19/9/10

Daniel Bensaïd: A crise para lá da crise

Foto: Daniel Bensaïd
Nouveaux Cahiers du socialisme: É preciso que façamos um esforço para captar muito rapidamente a natureza desta crise, a fim de antecipar a sua amplitude e o seu alcance, mas sobretudo para contrariar as soluções dolorosas de saída de crise às quais o capitalismo nos habituou. Não se trata aqui de nenhum preciosismo teórico mas de tentar compreender para agir. Efectivamente, parece-nos que uma análise adequada desta crise é indispensável à elaboração de um quadro estratégico ou de um programa de urgência, como aquele que foi proposto pelo NPA (“Nouveau Parti Anticapitaliste”), por exemplo.
Ousemos traçar uma tipologia para iniciar a discussão. Pode-se identificar, inicialmente, um campo da negação, o qual reduz o problema a uma questão de poder de compra ligado ao sobre-endividamento das classes medias, particularmente nos Estados Unidos. Incapazes de aumentar o seu consumo, de “derreter o plástico” dos seus cartões de crédito, elas são consideradas responsáveis pelo que se está a passar, culpando-se a sua falta de confiança no futuro. Falta de confiança, eis aí, para esta análise, a frase chave da crise.
Outros tentam explicar a crise pela incúria, ou mesmo pela desonestidade de alguns altos dirigentes do sector financeiro que teriam perdido todo e qualquer contacto com a realidade. Nessa perspectiva, a saída da crise passa por uma boa limpeza (embora parcial e selectiva), seguida de uma regulamentação adequada para disciplinar os aspectos mais desenfreados da especulação, se necessário for, reforçando o controle do poder público. “We are all socialist now”, era o título da revista Newsweek de Fevereiro de 2009.
Por último, no campo da esquerda altermundialista, o esforço de compreensão procura visivelmente o aprofundamento da análise. Esta crise não é a primeira, nem será, infelizmente, a última: ela é inerente ao capitalismo. Mas, contrariamente às crises clássicas de sobreprodução, esta estaria a emergir de um abismo sem fundo entre, de um lado, a economia real que produz os bens e serviços e, de outro lado, a actividade especulativa que produz quarenta vezes mais dinheiro sem produzir um “iota” de valor real: o valor que é fruto do trabalho. É a tese da economia de casino e dos seus novos donos, os especuladores, praticando uma espécie de grande banditismo. “Croony capitalismo”, dirá Samir Amin. O que pensar de tudo isto?
Daniel Bensaïd: Tenta-se frequentemente comparar a crise actual à grande crise de referência, a de 1929. As diferenças são tão importantes como as semelhanças. A crise actual é provavelmente muito mais grave. É fundamentalmente uma crise da lei do valor, portanto uma crise da profunda falha de medida de um mundo (capitalista) onde as riquezas e as relações sociais são avaliadas com base no marco único do tempo de trabalho abstracto. Ora, como Marx anunciava nos seus Manuscritos de 1857-1858, este marco tornou-se cada vez mais “miserável” e irracional face a uma socialização (uma cooperação) cada vez mais desenvolvida do trabalho e uma integração cada vez mais forte do trabalho intelectual e do trabalho manual. É isto que testemunham, entre outros, os critérios de avaliação absurdos elaborados para quantificar o inquantificável e medir o incomensurável em matéria de educação ou de saúde.
Na sua dupla dimensão, social e ecológica, esta crise tem a sua origem no coração mesmo do sistema. O carácter “miserável” da lei do valor se manifesta no seu seio pela explosão de novas formas de pobreza e de exclusão social: porque razão os ganhos de produtividade mirabolantes, em vez de se traduzirem em mais “tempo livre”, engendram sempre mais desemprego e mais precariedade? E como avaliar em “tempo real” (como nos movimentos da Bolsa!) e em termos monetários, as depredações infligidas às condições naturais de reprodução da espécie humana (desflorestação, poluição dos oceanos, armazenamento de detritos nucleares, mudanças climáticas).
