1/8/10

Notas sobre marxismo, intelectuais e democracia

Tarsila do Amaral [Brasil] Ferrocarril Central

Bruno Gravagnuolo
1. Bobbio, um mestre de esquerda
Agora, até Alberto Asor Rosa, na entrevista da ed. Laterza a Simonetta Fiori, o reconhece: Bobbio tinha razão contra Togliatti e Della Volpe sobre a relação política e cultura. Questão dos anos 1950, mas ainda válida, que vale a pena retomar cem anos depois do nascimento do filósofo turinense. Isto é: o intelecto crítico, laico e racional é soberano em relação à política e aos seus fins. E com ela mantém uma relação de autonomia, que não é de indiferença, mas de participação responsável, ativa e sem atos de fé. E que se renova em cada oportunidade: não orgânica e orgânica. Rebelde e leal, e voltada para interrogar os fundamentos da política, para melhor escolhê-la e quem sabe servi-la, mas em liberdade. Ao longo da história e dos seus conflitos.
Mas não é só este o legado de Bobbio. Há muito mais. Da descoberta do direito como continente em si (técnicas, objetivos, funções, formas de governo) até a distinção fatos/valores e a crítica à inexistência de uma teoria marxista do Estado, com a correspondente redescoberta daquilo que faz de uma democracia uma democracia: procedimentos universais, garantias, não violência. E até chegar à lúcida elaboração do par direita/esquerda de 1994. Direita como desigualdade e hierarquia. Esquerda como igualdade, dinâmica e não niveladora. E mais: o antifascismo. Antifascismo como Grund Norm à Hans Kelsen. Isto é, o valor metajurídico que funda — por referências e implicações — o edifício jurídico da Constituição republicana.
Por fim, a paz. Apreendida por Bobbio, e paradoxalmente, entre dois opostos: Hobbes e o Jusnaturalismo. Hobbes encarna a exigência da autoconservação civil, cada vez mais cosmopolita. O Jusnaturalismo, ao contrário, é o valor da pessoa humana, cristão mas laicizado e agora trans-confessional (kantiano).
Há muitas razões para voltar a Bobbio, laico, socialista liberal de esquerda. E defensor intransigente do nosso Estado parlamentar. Contra todo e qualquer populismo decisionista. De direita ou mesmo progressista moderado.
2. Intelectuais, adeus. O pensamento é pó
Há dias, olhando as ofertas turísticas no encarte de um importante jornal, dava-se de cara com um curioso anúncio. Um famoso historiador da filosofia iria trabalhar como guia de um cruzeiro no Egeu, entretendo os clientes sobre filosofia grega durante todo o tour. Preço módico. Nada mau. Mas se poderia começar por aqui para resenhar O grande silêncio, o livro-entrevista com Alberto Asor Rosa sobre o “silêncio dos intelectuais”, organizado por Simonetta Fiori. O exemplo, ao lado daquele de um outro grande estudioso, autor há anos de (verdadeiros) menus gastrofilosóficos, resume ironicamente um dos temas-chave do livro: o esgotamento do intelectual clássico. A liofilização do seu papel de outrora. Sintético e pedagógico, e baseado no nexo cultura e política. E também na ideia de uma cultura alta e crítica. Vocacionada para distinguir o que é relevante daquilo que não é. Logo, silêncio dos intelectuais ou entretenimento verboso, na era “pós-moderna”, termo ao qual Asor prefere o de “civilização ascendente” de massas.
Volume de qualidade. Por variados motivos. Primeiro, é bem conduzido pela organizadora. Segundo, tem como protagonista pensante um insigne italianista, versado em política e cultura, cuja biografia é emblemática da intelligentsia italiana do pós-guerra. Terceiro, enfrenta um tema crucial. Quarto, trabalhamos com Asor nos tempos de Rinascita, e, por isso, falar dele significa também falar de coisas vividas em comum (de modo diverso). Por exemplo, a virada PCI-PDS [Partito democratico della sinistra], que nos surpreendeu a ambos, ao lançarmos, ele diretor, a última edição do semanário fundado por Togliatti.
Mas vamos ao ponto central: os intelectuais. Asor descreve sua gênese entre iluminismo e revolução industrial. Figuras-chave da reprodução capitalista dentro da moderna sociedade civil, sempre foram de algum modo enciclopédicos, conflitivos ou orgânicos. E sempre “expressivos” de um salto: dos saberes especializados para o intelecto geral. Sociologicamente, para Asor, aquela função se extinguiu, em benefício de papéis técnicos, midiáticos ou gerenciais. E no quadro de uma mutação “pós-fordista”, que massificou camadas e classes, tornando inúteis mediações e conflitos, dos quais os clérigos foram porta-bandeiras através das tempestades ideológicas do século XX.
