressionante, se tomarmos em conta o peso e a influência da Alemanha na Itália e na Europa desde os tempos da liderança da social-democracia alemã sobre o movimento operário internacional.

Em síntese, Gramsci situa a hegemonia da nova potência americana no centro da “revolução passiva” que se delineia em nível social, estatal e internacional. Sua convicção sobre o alcance histórico e estrutural de tal mudança histórica, sobre esta nova configuração da “hegemonia”, é de tal ordem que ele considera como transitórios os primeiros sinais dos fenômenos políticos cruciais da década que se segue à redação do Caderno 22.

5. O papel dos Estados nacionais no quadro de previsão caracterizado pela decrescente “autonomia das economias nacionais em relação às relações econômicas do mercado mundial” é questão que atravessa várias notas dos Cadernos. Minha hipótese é que nos encontramos diante de um nó que permanece em ampla medida problemático, porque o espaço amplo deixado à análise diferenciada (a crise das soberanias políticas nacionais não é unívoca nem homogênea no mundo, a começar pela distinção entre Estado hegemônico e Estados subalternos, e continuando com o diverso peso dos legados históricos) ainda não permite uma teoria acabada da recomposição política. De todo modo, é interessante que Gramsci ofereça uma contribuição para delinear um campo de problemas institucionais central no século XX ou, antes, um emaranhado de questões ainda em aberto: a crise do Estado nacional na economia internacionalizada produz quais novos deslocamentos da autoridade e do poder regulador? Uma transferência para outros Estados (a superpotência hegemônica), para organizações macrorregionais, ou uma fragmentação da autoridade reguladora numa multidão de centros privados nacionais e internacionais, ou ainda reações tardias no sentido de um relançamento da soberania dos Estados nacionais?

Notas essenciais dos Cadernos fazem pensar que Gramsci ainda deixe aberta a possibilidade de uma noção forte de Estado ampliado, como forma possível e em alguns casos necessária da modernização europeia: entre os muitíssimos exemplos, “a concepção do Estado segundo a produtividade das classes sociais” [48], a referência à “tarefa educativa e formativa do Estado”, algumas das reflexões sobre a relação entre corporativismo e racionalização na Itália, etc. [49]. Mas esta hipótese se enfraquece cada vez mais com o passar dos anos.

Por outro lado, quase todo o arco das reflexões sobre o americanismo e sobre as tendências para a unidade “cosmopolita” da economia mundial faz ressaltar o declínio geral do Estado nacional, seja como referência analítica, seja como conceito estratégico [50]. Embora possa ser relevante para o caso italiano, a problemática do Estado ampliado, intervencionista e tendencialmente protecionista não tem, em suma, um papel estratégico na teoria política de Gramsci. E o quadro de previsão e de longo prazo em que ele se inscreve é estranho ao estatismo dos anos trinta (para muitos países, dos cinquenta anos entre 1930-1970), e não só na versão nacional-protecionista, mas até mesmo na versão republicana francesa ou na social-democrata e trabalhista. E é bastante duvidoso que considere como realistas perspectivas diferentes do Estado liberal, como forma mais idônea para o tipo de modernização e de internacionalização econômico-política que se delineia, ainda que de modo incerto, no Ocidente e na própria Itália [51]. Todavia, a questão que permanece aberta é a seguinte: a dimensão cada vez mais cosmopolita da economia vai produzir uma nova concentração do poder de decisão político internacional e novos conflitos com referência à nova potência hegemônica, e, no entanto, Gramsci mantém uma margem de grande incerteza sobre as formas político-institucionais e os níveis da regulação e da autoridade no quadro da nova economia cosmopolita [52]. Em outras palavras: qual é a margem de sobrevivência da autoridade dos Estados?