A crise é directamente mundial ou global na medida em que o sistema capitalista praticamente esgotou as reservas de expansão externa que lhe permitiam (segundo Rosa Luxemburgo na “Acumulação do capital”), repelir os seus limites integrando na produção mercantil zonas geográficas ou formas de produção que ainda lhe escapavam. Quando da crise dos anos 30, a população e a produção agrícolas representavam ainda mais de 30% do total nos principais países capitalistas, de tal maneira que as solidariedades familiares e aldeãs podiam constituir amortecedores sociais. Hoje em dia, os assalariados constituem cerca de 90% da população activa, de maneira que a crise faz bola de neve por intermédio de deslocalizações e despedimentos. Na França, o governo se felicita do papel que desempenham (ainda) aquilo que ele chama pudicamente (de agora em diante), de “estabilizadores automáticos”, ou seja, o sistema de protecção social que ele se empenhava em liquidar.
Finalmente, esta crise é também, poderíamos dizer, uma crise das soluções para a crise. Fala-se muito, na comunicação social escrita, de “New Deal” ou de “relançamento keynesiano”. Ora, isto é esquecer precipitadamente que o “New Deal” de Roosevelt apenas permitiu, em 1934, uma curta retomada (sob a pressão de grandes lutas operárias), antes de uma brutal recaída em 1937-38; a crise apenas foi realmente ultrapassada pela explosão da indústria de armamento e a economia de guerra. Mas tais afirmações significam ainda, sobretudo, esquecer que as políticas keynesianas do pós-guerra não consistiram somente num “círculo virtuoso” entre produtividade, salários e consumo de massa, mas também que elas pressupunham todo um edifício institucional (direito do trabalho, serviços públicos, políticas monetárias) estabelecido dentro dos quadros nacionais, os quais hoje estão muito limitados pela globalização e pela desregulamentação. Para postular um relançamento keynesiano à escala europeia, como o fazem por vezes os partidos social- democratas em seus discursos eleitorais, seria necessária uma viragem de 180 graus na construção europeia que eles próprios vêm apoiando há um quarto de século. Seria preciso uma retomada do controle político da moeda (entregue hoje em dia ao Banco Central), uma reconstrução dos serviços públicos e dos sistemas de protecção social metodicamente destruídos nos últimos 20 anos pelos governos de direita e de esquerda, uma anulação dos tratados europeus instituindo a livre circulação de capitais, etc..
Se avaliamos desta forma a natureza e a amplitude da crise, podemos medir a indigência das explicações e das soluções geralmente propostas, quer se trate da tese dita do “sub-consumo”, ou daquela que invoca a “imoralidade dos banqueiros”. A primeira retoma mais ou menos a teoria de Say sobre o equilíbrio espontâneo que deveria haver entre produção e consumo, o que pode ser válido para uma economia de troca simples, mas não o é para uma economia capitalista, onde produção e consumo são dissociadas no tempo e no espaço.
Já é ponto assente hoje em dia que, sob efeito das contra-reformas liberais, 10% do rendimento nacional passou, em vinte anos, dos bolsos dos trabalhadores aos dos capitalistas (accionistas, etc.), de tal maneira que o “poder de compra” não acompanhou os ganhos de produtividade. O consumo só foi possível pelo recurso massivo ao crédito e ao endividamento, os quais permitiram adiar uma crise latente de sobreprodução. Finalmente revelada pela explosão da bolha especulativa ela é hoje manifesta nos sectores-chave da construção ou da indústria automóvel.
