1/8/10

¿Um copo de vinho, Sr. Marx?


Martin Jacques 


Houve uma batida na porta. “Entre”, eu disse. Era o momento pelo qual eu tinha aguardado. Ele era um pouco menor do que eu esperava, mas não menos imponente, com seus longos cabelos, agora na maioria grisalhos, e uma barba. Suas feições eram um tanto mais escuras do que imaginara. É claro, pensei: “O velho Mouro” [1]. Ofereci uma cadeira, agradecendo por reservar aquele tempo para a entrevista. Ele balançou os ombros, olhou para o gravador com alguma perplexidade e esperou que eu começasse.
“Sr. Marx, o Sr. escreveu no Manifesto comunista, às vésperas da revolução de 1848: ‘Um espectro assombra a Europa, o espectro do comunismo’. O espectro que agora assombra a Europa parece ser muito mais o capitalismo”.
Comecei a explicar o que ocorrera em 1989, mas ele interrompeu com alguma impaciência. “Eu sei, eu sei. Tenho seguido os eventos, não durmo quando estou na Sala de Leitura”. “É claro”, pensei, “assento G7” [2]. Como ele parecia bem informado sobre as notícias, apressadamente revisei a minha entrevista.
“O que pensa de 1989? É o fim do comunismo?”
“É fascinante. Um ano notável. Sob alguns aspectos, é como em 1848. Um movimento popular irresistível em muitos países e todos ao mesmo tempo. Mas, desta vez, as revoluções provavelmente sobreviverão. Essas são revoluções pela democracia. Acho que 1989 é o final de 1917. É o final da era da Revolução Russa. Suspeito que ela fracassou”.
Fiquei espantado com a sua disposição de descartar muito do que, afinal de contas, tinha sido feito em seu nome. “Mas”, respondi, “desde o final da década de 1860, o Sr. mesmo passou a ver a Rússia como a candidata mais provável para a revolução”.