Como pano de fundo, para Asor, existe agora a “civilização ascendente”, o “monstro moderado” de que fala Raffaele Simone, afim à “ditadura da maioria”, sobre a qual escreveu Tocqueville: sociedade da imagem, individualismo de massa, homologação, populismo light, Grande Irmão, etc. Matrizes de uma gigantesca degradação, seja do progresso civil e democrático, seja da inteligência crítica. Apocalipse? Sim e não, para Asor. Embora exegeta no passado do Apocalipse de João, ele rejeita jeremíadas passadistas e, antes, busca os pontos de força para uma retomada da política e da cultura (vividos à Bobbio, em concórdia/discorde) e para um relançamento do melhor da tradição democrática ocidental.
Asor teria razão? Tem muitas razões e talvez cometa alguns equívocos (mais no sentido de omissões). Desde logo, é correta a percepção geral da idade pós-fordista, com o corolário justíssimo da barbárie italiana berlusconiana, feita de desagregação da memória, prepotência carismática e ameaças à divisão dos poderes. Corretíssima, igualmente, é a crítica aos intelectuais italianos, inermes ou muitas vezes acima das partes, depois de terem estado à esquerda talvez de modo ingênuo e ortodoxo. E sobretudo tem razão sobre uma coisa: a falha na virada PCI-PDS. Esta, para Asor, afinal teria jogado fora a criança e a água suja, sem um balanço sério do que foi o PCI na história da Itália: um grande fator de progresso, apesar de limites e atrasos. Realidade liquidada sem pars construens, a ponto de privar as classes subalternas de organização, identidade e perspectivas. E com a consequencia de ter desimpedido o campo para o bloco social e o senso comum da direita.  
E, no entanto, em conclusão, a análise de Asor peca em pelo menos dois pontos. A saber, não é verdade que a homologação seja afinal assim tão forte, a ponto de tornar quase desesperada a busca de pontos de ataque e resistência. De fato, o trabalho assalariado cresceu, em paralelo ao grande exército de reserva dos flexíveis, imigrados ou não. O contra-ataque — além da escola de massa — pode ser retomado a partir da redescoberta do trabalho moderno, avançado, infeliz e dominado. Potencialmente rebelde às receitas liberistas, que querem fazer dele uma coisa marginal e etérea, não mais garantido e “humano-relacional”.
Enfim, o PCI-PDS. Operou-se mal a virada em 1989. Mas devia ser feita — dado o colapso do comunismo —, e não rejeitada, como o fez a frente do “não”, que agiria melhor tentando orientá-la de outro modo, em vez de recusá-la. Na verdade, depois do desconcerto e da recusa, Asor Rosa tentou com honestidade um caminho construtivo e positivo, que salvasse o núcleo racional da esquerda e do comunismo italiano. Mas foi derrotado, e todos nós ainda devemos recomeçar daí.  
3. Kolakowski e o Marx partido ao meio
Leszek Kolakowski, um grande crítico do marxismo, de origem marxista. No entanto, incapaz de formular uma verdadeira “revisão” do seu objeto teórico, tendo terminado numa posição cética, entre a dúvida crítica e a transcendência religiosa. Foi esta a parábola do filósofo polonês, nascido em Lodz, em 1927, e falecido em Oxford, no último 17 de julho, depois de ter emigrado em decorrência das agitações polonesas de 1968, nas quais se destacou como líder do dissenso.
O que nos deixa? Sem dúvida, uma crítica ao “totalitarismo” latente em certas zonas da lição marxiana. Por exemplo, no “mix” de filosofia da história e determinismo positivista, que se encontram na Crítica da economia política de Marx. Deste modo, em Nascimento, desenvolvimento e dissolução do marxismo (SugarCo, 1980-1985), Kolakowski desmonta com facilidade tal “mix”, referindo-o a Platão, a Plotino e também à “gnose” e ao profetismo bíblico. E criticando simultaneamente o aspecto de “necessidade” da estrutura econômico-social, que se impõe sobre ideias e representações do mundo (sobre o fator subjetivo).
Todavia, trata-se de críticas a Marx que não são novas e já estão presentes em gente como Weber, Bernstein, Croce, Gramsci. E críticas, as de Kolakowski, que cometem o erro de não tomar em consideração que existe também um outro Marx. O Marx da “subjetividade”, contra a economia alienada. O Marx que fala da consciência como fator resolutivo das “inversões dialéticas”. E que levanta a hipótese de um mundo novo no qual todos e cada qual possam desenvolver criativamente suas personalidades, sem as mutilações da dominação e da desigualdade, que transformam os indivíduos em mercadoria e joguete de um destino imposto.
Talvez a questão verdadeira, que Marx não captou e Kolakowski também não fixa, seja outra: a democracia. Em outras palavras, a cotidiana libertação associada, dentro da sociedade civil e do Estado representativo. Contra o populismo e os mitos da democracia direta, que engendram ditadura e fanatismo, entre outras antigas mistificações demagógicas.