Esta sequência neoliberal se caracterizou também por uma explosão da desigualdade de rendimentos, moralmente chocante, é verdade (cláusulas de rescisão milionárias, bónus prodigiosos, retornos miraculosos de 15% sobre o investimento para um crescimento médio inferior a 5%!), mas no entanto bastante funcionais: esta explosão permitiu compensar parcialmente a compressão do consumo popular pelo desenvolvimento de um sector de consumo de luxo. A incriminação indignada da cupidez patronal serve hoje em dia de manobra de diversão. Ela disfarça, nomeadamente, a responsabilidade política dos governos de direita e de esquerda. A desregulamentação não é, com efeito, um fenómeno económico tão fatal como as calamidades ditas naturais (que não o são sempre, aliás): foi preciso vinte anos de medidas legislativas para desregular as Bolsas, libertar a circulação de capitais, privatizar os serviços públicos, promover o sistema de patentes sobre o saber e os seres vivos, etc.
A fórmula da “economia de casino” apenas designa um fenómeno já descrito por Marx em ‘Teorias sobre a mais valia’ e ‘O Capital’, ou seja, o fenómeno do fetichismo monetário, do “capital fictício”, do milagre do dinheiro que fabricaria dinheiro por auto-engendramento, sem passar pela fecundação da produção e da circulação. O famoso retorno de 15% sobre investimento com um crescimento de 4 ou 5 % era ainda mais prodigioso do que o milagre bíblico da multiplicação dos pães. Ele não poderia durar eternamente, e se era impossível prever a data e o detonador da crise, não seria necessário ser diplomado pela London School of Economics para compreender que ela era inevitável.
Quanto à fábula sobre a moralização do capitalismo, a sua inanidade é evidente. Tratando os trabalhadores descartáveis como “variáveis de ajustamento”, o capitalismo confirma que ele sempre tratou os homens como meios e não como fins. É o que admite abertamente a filosofia utilitarista e o que Marx resumia bem quando escreveu, nas primeiras páginas de ‘O Capital’, que, na entrada do inferno da exploração estava escrito: “No entry, except for business” - entrada proibida, salvo para negócios. Dito de outra forma: deixe a sua moral à porta.
 Nouveaux Cahiers du Socialisme: Abordemos agora uma questão difícil, embora antiga, a qual remete para a discussão sobre reforma ou ruptura revolucionária mas num novo contexto, que é o do neoliberalismo triunfante, por um lado, e daquilo que denominamos como Socialismo do Século XXI, por outro. Quatrocentos anos após a sua emergência, o capitalismo estará no final do seu caminho, advindo a sua força apenas da fraqueza e da desunião daqueles que o contestam?
Podemos encarar uma via de saída da crise que seja outra coisa do que a guerra ou de um fascismo versão Século XXI? Podemos encarar um tipo de neokeynesianismo musculado pelas lutas sociais e ecológicas e apoiando-se sobre uma ampla coalizão saída de todas as esferas da sociedade civil? Dizendo-o de forma mais simples: há uma outra via possível para o capitalismo pós-neoliberal? Esta questão não é nem teórica nem especulativa. A resposta que se lhe dê induz diferentes propostas programáticas e organizacionais por parte das correntes que se reivindicam do socialismo. Formulada mais directamente: devemos militar para unificar e colocar em movimento as forças de resistência aos “excessos” neoliberais ou ao capitalismo?
Daniel Bensaid: É uma questão difícil… Afastemos à partida a ideia de uma crise final do capitalismo como a concebiam os teóricos do afundamento (Zusammenbruchtheorie) como Eugénio Varga, na época do “terceiro período de erros da IIIª Internacional”. Há provavelmente uma saída - o problema é o de saber a que preço e quem o pagará. O preço da saída da crise de 1929 foi exorbitante para os oprimidos e explorados: o fascismo, uma guerra mundial e a consolidação temporária de um estalinismo aparentemente vitorioso. Mas é preciso evitar pensar a história sob a forma da repetição dos mesmos acontecimentos sob pena de ficarmos cegos em relação àquilo que ela apresenta sempre de inédito e de surpreendente. Ninguém sabe o que é que pode resultar hoje da combinação das crises económica, social e ecológica.