“Também escrevi, com Engels, que uma revolução russa poderia ‘oferecer o sinal para a revolução proletária no Ocidente, de tal forma que uma complementaria a outra’ (está no prefácio de uma nova edição russa do Manifesto comunista). Foi o que quase aconteceu. Quase ocorreram revoluções em diversos países europeus no período imediato à Primeira Grande Guerra, para não mencionar apenas a Alemanha, é claro. Mas não era para acontecer. E a Rússia estava no seu próprio caminho, um país com um proletariado muito pequeno e sem tradição democrática. Era a receita para um regime autoritário cruel. E foi exatamente o que ocorreu. Prevíamos o socialismo em termos de emancipação, autogestão e uma avassaladora maioria. Mas, de fato, ocorreu o contrário. Foi um socialismo em nome do povo, mas nas mãos de uma minoria”.
“Mas tudo foi realizado com suas ideias, em seu nome”.
“E daí?”, ele retrucou. “O marxismo se transformou em muitas e diferentes tradições. Esta foi uma delas, e no início parecia promissora. O problema é que ela se tornou ‘o’ marxismo. Tornou-se a linha oficial. Todas as outras tradições, como aquela da Segunda Internacional, foram deixadas na escuridão, foram excomungadas [3]. Como resultado, o marxismo, que tinha crescido no Ocidente, ficou indissoluvelmente ligado ao Oriente, ao atraso, ao despotismo. O socialismo foi separado da democracia. Foi uma tragédia”.
Estava surpreso com a franqueza de Marx. Mas talvez ele estivesse sendo, primeiramente, um filósofo, e somente depois um militante, a despeito do que está escrito em seu túmulo, no Cemitério de Highgate [4]. Insisti um pouco mais: “Mas, certamente, o Sr. precisa aceitar alguma responsabilidade pelo que foi feito em seu nome. Certamente, existia algum autoritarismo incipiente em sua própria perspectiva...”
“Com a nossa ênfase sobre as leis da história e a inevitabilidade do socialismo, demos crédito a um certo autovirtuosismo, a um elitismo, à ideia de que os fins justificam os meios. Mas você não pode seriamente me tornar o responsável pelo que aconteceu no tempo de Stalin, por Deus!”
“Mas o seu estilo de debater e polemizar não estabeleceu um mau exemplo para seus seguidores? Foi marcado por um grau de intolerância imitado por muitos, incluindo Lenin”.
Marx parecia incomodado. Gesticulando vigorosamente, disse: “Era a cultura do meu tempo, especialmente nos círculos de refugiados de Londres. De qualquer forma, não posso ser acusado pelo comportamento de outros que sequer conheci”.
“Em seus escritos, o Sr. previu o socialismo como uma consequência inevitável do capitalismo. O Sr. não disse isso uma vez, mas mil vezes. O Sr. escreveu com extraordinária perspicácia sobre o capitalismo, de tal forma que atualmente muitas pessoas que jamais sonhariam se chamar de marxistas foram influenciadas por suas ideias. O Sr. escreveu muito sobre revoluções, particularmente sobre 1848 e a Comuna de Paris. No entanto, escreveu muito pouco sobre o socialismo. Quando os bolcheviques tomaram o poder, eles herdaram pouco mais do que uma folha de papel em branco”.
“Suponho que assumimos que, ao chegar o momento, seria relativamente claro o que precisava ser feito. Fomos culpados, creio, de um certo utopismo. Tudo estaria logo acertado já da noite para o dia. A outra razão é que isto nunca pareceu ser a principal prioridade. Sempre pareceu fazer parte do futuro. Entender o capitalismo era mais importante do que sonhar sobre o socialismo”.
“Está bem, vamos conversar sobre o capitalismo. O Sr. fez duas previsões. Primeiro, que o capital iria se concentrar cada vez mais, que a natureza privada de sua apropriação ficaria mais e mais evidente. E, segundo, que o proletariado industrial cresceria ao ponto de representar a vasta maioria da população e, assim, se tornar o motor central de uma nova sociedade, o socialismo. Mas esta última tendência nunca ocorreu. O proletariado industrial está agora contraindo rapidamente. E a população trabalhadora, longe de ficar mais homogênea, está, de fato, se tornando crescentemente heterogênea”.
“Sejamos claros acerca da história, primeiramente. Depois que saí de cena [5], o proletariado industrial continuou a crescer com grande velocidade em toda a Europa. Isto foi verdadeiro até 1945. Foi somente durante os anos cinquenta que a classe trabalhadora industrial começou a declinar como proporção da força de trabalho. Além disto, ela tinha ficado rapidamente organizada, mais consciente do que eu tinha antecipado”.
“Sua interpretação é válida para a Europa, mas não muito para outros lugares, como os Estados Unidos, por exemplo”.
“É verdade. Em geral, não entendemos bem os Estados Unidos. De qualquer forma, deixando aquele país de lado, aceito que, desde os anos cinquenta ou por aí, a previsão acerca da crescente preponderância do proletariado industrial empacou. É agora claro que o crescimento do proletariado foi a característica de uma era, e não uma tendência permanente. Agora, ele está em declínio. Até o final deste século, constituirá menos de 20% da população trabalhadora deste país”.
“Exatamente. O que significa que durante um tempo o Sr. estava certo sobre a centralidade da classe trabalhadora como motor da mudança, mas esta era agora passou. A classe trabalhadora está em declínio. A sua ação histórica a favor do socialismo não existe mais”.
“Concordo. Foi o nosso grande erro. Durante algum tempo estávamos corretos. De fato, estivemos certos durante setenta anos mais ou menos, até que me rendi. Mas aquela não foi uma conclusão desprezível. Agora não é mais assim; a história pregou uma peça no velho Marx. Além disto, suspeito que o nosso conceito de socialismo deve ser repensado. O que o socialismo quer dizer sem o seu centro social de mudança? Acho que estamos de volta à elaboração”.
De novo, estava surpreso com a disposição de Marx de enfrentar frontalmente os fatos, mesmo quando esses afetavam os fundamentos de seu pensamento. Mencionei isto para ele, que me recordou sua máxima favorita: De omnibus dubitandum (É preciso duvidar de tudo). Precisávamos de alguma “lubrificação” e lembrei-me de como ele gostava de vinho tinto. Ele respondeu com entusiasmo à ideia, embora um tanto surpreso que o Weekend FT não pudesse oferecer um vinho melhor [6].
Continuou: “Discutimos somente uma das minhas duas previsões. Parece-me que a outra era notavelmente precisa. Quaisquer que sejam as tendências à descentralização no interior das firmas, tem ocorrido uma enorme concentração do capital. Veja as grandes companhias globais. Além disto, sempre insisti que o capitalismo era um sistema revolucionário. Mas nunca sugeri que tinha esgotado o seu potencial, embora admita que mesmo eu estou surpreso por sua vitalidade na segunda metade do século 20”.
E ainda: “É a minha vez de citar meus escritos para você. ‘A burguesia não pode existir sem revolucionar constantemente os instrumentos de produção, e em consequência as relações de produção e, com elas, as relações totais da sociedade. Um constante revolucionar da produção, a permanente perturbação de todas as condições sociais, uma duradoura incerteza e agitação distinguem a época burguesa de todas as precedentes. Todas as relações que são fixas, congeladas, com o seu padrão de preconceitos e opiniões antigas e veneráveis, são varridas... tudo o que é sólido se desmancha no ar’. Nada mal, hein? E escrevi isto em 1848, bem antes do meu trabalho em O capital. Não é uma má descrição daquela década”.