Em conclusão, dois elementos emergem com nitidez: a) no auge do século que Eric Hobsbawm chamou de The Age of Extremes [53], devemos sublinhar vigorosamente a importância do fato de que Gramsci se esquive da radicalização-simplificação das clivagens intelectuais dos anos trinta (e depois) segundo o par comunismo-fascismo ou fascismo-antifascismo, e antecipe, ao contrário, sob alguns aspectos não secundários, um quadro de previsão sobre o futuro do capitalismo que se explicitaria plenamente no segundo pós-guerra com a pluridecenal e inédita hegemonia americana. Por certo, ele não vê nem o alcance trágico do nazismo nem a corrida para a Segunda Guerra Mundial, ignora tanto os pródromos de Auschwitz quanto as piores aberrações do stalinismo; mas, paradoxalmente, do cárcere de Turi, examina lucidamente alguns essenciais traços “estruturais” do século XX, o século americano, sem se deixar confundir pela terrível conjuntura da década de trinta, como, ao contrário, outros respeitadíssimos observadores seus contemporâneos; b)ainda que seu interesse pelas relações internacionais não seja especialista, Gramsci parte da questão geral da interpretação da fase histórica da “revolução passiva” e chega a elaborar, ou pelo menos a sugerir, uma estratégia de investigação sobre o século americano centrada numa aplicação à ordem mundial do conceito de “hegemonia”, uma estratégia de investigação que, embora se entrelace com importantes avanços sucessivos das grandes escolas da teoria das relações internacionais, apresenta apesar disso uma estimulante fecundidade cognoscitiva.

Notas

[1] Esta tendência se reforçou com o isolamento crescente em relação ao Partido Comunista Italiano. Os passos deste processo de gradual e autêntica ruptura são bem ilustrados, mesmo na sua dimensão psicológica, pela correspondência entre A. Gramsci e T. Schucht, em Lettere 1926-1935. Org. A. Natoli e C. Daniele. Turim: Einaudi, 1977.
[2] Refiro-me em particular aos notáveis trabalhos, respectivamente focalizados sobre os conceitos de hegemonia internacional e de sociedade civil, por um lado, de S. Gill e R.W. Cox, e, por outro, de J. Cohen e de A. Showstack Sassoon. Agradeço a R. Cox as observações que gentilmente fez à primeira versão deste artigo.
[3] É o título, aliás, de um dos primeiros livros publicados no pós-guerra, o relatório da viagem de estudo do líder socialista belga, intelectual de destaque internacional, H. De Man (Au pays du taylorisme. Bruxelas, 1919).
[4] Entre os livros mais estudados por Gramsci estavam os escritos de André Siegfried (Les Etats Unis d’aujourd’hui. Paris: A. Colin, 1927), André Tardieu (Devant l’obstacle: l’Amérique et nous, 1927), Lucien Romier (Qui sera le maître? Europe ou Amérique?. Paris: Hachette, 1927) e, sobretudo, André Phillip (Le problème ouvrier aux Etats Unis. Paris: Librairie F. Alcan, 1927), Henri De Man (Au délà du marxisme. Paris: Librairie F. Alcan, 1929, traduzido em 1929, e La joye au travail, traduzido em 1930, ambos editados pela Laterza).
[5] Sobre este período do socialismo europeu, seja-me permitido remeter a M. Telò. Le New Deal européen. Bruxelas: Éditions de l’Universitè de Bruxelles, 1989. P. Togliatti encontrou P.H. Spaack, estreito colaborador de De Man, em 1934, no auge da fase de luta pelo Plan du Travail, e sobre isso escreveu a Manuilski. Sobre a filiação do conceito togliattiano de “reformas de estrutura” e o apoio oferecido ao Plano de Trabalho por Di Vittorio, remeto ao meu estudo La socialdemocrazia europea nella crisi degli anni Trenta. Milão: Angeli, 1984. Não concordo com a tese de A. Salsano, que, também no seu ensaio incluído na coletânea de estudos críticos sobre Gramsci editada por F. Sbarberi (Turim, 1988), enfatiza a continuidade do socialismo tecnocrata de De Man entre os anos vinte e trinta, ignorando o alcance da guinada dos anos do planismo, assinaladamente entre 130 e 1936, seja na análise do capitalismo, seja na teoria do socialismo.