No entanto, se, como você nos lembra, o capitalismo como sistema dominante apenas tem, aproximadamente, quatro ou cinco séculos de idade, parece óbvio que ele não é eterno. Qual pode ser o seu futuro? Isto depende, teria dito Heráclito, da necessidade e da luta. Que ultrapassagem do capitalismo é concebível? Isto não é uma questão de modelo ou de horizonte utópico. Trata-se de detectar nas lutas actuais, no “movimento real” que tende a abolir a ordem existente, o germem dos possíveis. Para mim, este germem reside na oposição de uma lógica solidária (do bem comum, do serviço público, da apropriação social), à lógica concorrencial da propriedade privada e do cálculo egoísta. É, entre outras coisas, o que eu resumi em Os despossuídos.
A questão (e as dúvidas) incide, na realidade, sobre as forças capazes de lograr esta grande transformação social. Desde o princípio dos anos 60, no seu livro “O homem unidimensional”, Marcuse colocava a questão de saber se era ainda possível romper o círculo vicioso da dominação. Ele a colocava em relação a uma sociedade de consumo que parecia destinada à abundância, à satisfação das necessidades, à integração total das capacidades subversivas do proletariado. A sua busca de sujeitos sociais de substituição (os estudantes) fracassou. Desde então, do fetichismo ao espectáculo (Debord, 1967) e do espectáculo ao simulacro (Baudrillard, 1980), ao que parece, o círculo vicioso não cessou de se aperfeiçoar e encerrar cada vez mais. Estamos hoje, no entanto, bem longe dos mitos da abundância ao alcance de todos. As lutas sociais, inclusive a luta de classes, retomaram intensidade. A questão nova, na minha opinião, é a da construção de um novo bloco histórico hegemónico a partir da irredutível pluralidade das contradições e das dominações, da irredutível pluralidade (e discordância) dos tempos sociais.
A experiência dos Foros Sociais fornece a esse propósito indicações preciosas. O que é que faz com que movimentos tão diversificados como sindicatos industriais, movimentos feministas, ecologistas, culturais e outros possam convergir nesses foros ? Para mim, o grande unificador é o próprio capital: é a sua lógica sistémica mundializada que gera a necessidade de respostas anti-sistémicas. Mas tudo isso desemboca numa outra questão que ultrapassa os limites dessa entrevista, ou seja, a questão da articulação entre lutas sociais e politicas, entre movimentos sociais e partidos, entre contestação social e representação institucional.
Quanto à questão de saber se há “uma vida possível para o capitalismo pós-liberal”, a resposta seria: provavelmente, mas que vida ? Antes de proclamar, como fizemos nos foros sociais, que um outro mundo é possível, é preciso em primeiro lugar convencermo-nos de que ele é necessário. Trata-se, portanto, de o tornar possível. E este outro mundo não se contentaria em corrigir os excessos e os abusos do capitalismo os quais estão inscritos nos mecanismos do próprio sistema. Ele teria que romper a sua lógica mortífera.
Nouveaux Cahiers du Socialisme: O que confere vigor e substância à hipótese da necessária ruptura revolucionária com o capitalismo é, sem dúvida, a confrangedora incapacidade das classes políticas dirigentes em fornecer explicações e respostas satisfatórias à crise. No essencial, são os mesmos que, após ter acendido o incêndio, se transformam em bombeiros. Mas essa incapacidade também se encontra, no plano das ideias, entre os intelectuais dos grupos de reflexão que explicaram o mundo segundo as concepções de Milton Friedman, nestes últimos trinta anos. Da parte deles há também um deserto de ideias. Sente-se que eles são incapazes de formular propostas novas a não ser aquelas de um capitalismo verde de contornos vagos e imprecisos. Quanto ao resto, as respostas deles são quase sempre insignificantes e culpabilizantes…
Por parte das classes populares, as lutas são duras mas sobretudo defensivas. Empurradas contra a parede, elas tentam resistir às perdas de empregos, às regressões no que concerne as condições de trabalho, à carestia da vida, etc. Trata-se essencialmente de lutas para controlar e limitar os desgastes da crise.
