2/8/10

Gramsci, eu o vi assim

Renato Guttuso (Italia) Crocefissione


Giorgio Baratta
Em julho de 2009, pedimos a Giorgio Baratta, um dos fundadores e ativo participante da International Gramsci Society, e naquele momento já irremediavelmente doente, um depoimento que nos contasse seu particular “caminho até Gramsci”; um caminho diferente, em muitos e substanciais pontos, daquele que trilhamos os comunistas de extração togliattiana ou de algum modo influenciados pelo antigo PCI e, muito particularmente, pelo eurocomunismo. Giorgio prontamente nos enviou o texto abaixo, que não sabemos se é inteiramente inédito e que, por certo, não é recentíssimo. Seja como for, sua publicação na Itália, se aconteceu, terá sido bastante restrita, de modo que aqui, pela primeira vez, o documento conhece uma difusão mais ampla. Esta também é uma sentida homenagem à memória de Giorgio Baratta — alguém a quem consideramos, desde o primeiro momento e até o fim, um amigo constante deste sítio e, sobretudo, um grande amigo do Brasil (Luiz Sérgio Henriques).
A descoberta
O meu Gramsci nasceu na Alemanha.
Professor visitante da acolhedora universidade de Onasbrück na primavera de 1984, fui convidado a participar de uma “Universidade do Povo” (a Volksuni) que se realizaria em fevereiro de 1985, numa grande fábrica de Hamburgo, a Kampnagelfabrik, em torno daquilo que muitos anos antes, num horizonte antistaliniano, Peter Weiss havia chamado “a linha Rosa Luxemburg-Antonio Gramsci”.
O convite era atraente e insistente. Na verdade, era muito pouco versado em Gramsci, autor então muito esquecido na Itália, mas que, percebia, estava conquistando popularidade em muitas partes do mundo. Na minha formação, apesar da leitura esporádica dos seus textos, Gramsci nunca havia entrado. Politicamente, eu era um filho de 1968, e sobre a cultura política desse período estava então dando um curso na Alemanha. Nos anos setenta Gramsci estava indiciado por togliattismo, pecado grave para uma esquerda maoísta e guevarista. Hoje, está claro para mim que muitos fermentos, ideias, lutas generosas, mas carentes de luz, daquela época, se beneficiariam de um debate sério com a inteligência sóbria e rigorosa, mas ao mesmo tempo rica de imaginação produtiva, de Gramsci. Nós então não o sabíamos, e jogamos fora a criança com a água suja. Disto, e da importância que Gramsci poderia ter para a cultura fin de siècle, não tinha em 1984 nenhuma consciência; talvez só uma vaga sensação.
O que devia responder a Uli Schreiber, o organizador da Volksuni? Hamburgo é belíssima, fantástico é o espaço da Kampnagelfabrik. Uli queria me envolver ativamente na parte italiana das manifestações culturais e artísticas daquele seu projeto, apoiado também por Argument e por Wolf Haug.
Aceitei. E me vi não só proferindo uma conferência bem concorrida sobre a questão Norte e Sul no pensamento de Gramsci, mas ajudando a organizar espetáculos musicais de Giovanna Marini, Paolo Ciarchi e Ivan della Mea, e, com a ajuda direta da minha filha Martina, o curso prático de cozinha italiana (com espaguetes à carbonara, penne all’arrabiata, escalopinhos ao limão).
Passei o verão de 1984 lendo apaixonadamente Gramsci. Naquele período estava a rever de modo crítico os anos setenta, aquele grande movimento sem cabeça, seu extremismo infantil, mas também as idealidades positivas, a riqueza humana, os impulsos múltiplos de nova cultura política que ele havia produzido. Atropelado pelos seus erros, bem como pelas catástrofes dos anos de chumbo e da droga, derrotado politicamente de modo definitivo pela marcha antioperária dos colarinhos brancos da Fiat em 1980, do “movimento” se corria o risco, agora, até mesmo do cancelamento de toda e qualquer memória viva, para usar uma fecunda expressão de Franco Fortini.