“Não há nenhuma dúvida de que o Sr. foi extraordinariamente preciso acerca do dinamismo do capitalismo. Aliás, o Sr., mais do que qualquer outro, influenciou as pessoas que pensam sobre o assunto atualmente. Ao mesmo tempo, no entanto, o Sr. subestimou inteiramente a capacidade de adaptação do capitalismo, de construir um sempre crescente padrão de vida. Mais, o Sr. realmente não imaginou que era um sistema capaz de reformar-se, de se tornar bem mais humano do que era quando escreveu”.
Marx se curvou para frente, serviu-se de outra taça de vinho, parou por um momento e então disse: “Certamente, subestimei a capacidade de a classe trabalhadora, através da organização coletiva, contrapor-se à tendência de sua renda estagnar ou declinar. Isto está claro. Mas contesto em parte o segundo ponto. Já bem antes que eu saísse de cena, partidos socialistas de massa, normalmente se intitulando de marxistas, estavam se enraizando e abrindo caminhos em termos de reformas. Engels e eu reconhecemos a importância fundamental do voto universal. Você conhece a introdução de Engels para o meu livro A luta de classes na França, escrita em 1895? Ali ele argumenta que o voto universal tornara obsoletos os métodos insurrecionais de 1848 e a Comuna de Paris. Mais, ele sugeriu também que o Estado poderia ser reformado por dentro”.
“De qualquer forma, as reformas realizadas na Europa Ocidental certamente foram além dos seus sonhos mais intensos. Em seus últimos dias, é verdade que o Sr. reconheceu o valor das reformas graduais, e até mesmo viu este caminho como a melhor esperança naquele tempo, mas sempre com base na crença de que num certo momento ocorreria uma revolução. Examinando agora em perspectiva, o Sr. seria simpático a um de seus seguidores, o revisionista Eduard Bernstein, que se tornou um poderoso defensor do gradualismo, ao ver o processo de reforma como mais importante do que a meta final, a revolução?”
Marx pareceu incerto sobre como responder. Alisou a barba e disse:
“Em retrospecto, acho que eu estava certo até o fracasso das revoluções na Europa Ocidental, no início do século 20. Aquele período marcou o final da possibilidade de revoluções nos países capitalistas avançados. A melhor opção passou a ser o caminho da reforma. Os partidos da Segunda Internacional, como a Social Democracia alemã, provavelmente ofereceram o melhor modelo de longo prazo”.
“Se é assim, o Sr. vê o seu legado pensando na União Soviética ou, por exemplo, na Suécia?”
“Ambos são parte do legado. Mas agora está claro que o primeiro caso se esgotou, fracassou. Por outro lado, a tradição social-democrata permanece plena de possibilidades históricas”.
Marx tirou seu relógio de bolso do lado esquerdo do colete.
“Preciso seguir meu caminho”, disse. “Preciso encontrar uma pessoa em Maitland Park Road” (a sua casa anterior).
“Brevemente, então, um ou dois temas finais. Onde tudo isto deixa o marxismo no final do milênio?”
“Vamos ser claros. Nunca subscrevi o marxismo. Lembre-se quando eu disse: ‘Tudo que sei é que não sou um marxista’. Mas não posso negar que agora existe uma tradição marxista. Parece que o sentido de 1989 é que o cordão umbilical que ligava o marxismo a 1917 está rompido. O marxismo finalmente se tornou plural, se tornou marxismos. Ao mesmo tempo, perdeu a sua exclusividade. Assume seu lugar ao lado de outras tradições em posição de igualdade e não de predominância. Depois de mais de um século, é assim que deveria ser”.
“Mas, então, o que permanece?”
“Acho que já respondi muito sobre isto. Apenas acrescentaria que o capitalismo está vivo e saudável e, da mesma forma, portanto, está a desigualdade e a injustiça. Está tudo à nossa volta”.
“O Sr. tem algum arrependimento em sua vida?”
“Por que deveria ter? Citando Hamlet:
Sure, he that made us with such large discourse,
Looking before and after, gave us not
That capability and godlike reason,
To fust in us unused...” [7]
Quando percebi, ele já tinha saído. Cocei meus olhos. Teria sido um sonho ou uma exclusiva para terminar com todas as exclusivas?
Notas
[1] Apelido de Marx entre seus familiares e amigos.
[ 2] Referências à Sala de Leitura e à cadeira favorita de Marx no Museu Britânico. Foi o seu ambiente principal de trabalho, em especial, durante a década de 1850.
[3] Uma organização de partidos de esquerda (social-democratas, socialistas e trabalhistas). Nasceu em 1889, organizada pela facção marxista que rompeu com a Associação Internacional dos Trabalhadores e, por esta razão, chamada de “Segunda Internacional”.
[4] Em seu túmulo, no cemitério londrino de Highgate, estão inscritos o parágrafo final do Manifesto comunista (“Proletários de todos os países, uni-vos!”) e a igualmente famosa frase extraída das Teses sobre Feuerbach (“Os filósofos apenas interpretaram o mundo em vários sentidos; a questão é transformá-lo”).
[5] Marx morreu em 1883.
[6] O suplemento de final de semana do Financial Times, onde esta entrevista foi publicada.
[7] Shakespeare, William (1602), Hamlet. Ato IV, cena 4.
Martin Jacques é professor visitante da London School of Economics. Foi editor da revista Marxism Today (1977-1991). É autor de When China Rules the World. The Rise of the Middle Kingdom and the End of the Western World (2009). Esta “entrevista com Karl Marx” foi originalmente publicada no Financial Times, Londres, em 10 de janeiro de 1990.