[6] De De Man, “Der Neuentdeckte Marx” (Der Kampf, 1932), L’Idée socialiste (Bruxelas, 1934), L’économie dirigée, de 1934, e, de Philip, H. De Man et la crise doctrinale du socialisme(Paris: Librairie Universitaire & J. Gamber, 1928), e me permito remeter ao capítulo respectivo compreendido no meu volume citado na nota precedente.
[7] Coerentemente com a crítica do leninismo começada a partir de 1923-1924 e numa direção diametralmente oposta à evolução do comunismo internacional, a partir do declínio da direção bukhariniana, Gramsci amadurece conceitos substitutivos, antes de tudo “revolução passiva” e “guerra de posição”. Cf. M. Telò. “La concezione del socialismo in Bucharin”. In: E. Hobsbawm (Org.). Storia del marxismo. Turim, Einaudi, 1981, v. III, 1.
[8] Trata-se de La crisi del capitalismo, com escritos de Pirou, Sombart, Durbin, Patterson;L’economia programmatica, com escritos de Landauer, Hobson, Lorwin, Spirito, Brocard; e de Capitalismo e corporativismo, de Spirito.
[9] Além de Samir Amin (La déconnection. Paris, 1987), refiro-me, mais em geral, às tendências presentes no neomarxismo anglossaxão, que opõem globalização e liberdade política em chave de relançamento da autonomia nacional. Diversa a perspectiva transnacional de “contra-hegemonia”, como forma de recomposição de um bloco histórico dos oprimidos da terra, seja da periferia, seja do centro “periferizado” (cf. o trabalho de Gill (Ed.). Gramsci, Historical Materialism, International Relations. Cambride: Cambridge University Press, 1993, e o paper apresentado no seminário de Cagliari de 1997, perspectiva à qual voltaremos mais adiante.
[10] A. Gramsci. Quaderni del carcere. Org. V. Gerratana. Turim: Einaudi, 1975 (daqui por diante Q), p. 799. Cf., também, a precisa referência de F. De Felice ao debate entre Agnelli e Einaudi na Riforma sociale de 1933, em apoio à tese de que a crítica de Gramsci ao capitalismo deflacionista também envolve o liberismo econômico, acompanhado pela ideia de que o salário, o consumo interno não podem ser motor da recuperação econômica (“Introdução” e notas a A. Gramsci. Quaderno 22. Americanismo e fordismo. Turim; Einaudi, 1978). No juízo de Gramsci, também pesou a derrota de Bottai e da corrente corporativista mais inovadora do fascismo italiano.
[11] L. Paggi (Sotto le bandiere del comunismo, 1980) evoca o amadurecimento ocorrido em relação à crise Matteotti de 1924. Sobre a relação entre modernização americana e liberal-democracia: “A forma jurídica possível é uma das condições, não a única condição nem mesmo a mais importante: é apenas a mais importante das condições imediatas. A americanização exige um determinado ambiente, uma determinada estrutura social (ou a decidida vontade de criá-la) e um determinado tipo de Estado. O Estado é o Estado liberal, não no sentido do livre-cambismo ou da efetiva liberdade política, mas no sentido mais fundamental da livre iniciativa e do individualismo econômico que chega com meios próprios, como ‘sociedade civil’, através do próprio desenvolvimento histórico, ao regime da concentração industrial e do monopólio” (Q, p. 125 e 2.157).
[12] Tal abordagem sobre a questão do futuro do capitalismo, começada por Horkheimer, Pollock e outros, afetaria as análises da Escola de Frankfurt e de outros grupos intelectuais sobre o “capitalismo tardio” americano muito além dos anos trinta. Pensemos nos escritos de Marcuse e Adorno dos anos sessenta.