Passado e presente. A leitura de Gramsci tornou-se como uma bússola para procurar o fio perdido entre o ontem, o hoje e o amanhã. Ler Gramsci para ler a realidade. Existe um aspecto importante a ser considerado. Em 1975 fora publicada a edição crítica dos Cadernos do cárcere, organizada por Valentino Gerratana. A primeira edição, dita temática, ou melhor, antológica, dos Cadernos, promovida por Togliatti depois da Segunda Guerra Mundial, provocara a grande fortuna de Gramsci, sobretudo, embora não só, na Itália; ela obedecia a critérios de método, a percursos disciplinares, a escolhas político-culturais de marca essencialmente humanista e historicista, obviamente não mais aceitáveis em 1968, muito menos nos anos oitenta. Muitos, que estudaram o Gramsci de Togliatti, mesmo tão meritório, e que não se converteram à edição crítica, não encontrariam mais a via mestra que conduz aos Cadernos: estes são, e como tal devem ser estudados, um não livro, uma sequência de notas e apontamentos, pequenos e grandes, terminados e menos do que isso, numa única (textos B) ou dupla redação (textos A e C), nos quais a política, a filosofia, a história, a ciência, a literatura, a moral, o pamphlet, as crônicas de costume, tudo se encontra entrelaçado como num reticulado — hoje diríamos um hipertexto, que se pode ler de modo circular, buscando as remissões internas, as analogias, os desenvolvimentos, e que mostra uma tensão dialética fortíssima entre gênese e estrutura, entre provisório e definitivo, entre filosofia e jornalismo, entre substância teórica e impulsos práticos.
Ler a edição crítica dos Cadernos é difícil, é preciso ter paciência e perseverança. É como aprender a nadar num rio que corre. É preciso gradativamente entrar naquilo que Gramsci chama de “ritmo do pensamento”, isto é, naquele fluxo cadenciado de elementos heterogêneos, “abstratos e concretos, pensamentos e imagens, cultura alta e divulgação”, que, através do “nosso” trabalho sobre eles, recompõem-se num organismo vivo. Togliatti tinha razão: Gramsci não pertence aos filósofos, é “de todos”. Mas, certamente, não dos preguiçosos e amantes de facilidades, como nos tornamos todos nós na condição de público amestrado pelos meios de comunicação; e sim de um “todo” em formação, através de um processo capilar de educação permanente. O mais fascinante nos Cadernos é precisamente este convite que lhe apresentam — a você, leitor — para intervir, para compreender, mas também complementar, para analisar, mas também perseguir e prosseguir um sentido das coisas, que, socraticamente, nunca está inteiramente já definido. Como se sobre uma fala viva — um diálogo — devesse continuar o trabalho monológico da escrita.
Teria algumas ideias, alguns conselhos a dar sobre como aprender a nadar, mas não penso que este é o lugar para falar disso. Aqui desejo só narrar uma experiência, algumas experiências, sobre os “lugares” de Gramsci. Que são, antes de mais nada, os lugares do meu encontro com ele; em seguida, sobretudo os “seus lugares” e, por fim, os daqueles de quem me aproximei através de Gramsci, todos por ele contaminados pelo desejo de aprender, sem, definitivamente, delegar nada a ninguém.
Creio que as condições carcerárias, tão difíceis e penosas, foram para o ativíssimo dirigente político uma condição que tornou indispensável um enorme esforço de recolhimento em si mesmo e de férrea autodisciplina, para voltar ao estudo meditativo e metódico (e à escrita teórica, com aquela “pena que arranha”) abandonado muitos anos antes, quando decidiu deixar a universidade por diferentes razões, de força maior e por escolha própria, exatamente como um dos muitos estudantes que hoje, sobretudo na Itália, se perdem pelo caminho. Nas Cartas do cárcere, Gramsci escreve que pela primeira vez, na companhia dos companheiros de detenção, confinados e delinquentes comuns — um dos quais, ele escreve, marcado por um crime horrível, tinha os olhos dulcíssimos — aprendeu a compreender o povo meridional. Sofrimentos e degradação física fazem-se acompanhar de curiosidade intelectual, alimentam a criatividade. Por ausência de bibliotecas bem organizadas, o prisioneiro estudioso foi obrigado a lançar mão de fontes aleatórias, que iam desde a leitura às vezes deliberada ou, ao contrário, às vezes casual, de livros e revistas que lhe caíam nas mãos — estimulando meditações, lembranças, emoções intelectuais, imaginações vividas em perfeita solidão — até a reelaboração da experiência concreta do cárcere, que lhe desvendava aspectos contraditórios, mas riquíssimos, do mundo “grande e terrível, e complicado”.