Como explicar esse desfasamento entre a dureza das lutas e a modéstia, tanto dos seus objectivos como dos seus resultados, o que marca a diferença com as grandes batalhas do período keynesiano? Como explicar essa inflexibilidade das classes políticas dirigentes actuais que difere singularmente de uma certa plasticidade do capitalismo de ontem? Os imperativos da concorrência mundializada não explicam tudo; há certamente outros factores que desempenham um papel nesse facto: quais são?
Por outro lado, a ameaça real que representa para a humanidade a deterioração do nosso envoltório natural alimenta um profundo sentimento de urgência, sobretudo na juventude. Definitivamente, podemos nós manter ainda o luxo de sermos moderados? A perspectiva radical não se terá transformado numa imperiosa necessidade, conferindo fundamento ao nosso direito à revolta?
Daniel Bensaid: Que as lutas populares, frequentemente duras e longas, tenham um carácter defensivo, nada tem de surpreendente. O Século XX concluiu-se por uma derrota histórica das esperanças de emancipação. Não se trata (nem exclusiva nem principalmente), como por vezes se pensa, de uma derrota ideológica, fruto do descrédito do projecto comunista como consequência da falência do socialismo realmente inexistente encarnado pelo despotismo burocrático. Trata-se, sobretudo, de uma derrota social consubstanciada no facto de ter dobrado, em menos de vinte anos, a mão de obra disponível em concorrência sobre um mercado do trabalho mundializado e desregulado. Este dado vai pesar fortemente sobre as relações de forças sociais à escala internacional até que as resistências que começam a emergir na China, na Europa de Leste, na Rússia, se traduzam por uma reorganização sindical e política. Isto acabará por acontecer, mas o tempo é relativamente curto face às ameaças de catástrofes sociais e ecológicas no século XXI.
Ao mesmo tempo, a brutalidade da crise suscita reacções, em geral defensivas, mas radicais e por vezes violentas. Tudo se passa como se uma grande maioria de trabalhadores estivesse dividida entre o medo legítimo do desemprego e a raiva diante de tantas injustiças e desigualdades. A questão de saber se é o medo ou a raiva que será preponderante ainda não está resolvida. Se o medo for preponderante, então teremos o “salve-se quem puder” generalizado, a guerra de todos contra todos e a aparição em força do racismo e da xenofobia, cujas primícias são já visíveis.
Claro, a perda de confiança nas soluções (ou nos “modelos”) alternativos é também um pesado fardo. Ela se traduz na tentação ao recuo para um falso realismo minimalista e para as políticas do “mal menor”, que acabam por nutrir as grandes decepções e os grandes desencorajamentos. Mas já estamos notando sinais (ainda minoritários) de um novo compromisso com a política, inclusivamente entre os jovens. Após aquilo que eu designo por momento utópico, no fim dos anos 1990 e no começo da década seguinte, caracterizado pela oposição entre os “novos movimentos sociais” (considerados sãos por natureza) e os desqualificados partidos políticos, a crise demonstra que a auto-suficiência dos movimentos sociais é uma ilusão e que é necessário reconstruir uma perspectiva política face à intransigência das classes dominantes.
Pois que, como você muito bem diz, elas são de facto intransigentes. Diante da crise, estas classes dominantes pretendem apenas tomar medidas cosméticas de moralização do capitalismo. As poucas decisões concretas saídas do último encontro do G20 mostram bem os limites das declarações de intenção. Em plena crise, a contra reforma liberal continua em matéria de educação, de saúde, do direito do trabalho, etc.. Porquê esta intransigência ? Talvez porque, apesar dos discursos sobre a “refundação do capitalismo” ou sobre um “New Deal Verde”, os estrategas das classes dirigentes sabem muito bem que voltar às políticas keynesianas (supondo-se que isto fosse possível, no quadro de uma economia mundializada) seria cair nas mesmas contradições das quais a contra-reforma liberal pretendeu escapar. Eles demonstram, à sua maneira, uma forte consciência de classe: para eles, a saída da crise passa pela necessidade de infligir às classes dominadas uma derrota histórica ainda mais pesada e de liquidar aquilo que subsiste das conquistas sociais do período histórico precedente.