[13] No caso, tratava-se de substituir a falimentar previsão elaborada por Lenin entre 1916 e 1919, isto é, entre O imperialismo e a fundação do Komintern com base na “teoria da crise geral do capitalismo”.
[14] Este vago aceno ao emergente bipolarismo está em Q, p. 72 e 2.147: “forças históricas que disputam o mundo”. Tal concepção de uma dialética mundial entre as duas tendências principais está ligada seja à releitura dos dois cânones interpretativos derivados do prefácio de Marx para a Crítica da economia política, seja ao conceito de “revolução passiva”.
[15] A este propósito, veja-se, neste volume, o texto de F. Benvenuti e S. Pons, “L’Unione Sovietica nei Quaderni del carcere”.
[16] Como também destacaram nas suas contribuições Cox e Gill, no presente volume. Cf., respectivamente, “Il pensiero di Gramsci e la questione della società civile alla fine del XX secolo” e “Gramsci, modernità e globalizzazione”.
[17] Q, p. 1.758-9.
[18] Q, p. 1.562.
[19] De fato, já na nota “Sobre a origem das guerras”, na p. 1.631, acrescenta uma referência sociológica original à “teoria das proporções definidas”.
[20] Q, p. 2.018-9 (45-6). O imperialismo seria, nesta acepção schumpeteriana (Sociologia dell’imperialismo. Bari: Laterza, 1974), mais o fruto dos resíduos pré-capitalistas, nacional-militaristas e predatórios, isto é, da falta de modernização capitalista.
[21] Q, p. 1.629.
[22] Q, p. 166-8, reconstrução do background histórico da ascensão dos EUA com base no artigo de F. Tommasini de 1º. de maio de 1927 na Nuova Antologia (“Politica mondiale e politica europea”).
[23] E expressa a avaliação que seria aprofundada, entre outros, por Fernand Braudel sobre o deslocamento do centro do mundo para o Pacífico, em detrimento do Atlântico (Q, p. 242).
[24] Q, p. 266-7. Gramsci refere-se ao famoso “Memorandum” apresentado pelo ministro francês das Relações Exteriores, Aristide Briand, em 1929, à Sociedade das Nações em Genebra, para a criação de uma “federação europeia”. Comentário sobre La Nuova Antologia, 16 ago. 1929, artigo de L. Luciolli, “La politica doganale degli Stati Uniti”. Entre as hipóteses, só acenadas mas não sem relevo, ele cita numa outra passagem a possibilidade de que as dificuldades (no campo das matérias-primas) entre França e Alemanha fossem resolvidas em benefício da França, que forçaria sob certas condições (quais? Não podia imaginar) a Alemanha a entrar no sistema, mas sob a hegemonia francesa (Q, p. 268). Em todo caso, ao contrário do movimento comunista e de outros comentaristas contemporâneos, o interesse de Gramsci não se concentra no fracasso da tentativa europeia, mas, ao contrário, na sua relevância. Sua atenção se focaliza nos governos de França e Alemanha, não só na economia ou nos movimentos europeístas.
[25] Corretamente, R. Cox lembrou as analogias entre o método de Gramsci, por um lado, e grandes historiadores do nosso século, de F. Braudel até E. Carr e E. Hobsbawm. Cf. R. Cox. “Social Forces, States and World Orders”. In: R. O. Keohane (Ed.). Neo-Realism and Its Critics. Nova York: Columbia University Press, 1986 (o artigo de Cox é de 1981, publicado em Millennium – Journal of International Studies, mas foi republicado com o acréscimo de um interessante post scriptum de 1985), p. 202-6. De Cox veja-se também o ensaio de 1983, “Gramsci, Hegemony and International Relations”. Millennium, n. 12.