Tendo dito que o meu Gramsci nasceu na Alemanha, quero acrescentar que, depois da “Universidade do Povo” de Hamburgo (não “universidade popular”, sobre a qual Gramsci tinha muitas dúvidas), que me levara a um verão de estudos apaixonados, veio a experiência do círculo “Grazia Deledda”, de Wolfsburg, exatamente no dia do 50º. aniversário da morte de Gramsci, em 27 de abril de 1987. É um círculo de sardos emigrados na Wolfsburg da Wolkswagen, os quais queriam festejar a memória do seu conterrâneo, que, vários anos antes, havia emigrado para a Turim da Fiat. Muitos emigrados sardos nos ofereciam a carne da ovelha. Para tantos deles, Gramsci era pouco mais do que um nome capaz de reatar um fio de símbolos, de memórias, de esperanças, de raiva, de lutas: um fio que me fez cair na rede de uma necessidade da qual a gente sabe que não vai se livrar mais: a necessidade de estudar, fazer, agir por alguma coisa que, no fundo, não sei o que é; a nostalgia — os brasileiros dizem “saudade” — de um mundo diverso, iluminado por aquilo que Gramsci chamava “o progresso intelectual de massa, e não só de escassos grupos de intelectuais”. Gramsci estudava apaixonadamente o folclore e, ao mesmo tempo, o combatia em nome de uma cultura superior, lutava pela unificação política e cultural da humanidade e, no entanto, dizia à irmã Teresina: “Deixe que os seus filhos suguem todo o sardismo que quiserem”. Por isso, seu pensamento é gênese e projeto de uma síntese, a ser refeita e buscada, entre verdade e senso comum, entre ciência e consciência social, entre racionalidade e paixão.
Encontrando estudiosos ingleses e americanos, como Perry Anderson, Tom Nairn, Joseph Buttigieg e Frank Rosengarten, compreendi que no mundo anglo-saxão havia personalidades que retomavam abertamente uma tradição gramsciana popular (um popular gramscism) então negligenciada na Itália, onde a hegemonia togliattiana comportara uma inflexão mais aristocraticamente intelectual e politicista no modo de ler Gramsci. “Popular” não significa “populista”, ao contrário: norte-americanos, como o palestino de origem Said e o negro Cornell West, ingleses como Jacques Martin ou Stuart Hall, de origem jamaicana, embora acentuando fortemente a função de Gramsci para a retomada de uma luta hegemônica baseada na dialética entre povo e cultura, entre massas e intelectuais, levavam Gramsci aos mais elevados e complexos níveis do discurso filosófico contemporâneo e, portanto, ao debate com Althusser e Foucault, com Habermas e Derrida, etc. Por isso, era necessário reconsiderar Gramsci à luz do pensamento crítico do século XX mais penetrante: circulavam nomes como os de Benjamin e de Brecht.
Amigos americanos me falaram do reverendo Herbert Daughtry, assistente de Jesse Jackson, que na Igreja do Senhor de Brooklin pregava contra Reagan em nome da “coalizão arco-íris”, a qual tinha Antonio Gramsci entre suas fontes principais. Era preciso ir, diziam-me, naquela igreja e verificar como o nome de Gramsci podia aparecer numa cerimônia religiosa que se apresentava como um happening, com estupendos spirituals cantados por um coro de mulheres negras.
Era tudo verdade. Quis a fortuna que, falando da minha experiência de Wolfsburg e das notícias de Brooklin com o diretor-geral da RAI 3, surgisse de modo inteiramente imprevisto para mim a proposta de fazer um filme-ensaio sobre Gramsci com um diretor famoso, Gianni Amico, que Caetano Veloso definiu como “o mais brasileiro dos brasileiros”, e era muito próximo tanto de Glauber Rocha quanto de Nelson Pereira dos Santos. Amico é o autor de um filme extraordinário, Trópicos, e de muitos filmes e documentários de alto nível, grande especialista de jazz e de música brasileira. Foi esta a oportunidade de um ano não só de trabalho para o filme, mas de descobertas contínuas e de novas amizades, de estudo e de organização: em resumo, de uma tentativa, talvez marginal, mas para mim preciosa, de “nova cultura”.