Diante deste “puro capitalismo” (segundo a fórmula de Michel Husson), é necessário um puro anticapitalismo para conjurar a catástrofe social e ecológica iminente.
Nouveaux Cahiers du socialisme: Desde o grande período de crise de 1910 a 1950, as esquerdas conseguiram mais ou menos “ler” correctamente os sobressaltos do capitalismo. Houve, é claro, excepções, como o momento de Petrogrado em 1917 ou aquele de Yenan em 1940. Mas, no geral, a dificuldade da esquerda em “pensar as crises” conduziu a erros graves: seja o erro de avançar depressa demais e de forma demaisiado optimista (Berlim 1923), seja, na maioria das vezes, de não avançar suficientemente depressa e em profundidade. Podemos nos justificar dizendo que a História não é susceptível de ser lida como numa bola de cristal e que o marxismo não é uma bússola infalível. Mas será suficiente dizer isto?
Há na esquerda uma oscilação dramática entre uma expectativa marcado pelo economismo, por uma espécie de fatalismo, e um ultra-voluntarismo baseado na suposição de que tudo seria possível e imediatamente. Essas duas atitudes se inscrevem aliás num fundamento comum, numa crença quase religiosa no “progresso”, na inevitabilidade do socialismo… Você concebe a política como um nó com várias bifurcações e caminhos possíveis, inclusive com regressões, o que representa um avanço em relação à visão economicista da História. Será possível ir ainda mais longe? Como fazer, por exemplo, para evitar o isolamento de uma camada de militantes voluntaristas e entusiastas, formada sobretudo por jovens, num mundo que funciona globalmente de forma rotineira, mergulhado numa espécie de sonambulismo, para retomar a célebre expressão de Hermann Broch?
Daniel Bensaid: Há muito tempo que “as ilusões do progresso” perderam terreno. Aliás, um livrinho de Georges Sorel de antes de 1914 tinha já esse mesmo título. Posteriormente, logo a seguir à primeira guerra mundial, tivemos a visão de Valéry sobre o mundo daquele tempo, tivemos o Malaise dans la civilization de Freud, e as Thèses de Walter Benjamin sobre o conceito de História. Hoje, com a crise ecológica, nós sabemos mais do que nunca que as civilizações são mortais e que nós fazemos, nós próprios, uma história aberta, sem juízo final.
“Como fazer para evitar o isolamento de uma camada de militantes voluntaristas…”, pergunta você. Era bom que o soubéssemos! O que é próprio da grandeza de uma política profana, sem garantia divina nem científica, é precisamente o facto de “trabalhar para o incerto” (segundo uma velha fórmula de Santo Agostinho). O compromisso revolucionário tem inevitavelmente a forma de uma aposta, uma aposta racional e o mais lúcida possível, é verdade, mas não existe ciência exacta das revoluções. Na tarefa de mudar o mundo (que é hoje mais urgente que nunca) nós estamos condenados ao “bricolage”, sem a certeza do sucesso; no entanto, temos, isso sim, a certeza de que, se nem sequer tentarmos, seremos condenados a morrer de vergonha antes mesmo de sermos aniquilados por uma eventual catástrofe nuclear ou por um desastre climático.


Daniel Bensaïd (1946-2010), um dos mais lúcidos, profundos e sistemáticos pensadores revolucionários das últimas décadas, colaborador generoso e sempre atencioso de ‘O Comuneiro’, faleceu a 12 de Janeiro passado, deixando-nos a todos um pouco mais desamparados para enfrentar as tarefas a que ele nos concita nesta entrevista,realizada a 1 de Setembro de 2009 e publicada no Québec, nos‘Nouveaux Cahiers du Socialisme’ (Editions Ecosocieté, Montréal), número 2 - Outono de 2009..