[26] Este ponto de vista seria considerado “reducionista”, na ótica, por exemplo, de um clássico como K. Waltz, Teoria della politica internazionale (Bolonha: Il Mulino, 1987; 1ª. ed. 1979). Veja-se, também, a contribuição de K. Waltz, “Reductionist and Systemic Theories”. In: Keohane (Ed.). Neo-Realism and Its Critics, cit., p. 47-70.
[27] Por exemplo, a de I. Wallerstein, na sua sugestiva teoria sobre o sistema econômico global e a oposição centro-periferia (e semiperiferia), subestima radicalmente a dimensão dos conflitos político-institucionais e a importância das relações de força entre os Estados, inclusive os Estados do centro, isto é, do núcleo euro-americano do mundo (The Modern World System. Nova York, 1974-1980).
[28] Q, p. 1.562.
[29] Q, p. 290.
[30] Veja-se o post scriptum de Cox ao ensaio citado incluído em Keohane (Ed.). Neo-Realism and Its Critics, cit., p. 240-3. No sentido de uma reproblematização da teoria da dependência insere-se também o interessante debate de 1993-1995 entre Theotonio dos Santos e Fernando Henrique Cardoso a propósito dos espaços para a política brasileira e latino-americana.
[31] Cf., também, a nota 23.
[32] Cf. Cox, “Social Forces”, ensaio incluído em Keohane (Ed.). Neo-Realism and Its Critics, cit., p. 206.
[33] Cf. S. Gill. American Hegemony and the Trilateral Commission. Cambridge: Cambridge U.P., 1990; veja-se, também, a contribuição de Gill neste livro.
[34] Além da literatura citada por Cox, veja-se, por exemplo, a contraposição por parte de Morton Kaplan do conceito de “bipolarismo flexível” ao conceito de “bipolarismo rígido”, emSystem and Process in International Politics. Londres-Nova York: J. Niley, 1957.
[35] Sobre o último passo deste processo de globalização, cf. o volume editado por Gill,Gramsci, Historical Materialism, cit.
[36] Sobre esta distinção, cf. Cox, “Social Forces”. In: Keohane (Ed.). Neo-Realism and Its Critics, cit., p. 207-11.
[37] Cox. “Social Classes”, cit., p. 241.
[38] Ib., p. 210-20.
[39] Gill (Ed.). Gramsci, Historical Materialism, cit., p. 3 e 10-1.
[40] Na vastíssima literatura sobre este tema, limitamo-nos a citar: P.W. Scharpf.Sozialdemokratische Krisenpolitik. Frankfurt-Nova York: Campus, 1985; Paggi (Org.).Americanismo e riformismo. Turim: Einaudi, 1989; M. Telò. Le New Deal Européen. Bruxelas: Editions de l’Université de Bruxelles, 1988; e Bruylant (Ed.). De La nation à l’Europe(Bruxelas, 1993). No amplo debate histórico sobre esta temática, não é absolutamente possível assimilar o ponto de vista de Gramsci ao grande tema keynesiano da national selsufficiency (é o título do célebre artigo de 1933 na Yale Review, n. 4), popular por décadas na esquerda europeia; ao contrário, mais complexa a questão da sua correspondência ou não com aquela espécie de neomercantilismo regional europeu, que foi formulado por tantas correntes de pensamento, entre as quais pelo notável Karl Polanyi (“Universal Capitalism or Regional Planning”. The London Quarterly of World Affairs, jan. 1945).