Por que negá-lo? Na House of the Lord Church, de Brooklin, tendo ficado a um canto enquanto Gianni Amico filmava, uma deliciosa menina negra veio pegar-me nas mãos convidando-me para participar mais ativamente da cerimônia religiosa: e vieram-me lágrimas aos olhos. Havia muito tempo que não chorava.
2. Particular e universal
O mais interessante, creio, entre os autores que “usam” hoje criativamente o pensamento de Gramsci nas próprias pesquisas é o palestino-americano Edward Said, o grande estudioso de literatura comparada da Columbia University, autor de Orientalismo e de Cultura e imperialismo, o dirigente que iniciou em Washington as primeiras tratativas oficiais com Kissinger para o reconhecimento da Palestina.
Said sublinhou que, diante de uma tradição marxista que privilegiou a dimensão histórico-evolutiva nos processos sociais, Gramsci, “historicista absoluto”, como definia a si mesmo, introduziu no estudo da sociedade e da história um fortíssimo “senso do espaço” e do “território”. A “questão meridional”, isto é, da “hegemonia”, tanto na Itália como no mundo, da “cidade” sobre o “campo”, ou seja, do “Norte” sobre o “Sul” (que não muda, se se apresenta em termos exatamente invertidos, como no Brasil); a antítese entre Oriente e Ocidente, como entre duas modalidades diferentes da relação entre desenvolvimento econômico, sociedade civil e Estado; a América como “prolongamento orgânico” da Europa; o nexo orgânico, mas extremamente diferenciado, entre especificidades locais e contexto universal no qual cada uma delas se insere (“toda história particular vive só no quadro da história mundial”) — esta profunda atenção à geografia política e cultural torna Gramsci o pensador do século XX que, talvez mais do que qualquer outro, teve consciência da dimensão-mundo dos fatos humanos (ou da “mundialização”, como hoje se diz).
O “sardo sem complicações psicológicas” — como, entre o sério e o irônico, escreveu sobre si do cárcere à mulher russa na distante Moscou — conquistou a cidadania honorária do planeta Terra.
Aos vinte anos, abandonou a luz sublime do desmedido céu da sua infância. Chegou no “continente”, ainda com o grito “ao mar, os continentais” atravessado na garganta. A escola da classe operária turinense é que o fez superar aquele primitivo “sardismo” e alcançar uma consciência ao mesmo tempo nacional-popular e internacionalista na sua projeção, com o pensamento e a ação, para uma “cidade futura” e uma “ordem nova”.
A posição de dirigente político levou-o ao observatório privilegiado, em anos ainda riquíssimos de fermentação científica, artística e intelectual, de algumas grandes capitais: Roma, Moscou, Viena.
Pequeno e corcunda, com a face grande e sorridente e a longa cabeleira que ondeia sobre a testa, “há muitos anos habituado a pensar que existe uma impossibilidade absoluta, quase fatal”, de poder “ser amado”, descobriu a alegria da paixão amorosa e da paternidade no Oriente socialista. Mas os compromissos políticos foram absorventes. E já em Viena, em 1924, dirigente da Internacional, distante de um amor apenas esboçado e só fragmentário, sente-se como “um ponto de interrogação no infinito espaço”. Haveria de chegar o momento, no recinto atormentado da cela de prisão, em que o ponto de interrogação se transformaria num ponto final, sem nenhuma continuação possível. Ele escreveria: “O tempo me parece algo corpóreo, uma vez que o espaço não mais existe para mim”. No entanto, narrando sua transferência ferroviária para o cárcere de Civitavecchia, ele escreveria a Giulia que “o vasto mundo tinha continuado a existir com seus prados, seus bosques, a gente comum, os bandos de rapazes, certas árvores, certos jardins...”.
Um vasto mundo se interpusera entre ele e seus filhos moscovitas, em relação aos quais ele se sentia como um “holandês voador” (não sabiam que o pai estava no cárcere, não conheciam sua língua, um dos dois jamais o encontrou). Os laços de Gramsci com a família sarda eram muito frágeis; do cárcere, não trocou jamais uma carta com o pai, ex-preso, já cancelado do seu horizonte de vida; a morte da mãe — “o seu afeto mais puro” — lhe foi escondida por muito tempo. Tanto o Partido Comunista da Itália quanto a Internacional — com cuja linha viria a se aprofundar um sulco de divergência cada vez mais insanável — condenaram-no ao isolamento político.
Talvez não seja um acaso que, nos Cadernos, Gramsci cite, de Darwin, A viagem de um naturalista em torno do mundo. Para ele, que, quando jovem, assimilara o “método por área” ou “espacial” do seu mestre Bartoli, tão atento à “distribuição geográfica dos fenômenos linguísticos”, a oportunidade para uma extraordinária viagem intelectual — ou intelectual-emocional, como sublinhou Edoardo Sanguineti — “em torno do mundo” e dos seus fenômenos. A metáfora hipertextual da “navegação” talvez seja apropriada para qualificar tanto o modo que devemos seguir para penetrar progressivamente nos meandros dos Cadernos, como, antes ainda, a modalidade seguida pelo próprio Gramsci para se aproximar de territórios do mundo e do saber bastante distantes entre si, mas todos reunidos pela qualidade desta navegação: como se, da “pequena barca do seu engenho”, um Ulisses metafórico do século XX tivesse conseguido lançar uma “rede” que recolhia tesouros, monumentos, documentos, vestígios das muitas terras encontradas na viagem.
3. Crítica ao americanismo
Como Kafka, no início do século XX, Gramsci viu a “América” como um terreno avançado de contradições e de lutas, de alienações e de utopias.
Como Chaplin, em Tempos modernos, Gramsci viu crescer com o operário das grandes fábricas fordistas “um novo tipo de homem”, que Taylor sonhara reduzido a “gorila amestrado”.
Como Brecht, no entanto, Gramsci sabia — e também o sabiam, ele diz, os industriais americanos — que “um homem é um homem”, ou seja, que, “infelizmente, um homem permanece um homem”: o fato de que não lhe seja dado pensar dentro do trabalho na cadeia produtiva favorece o surgimento, nele, de um “curso de pensamentos pouco conformistas”.
Como Benjamin, Gramsci considerava a taylorização do trabalho intelectual, o ocaso do humanismo, do homo faber, da aura, o conúbio entre arte e tecnologia, como uma nova Atlântida, cujo pensamento laico e socialista se devia criativamente apropriar, projetando — com o comunismo — um grandioso e progressivo processo de unificação do gênero humano.
Homem de inflexíveis princípios e de vastíssimos horizontes, Gramsci era um intelectual sóbrio, sereno, irônico, desconfiado das abstrações ideológicas, amante do particular, do detalhe, do pouco mas concreto, capaz de destilar de audazes empreendimentos teóricos formulações provisórias e fragmentárias, necessitadas de desenvolvimento.
Nunca foi à América. No entanto, em torno do “fenômeno americano” condensou suas mais inovadoras antecipações, antecipadoras de processos econômicos, políticos e culturais, que, para o bem e para o mal, ainda e sempre atormentam a humanidade na nova passagem “de um século a outro”.
“Com o peso implacável da sua produção econômica”, desta sua “revolução passiva”, a América estava criando “com rapidez inaudita um tipo novo de trabalhador e de homem”, arrastando a Europa e o mundo para “uma transformação da forma de civilização existente e o nascimento forçado de uma nova civilização”.
O que é melhor, o bom velho ou o mau novo? A Europa — diz Gramsci — “quer fazer a omelete sem quebrar os ovos”: ter “todos os benefícios” do american way of life e do fordismo, “mas conservando o seu exército de parasitas”, fósseis do “pessoal estatal e dos intelectuais, do clero e da propriedade fundiária, do comércio de rapina e dos oficiais do exército, o qual foi inicialmente profissional e depois passou a basear-se no recrutamento, mas é ainda profissional no nível do oficialato”.