[41] Tal complexidade multipolar do mundo do pós-Guerra Fria, até o período de systemic chaos evocado por G. Arrighi, em analogia com as crises “dos anos 1790, 1640 e 1930”. Cf. “The Three Hegemonics of Historical Capitalism”. In: Gill (Ed.). Gramsci, Historical Materialism, cit., p. 148-65. A diferença fundamental em relação aos anos trinta reside justamente na solidez da hegemonia dos EUA, na complexidade das instituições internacionais, na existência de múltiplas formas de regionalismo e no avanço da democratização. Sobre esta ordem de problemas, permito-me remeter a dois papers meus: “Globalisation, régionalisation et gouvernement mondial” (Unesco, 1997) e “Mondialisation, régionalisation, souveraineté de l’Europe” (Bruxelas, 1997). Quanto às sugestões gramscianas, elas são obviamente limitadíssimas, mas este autor tende a evidenciar os trechos que vão, como quadro de previsão (não necessariamente normativo!), no sentido de uma forma de regionalismo aberto à competição internacional.
[42] Refiro-me aos estudos sobre a ausente (ou imatura) hegemonia americana entre as duas guerras como causa da grande crise.
[43] O texto mais importante é o livro de R. Keohane, After Hegemony (Princeton: Princeton U.P., 1984), além do artigo de quatro anos antes, “The Theory of Hegemonic Stability and Changes in International Economic Regimes, 1967-1977”. In: O. Holsti, R. Sivenson e A. George (Eds.). Change in International System. Westview, Colorado, 1980. Veja-se também de B. Russett, “The Misterious Case of Vanishing Hegemony”. International Organisation, 1985, n. 2, p. 207-31. Este último precisa que “a hegemonia global compreende a hegemonia política, cultural e estratégico-militar”. Cf., também, G. Carnevali, em Teoria politica, n. 1, 1988.
[44] Cox. “Social Forces”, cit., p. 251; cf., também, p. 246-7, em polêmica com as interpretações neorrealistas.
[45] Aos fortes argumentos de Keohane e Nye neste sentido (Power and Interdependence, Harper Collins, 1989) seria preciso acrescentar os estudos de Allison e outros sobre a fragmentação interna do processo decisório dos Estados.
[46] Q, p. 1.598.
[47] Gill retomou, no seu paper apresentado neste seminário de Cagliari, esta argumentação, difusa pela École de la régulation francesa (vejam-se, sobretudo, R. Boyer, A. Lipietz, B. Coriat, etc.).
[48] Q, p. 132-4; p. 1.358-62.
[49] Entre as muitas notas a propósito: Q, p. 1.571.
[50] Sobre isso, veja-se, entre outras, as contribuições de M. Montanari e R. Racinaro neste seminário de Cagliari.
[51] Cf. Q, p. 125 e 2.157, e nota 6.
[52] Para uma excelente apresentação da versão moderna desta problemática, veja-se Susan Strange, “Territory, State, Authority and Economy: a New Realist Ontology of Global Political Economy”. In: R. Cox (Ed.). The New Realism. Londres, 1947, e também as críticas de J.N. Rosenau na mesma obra coletiva, p. 55-80. O problema é que a perspectiva de dissolução e “desterritorialização” total da autoridade apresentada por Strange, no sentido de “um novo medievo”, termina por subestimar o peso da superpotência hegemônica americana (reduzida a “assimetria” entre Estados) e por ignorar a importância da tendência à centralização das decisões e dos processos decisórios, inclusive no plano das macrorregiões, como a Europa, ou no plano dos Estados, quando o sufrágio universal o impõe. Cox interpreta (e corrige) a análise de Strange sobre a emergência dos poderes privados na nova “economia política global” através da sua ideia do sistema imperial, desterritorializado. No seu prefácio a Gramsci, Historical Materialism, cit., Gill vê um possível conflito entre esta ordem mundial “constituinte” e os próprios EUA.
[53] E. Hobsbawm. Il secolo breve. Milão: Rizzoli, 1995 (The Age of Extremes. The Short Twentieth Story 1914-1991. Londres: Michael Joseph, 1994).

Tradução: Tilda Linhares
Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

Mario Telò é professor de Ciência Política da Universidade Livre de Bruxelas. Ests texto foi publicado originalmente com o título “Notas sobre o futuro do Ocidente e a teoria das relações internacionais”.