O modelo “democrático” americano era — segundo Gramsci — decididamente superior, no quadro do modo de produção capitalista, ao “autoritário”, que havia se afirmado na Itália e se delineava tanto na Alemanha quanto em outros países europeus. A ausência, numa certa medida, dos intelectuais tradicionais permitira a formação maciça com base industrial de todas as superestruturas modernas: a “hegemonia” — na América — “nasce da fábrica”.
Gramsci não era nem pró nem contra a América, segundo um esquema usual na Europa. “O antiamericanismo, mais do que estúpido, é cômico”, dizia, porque a América é só o “prolongamento orgânico” da civilização europeia e, cedo ou tarde, deverá ajustar contas com a herança europeia e a complexidade das questões superestruturais inerentes à sua história. Por outro lado, a Europa assimilará o americanismo como elemento caracterizador não só de uma grande área geográfica, mas sim do novo corpo e da nova alma do capitalismo, em cujo contexto seria então a Europa quem se apresentaria como “prolongamento orgânico” da América estadunidense. E hoje isso se torna a cada dia ainda mais verdadeiro, depois do colapso do “socialismo real”. Superado o fordismo, como modo de produção e de vida, surge cada vez mais absorvente o americanismo, como modo de sentir e de consentir em relação às escolhas do poder econômico e militar dominante no mundo.
4. O tempo e o espaço
“Toda a história é testemunha do presente.” Se esta reflexão nos Cadernos traz luz, ganha mais evidência a confissão numa das Cartas — depois de três anos de cárcere — de que “o tempo me parece algo corpóreo, uma vez que o espaço não mais existe para mim”. A busca apaixonada e capilar do sentido do passado era, pois, um modo, não destituído de desespero e, no entanto, racional e produtivo, de reatar os fios que ligam a cela estreita ao vasto mundo que continua a existir...
“Parece-me — escrevia Gramsci de Viena para a amada Giulia — que me tornei um ponto de interrogação no espaço imenso.”
Quem atravessou as estradas, o bosque e o campo de Ghilarza até Santolossurgiu revive imediatamente uma imagem, ao ouvir estas palavras, que associam a metáfora à realidade, ao conceito do “mundo grande e terrível”, a uma emoção intelectual, que nos conduz à geografia e à história de todos os dias, em todos os tempos e em todos os espaços.
Este movimento, verdadeiramente leopardiano, de sentir o próprio e minúsculo eu como um simples elo na grande cadeia das gerações e das populações da humanidade é o fluxo de ideias e de emoções que ainda emana de Gramsci. É um fluxo — disse Sanguineti — que, pela complexidade do esboço, faz apreciar mais ainda a hölderliniana heilige Nüchternheit (a sacra sobriedade) que a escrita de Gramsci comunica.
Por isto, os seus lugares também são os nossos.
5. O Mestre, o Chefe de Partido, o Filósofo Democrático
Battista Santhià (nascido em Santhià, na atual “Padania”), o protagonista das lutas operárias e, com Gramsci, do movimento conselhista do biênio vermelho, durante uma longa conversação travada com Gianni Amico e comigo para o filme-ensaio Gramsci, l’ho visto così, exclamou com decisão: “Gramsci era um chefe que sabia escutar”.
Muitas vezes os seus companheiros ficavam até mesmo com a boca seca, porque haviam falado demais (ele perguntava e queria saber de tudo); e ele não tinha mais tempo. Santhià, operário especializado, que foi no pós-guerra, durante o breve período da cogestão empresa-sindicato, diretor-geral de pessoal da Fiat, insistiu muito na unidade substancial, em Gramsci, do dirigente conselhista, do chefe de partido e, depois, do filósofo democrático na época carcerária. É um discurso complexo e controvertido, do qual quero sublinhar aqui só um aspecto, que ficou em mim como um sinal indelével do encontro com Santhià: a centralidade de Gramsci como mestre educador, o que se reflete em todo o seu percurso de vida e de ação: o de um “educador educado”, que, como sabemos, concebia a “luta hegemônica” como uma enorme, viva exercitação nos níveis mais diversos: local, regional, nacional, internacional.